quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Madeleine


"Há um demônio rastejando por todo o seu chão,
(até quando?)
Há um demônio rastejando por todo seu chão,
(até quando?)
Com um coração trêmulo, ele está passando por sua
porta..."
(Nick Cave and The Bad Seeds)


Louis era um rapaz novo, mais novo do que aparentava ser. Distraído, sempre deixava que os detalhes lhe fugissem. Estava há anos em Wilmont e sequer recordava a dta que havia chegado. A primeira impressão que passava era a de um homem solitário, de poucas palavras e poucos amigos. Embora fosse jovem, seus vinte e dois anos pesavam como centenas em suas costas.
Louis morava numa pequena casa na entrada da cidade. Pouquíssimas vezes ousara sair dela para outro fim senão os que apresentavam verdadeira necessidade. Sua poltrona antiga, sua bebida e sua vitrola lhe eram companhias perfeitas em meio o ambiente lúgubre em que vivia.

Sua casa era um lugar escuro e as lamparinas mal iluminavam os cômodos. Além de escura, era também vazia e alguns dos quartos jamais haviam sido usados. A vida ali dentro se resumia na sala e banheiro, raramente na cozinha, que Louis só utilizava quando procurava um modo de abrir uma de suas garrafas, ou procurava algo simples para comer.

Rodeado de lembranças, seu presente sempre fora tomado pelo passado.
Ás vezes passava o dia inteiro sentado em sua poltrona, olhando para janela, com suas eternas lembranças a vagar pela casa. Nesses dias, só desviava o olhar quando procurava o fósforo para acender seu cigarro extra forte. E suas lembranças eram boas, nelas ele vivia e revivia momentos agradáveis. Cercado de amigos e bebida, cercado por boa música e boas conversas, lembranças que o tempo não pôde apagar.

"- Nem afastar de mim." - Pensava.

Mas ultimamente Louis estava preocupado, com sua própria sanidade talvez. Ultimamente não sentava mais em sua poltrona, degustando sua bebida favorita e lembrando dos velhos tempos. Nos últimos dias só uma coisa o preocupava: a mulher que toda noite entrava por sua porta e dizia coisas que ele não queria ouvir.

******

- Seis horas. - Ele disse olhando pro relógio que marcava quatro e quinze da tarde. - Seis horas ela chega. Até lá eu espero. - Falou e deixou que o som morresse no ar frio e seco de sua sala.

A neve caía timidamente do lado de fora enquanto a voz de Nick Cave ecoava pelos cantos da sala.
Louis se levantou para trocar o lado do vinil e quando o fez se interessou pela paisagem do lado de fora e foi até a janela para ver o tempo.

- Como essas horas demoram a passar. - Falava e sentia a solidão maciça ao seu lado, como uma estátua, concreta. - Não vou aguentar esperar.

Mas ele sabia que não havia outro jeito, ele teria que esperar.

- Uma mulher que mal conheço, como pode mexer tanto comigo!? - Exclamava em seu pensamento. - Maldita!

Louis se afastou pesarosamente da janela, sentou novamente em sua poltrona e fechou os olhos enquanto o som tornava-se novamente alto.

"Do you love me?
Do you love me?" - Tocava.

******

Louis acordou com o vento frio cortando sua face, abriu os olhos rapidamente e viu a escuridão entrando por sua porta e com ela Madeleine entrava.
Com seus trajes dos anos 20, mais parecia uma dançarina de algum cabaret de luxo. Para Louis parecia uma boneca perfeita. Com sua boina pendendo em sua cabeça sob seus cabelos extramente lisos e curtos. Sua boca cor-de-sangue, seu colo perfeitamente desenhado e sua pele que reluzia embaixo da meia-arrastão de trama larga.

- Lui, Lui... - Ela disse e ele mal podia acreditar que aqueles lábios macios e a voz maravilhosa se referiam a ele.

Ele olhou para o relógio, eram seis e quinze.

- Não precisa me dizer que demorei. - Ela disse.

- Eu não... - Ele tentou falar, mas sua voz falhou a fazendo sorrir.

- Não se justifique para mim. - Ela sorriu.

- Madeleine porque insiste em brincar comigo? - Ele perguntou e imaginou mil respostas diferentes.

- Se você chama isso de brincadeira... - Ela respondeu.

- Madeleine, o que quer de mim?

- De novo a mesma pergunta Lui? Já disse que nada que você não possa oferecer facilmente meu caro, mas não se preocupe, falaremos disso outro dia.

- Não! - Ele exclamou. - Não, outro dia não! Quero que fale agora! Há dias vem me visitando e nada sei sobre você!

- Nada sabe sobre nada, meu caro amante. - Ela fez a última palavra soar com malícia o fazendo corar.

- Madeleine, por favor.

Ela negou com a cabeça.

Loius que havia se levantado voltou a sentar em sua poltrona a fitando. Ali ela estava, perfeita em todos os sentidos e ele mal a conhecia.

"Madeleine, você sabe o que tem feito com minha vida? Tem a mínima noção do que tem feito com minha funesta vida?" - Ele pensava enquanto seus olhos percorriam o corpo daquela figura que iluminava o lugar.

Madeleine deu alguns passos á frente, fechando a porta sem olhar para trás. Para Louis era incrível como todos seus movimentos pareciam graciosos. Ela se aproximou da pequena mesa que ficava embaixo da janela e passou uma das pernas por cima dela, jogando levemente seu peso.
Olhou para trás e segurando a cortina falou:

- Aqui escuresse tão rápido. Olhe só, poderia jurar que já são oito da noite. - Olhou para Louis que permanecia em silêncio apenas a olhando.
"- Acho que está se cansando. " - Ela pensou, se esforçando para sorrir.

Tirou sua perna vagarosamente de cima da mesa, olhando para ele e vendo o resultado de sua provocação aproximou-se dele.

- Não fique triste Lui, logo partiremos desse lugar.

Louis se assustou e acordou da hipnose que sua aproximação havia provocado.

- Partiremos? Como assim? - Quase gritou.

- Não se apresse. Só o que posso adiantar é que... - Ela não terminou. - Tenho que ir.

- Madeleine! - Louis tentou segurar em seus braços, mas ela pareceu escorregar entre seus dedos, alcançando a porta com rapidez.

Louis correu até a entrada da casa, mas a escuridão o impediu de ver para qual lado ela havia seguido. Então ele voltou para dentro e dando o último gole que restava no copo, sentou-se e fechou novamente seus olhos.

******

Era noite, o chiado do aparelho de som percorria pela casa. Louis havia adormecido no sofá. Acordou ainda bêbado e o silêncio interrompido o assustou. Na verdade ele sabia que esperava por Madeleine, sua musa misteriosa, mesmo sabendo que era uma espera vã.

" - Ela não irá voltar, seu tolo." - Falava para si mesmo enquanto levantava e ia em direção a cozinha.

Louis se aproximou da geladeira e a abriu, fez uma careta quando viu que não tinha nada dentro e que sequer estava ligada. Voltou-se em direção a porta e sorvou um gole de conhaque que estava numa garrafa sem tampa em cima da mesa.

"Você não sabe nada sobre nada meu caro..." - Lembrou-se das palavras de Madeleine, sua voz parecia ecoar dentro de sua cabeça.

Levantou-se e pegou seu pesado casaco empoeirado e foi em direção da porta principal. Saiu, na tentativa de se distrair, mesmo sabendo que a madrugada seria longa, de uma forma ou de outra.

******

Sua casa era rodeada de árvores e embora ele saísse muito pouco, conhecia bem o caminho que levava até a cidade.
Andou por meia hora na trilha estreita, suas pernas pesavam e sua cabeça parecia rodar em meio toda aquela escuridão.
Quando estava quase atingindo os trilhos do trem sentiu-se desanimado e sentou-se numa pedra que estava á beira da trilha que seguia. Apoiou os cotovelos no joelhos e abaixou a cabeça, não sabia o que estava fazendo ali.
Teve a impressão de ter dormido por algum tempo, pois quando abriu novamente os olhos algo parecia diferente. O silêncio era absoluto.
Levantou-se e seguiu seu caminho. A madrugada gelada o fazia tremer.

******

Louis atingiu a estação de trem e logo estava subindo pela estrada em direção a cidade. Assim que chegou, notou que a cidade parecia morta. Nada havia nas ruas gélidas de Wilmont, não havia ninguém. Continuou andando até que chegou no Centro da cidade e apesar de estranhar, não temeu hora nenhuma o fato da cidade estar deserta.

"Wilmont, Wilmont..." - Pensava enquanto andava.

As calçadas úmidas e o frio intenso quase o desanimaram, mas ele seguia em frente.
No período em que a neve deixava de cair parecia mais gelado, Louis quase sentia falta de alguém para conversar.
Ele andava a procura de algum bar quando se aproximou do final da calçada e se distraiu olhando para o semáforo. Quando voltou a olhar para baixo viu um vulto que acabava de virar a esquina, um vulto que ele pôde reconhecer, era o vulto de Madeleine.

Sem pensar muito atravessou a rua correndo e seguiu na mesma direção que ela havia seguido. Assim que alcançou a rua onde supostamente ela estaria ficou surpreso por não a ver. Seu perfume era inconfundível e paraiva no ar.

"- É ela! É claro que é ela!" - Falava para si mesmo.

"Ela é real! Não estou ficando louco!" - Pensava enquanto acendia outro cigarro e voltava a aumentar os passos em sua procura.

Louis andou durante horas e horas. Em cada esquina parecia mais perto de Madeleine. Algumas horas tinha a impressão que se esticasse as mãos a tocaria, outras ouvia com nitidez o barulho dos seus saltos enquanto ela corria, parecendo fugir.
Entre um cigarro e outro Louis continuava sua procura, sem cansar. Ás vezes andava em círculos durante horas.

"Aonde você está indo Madeleine?" - Falava com o rastro que ela parecia deixar a cada passo.

E assim continuou até que a madrugada finalmente se foi, dando lugar á aurora triste e cinza.

Louis então sentiu que ela havia partido de vez. Sentiu como se realmente ela houvesse deixado de estar ali. Olhou para o relógio, era sete e quinze da manhã. Só então enrusbeceu ao ver que a cidade continuava deserta.
Olhou para os dois lados e resolveu voltar para casa. Só no caminho de volta percebeu o quanto estava cansado.

"Mal vejo a hora de chegar." - Pensou.
Embora estivesse muito cansado Louis atravessou a floresta rapidamente e logo estava entrando em casa e embora não quisesse, sabia que passaria o dia á espera de Madeleine.
E assim foi. Louis passou o dia em sua sala á espera dela, em sua cabeça milhões de pensamentos, em seus pensamentos milhões de perguntas.

"O que está acontecendo comigo?" - Se perguntava. - "Quem é essa mulher?"

No fundo Louis sabia que havia algo errado, ele morava ali há anos e conhecia bem os segredos de Wilmont. E embora já esperasse pelo pior, o que mais o intrigava era como aquela mulher o havia mudado. Ele conseguia se expressar muito bem com ela, mesmo sabendo que sempre fora muito tímido com as mulheres.

"Como se eu já a conhecesse." - Pensava. - "Como se fosse uma velha amiga."

Conseguia se desprender de seus hábitos enquanto estava com ela e se sentia bem outra vez em sua presença.

"- Há algo errado." - Ele dizia.

Apesar de ansioso pela chegada dela, Louis não aguentou o cansaço e acabou cochilando em seu sofá velho. Quando abriu os olhos Madeleine já estava lá, sentada em sua poltrona.
O que viu o fez gelar por inteiro. A bela mulher de outrora, havia se transformado em uma criatura triste de olhos desesperados.

Madeleine parecia chorar, estava de cabeça baixa olhando os cortes em seus braços e lamentando sua roupa suja de sangue.

- Lui... - Ela disse levantando o olhar.

- Madeleine o que houve com você? - Ele perguntou dando um pulo do sofá.

- Lui... - A voz dela parecia não sair.

- Madeleine! - Ele disse se aproximando.

Ela esperou que ele se aproximasse - O que fazia atrás de mim?

Nesse momento o olhar de Madeleine pareceu mudar e a face desesperada agora exprimia sua raiva. Louis tentou se afastar quando notou sua mudança, mas viu que era tarde.
Madeleine que estava com um pedaço de espelho em uma das mãos, levantou-se e foi em sua direção, o agarrando fortemente.

- Madeleine espere! - Louis gritava enquanto tentava se desvenciliar dela. - Espere!

Mas Madeleine parecia cega de ódio e com um único objetivo, ferí-lo.

- Mad... - Louis falava enquanto perdia as forças. O corpo de Madeleine pesava sobre o dele, parecia mais forte do que qualquer outra coisa que já tinha visto. Com movimentos bruscos ela o cortava, alguns ferimentos profundos, outros cortes superficiais.

- Madeleine... - Louis perdeu finalmente as forças, caindo no chão, depois de lutar por sua vida ferozmente.

Louis sentiu todo cansaço de seu corpo. Sentiu todo o cansaço de anos sofridos. Sentiu cada arranhão e cada corte que ardiam em sua pele morena. Sentiu que seu sangue escorria sendo derramado no carpete envelhecido.
Louis sentiu uma lágrima, talvez a última, que solitariamente escorreu pelo seu rosto e finalmente fechou seus olhos.

Madeleine não estava mais ali.

******

Louis abriu os olhos e viu que ainda estava no meio da floresta. O frio parecia ter congelado suas mãos. Com dificuldade levantou-se e pondo-se de pé olhou para os lados.

- Mas o que... - Não terminou de falar.

Pegou sua garrafa que estava encostada na pedra que sentara outrora. Olhou para cima e viu que o céu continuava negro. Decidiu então que não seguiria em frente e voltou pela mesma trilha que viera.

Chegou em casa e assim que entrou na sala sentiu o perfume de Madeleine, mas não a quis procurar. Ligou seu aparelho de som e jogou-se de qualquer jeito no sofá, acendeu um cigarro e fechou os olhos acompanhando a música que tocava.

"Wilmont, há tantos anos lhe evitando. E você vem até mim..."

Do outro lado da casa Madeleine prestava atenção nos ruídos que Louis provocava.

"Lui, Lui..."



sábado, 13 de junho de 2009

O Lago de Lilith



"Um jovem anjo aparece em frente do templo
A saliva dela gruda sob suas asas
Sangue fresco pinga de suas sombrancelhas
Ele abre suas mãos e pede mais
Eu fecho meus olhos e lambo sua torrente de lágrimas
Corpos preguiçosos jazem nos degraus
Vítimas do amor chamuscados pelo sol..."


"Eu estava deitada em minha cama, como em muitas manhãs, mas algo estava diferente. Do lado de fora o vento gelado varria as ruas desertas de Wilmont e tocava lugubremente a janela do meu quarto.

Meus olhos cansados fitavam sem interesse o teto do cômodo, uma tímida lágrima escorria enquanto meu pensamento me levava pra longe.
Mais um outono em Wilmont."

******
Calcei minha meia-calça e minha bota, vesti minha saia de couro que raramente eu usava, passei uma maquiagem pesada e quando acabei espiei a tarde triste pela janela. A casa estava vazia como sempre e quase era possível tocar a solidão.
Tudo parecia assustadoramente normal, a música baixa, o frio do lado de fora, o cigarro pela metade no cinzeiro e até a mesma bebida no copo.
Eu estava há um bom tempo afastada das ruas de Wilmont, há um bom tempo os mistérios da cidade não me cercavam mais, mas embora tudo parecesse normal e quase inerte eu sabia que algo me esperava, algo novo talvez.

"- É hora de voltar." - Pensei comigo mesma enquanto levantava da poltrona e saía de casa.

Assim que cheguei do lado de fora pude sentir o vento frio em minhas pernas, acendi um cigarro e a nostalgia me tomou por inteira.

Era quinta-feira e o final do outono já apresentava as características do inverno. Andei como sempre pelas ruas quase desertas e a cada trago o vento parecia me guiar para um só lugar: a Estação de Trem. Apesar de conhecer tão bem aquelas ruas, algo novo parecia vagar pela cidade e eu não podia nem prever o que era.
Andei durante um bom tempo, na minha pequena mochila a garrafa de coquetel de mel estava quase cheia.
Quando já estava bem próxima ao meu destino, peguei-a e sorvei um gole da bebida que me esquentou docemente por alguns instantes.
O céu enegrecia a cada minuto e a tarde cinza e gelada se transformava vagarosamente numa linda noite fria.

Cheguei á estação por volta das seis e meia. Tirei novamente a garrafa da mochila e bebendo caminhei até o final da estação. O lugar era imenso e estava vazio, somente alguns funcionários vagavam distraídos.
Assim que cheguei no último banco sentei-me, acendi um cigarro e deixei que meu olhar se perdesse na paisagem verde do outro lado. Me distraí por longos minutos, eu acho, pois quando olhei para o lado notei que havia um grupo de pessoas no extremo oposto da estação. Sem muito interesse, voltei meu olhar para o mesmo lugar de outrora.

******

" - Esse lugar é tão solitário quanto você... Garota esquisita." - Eu dizia para mim mesma enquanto a noite finalmente tomava seu lugar.
As pessoas que havia visto ainda estavam na estação, era um grupo de sete á oito pessoas, em sua maioria, mulheres. Me distraí olhando-as quando percebi que um dos rapazes se aproximava com um andar sombrio. De longe não podia ver quem era, mas sabia que conhecia aquele jeito de algum lugar. Quando a distância diminuiu significativamente, pude ver seu rosto. Era Louis.
Louis era um velho amigo, de boas e más horas que há tempos eu não via. Negro, alto, com um sorriso reconfortante e uma risada engraçada. Era soturno por natureza e eu não o imagina sem ser trajando luto. Em poucos segundos viajei até uma outra época, onde bebíamos e conseguíamos nos divertir com tão pouco e em poucos segundos voltei ao presente e deparei com a surpresa naqueles olhos tristes.

- Não posso acreditar! - Ele exclamou. - Você!

- Meu amigo. - Retruquei enquanto me levantava para cumprimentá-lo.

- Caramba - ele parecia realmente surprêso - você está sumida, quanto tempo não nos vemos?

- Anos amigo, anos.

- E como você está?

- Nesse frio? Estou muito bem. Vai um gole? - Perguntei esticando a garrafa em sua direção.

- Claro. - Ele disse olhando para a garrafa. - Velhos costumes nunca morrem, hein? A mesma bebida de anos atrás.

Eu apenas sorri.

- Vejo que você está acompanhado essa noite, muito bem acompanhado. - Falei enquanto ele bebia.

- Alguns amigos, queridos amigos. Vamos até lá?

- Não sei se devo, não quero tirar a harmonia do grupo. - Falei sorrindo.

- Imagina, será um prazer.

Caminhamos então até onde seus amigos estavam. Enquanto nos aproximávamos contei, eram quatro meninas e três rapazes, contando com Louis. O grupo se divertia livremente, pareciam unidos. Estavam levemente ébrios pelo que pude notar e conversavam discretamente.
Fiquei receosa, não estava acostumada a sair com muitas pessoas. Dei um gole e finalmente nos aproximamos de um dos rapazes, que estava um pouco isolado.

- Adrian, essa é a Malina, a encontrei perdida aqui. - Disse Louis.

- Prazer. - Falei esticando a mão.

- Como vai? - Disse o rapaz.

Embora eu ainda temesse que minha presença não fosse bem-vinda, depois de uns minutos já estava mais á vontade. E embora a conversa tivesse tomado um tom mais alto, eu mal conseguia me concentrar no que eles diziam. Estava distraída quando Louis dirigiu-se a mim:

- Malina, você quer nos acompanhar?

- Desculpe, - falei balançando a cabeça - pra onde mesmo?

- Para o Lago. - Disse Adrian.

- Que lago? Aonde fica? - Perguntei.

- O Lago de Lilith. - Explicou Louis. - Fica há uns quilometros daqui, vamos seguir pelos trilhos do trem e depois pegamos uma pequena trilha.

- Nunca ouviu falar desse lago? - Perguntou Adrian.

- Não e olha que eu moro aqui há bastante tempo.

- É divino... - hesitou com um sorriso sarcástico no rosto -...vocês entenderam.

Ainda conversamos durante muito tempo, até que as risadas tomaram um tom de embriaguês e a madrugada caiu como um véu, morbidamente gelado, sobre nós.

- É hora de partir. - Disse Adrian.

******

Eu não fazia idéia de que horas eram, tampouco me preocupei em saber. Estávamos andando nos trilhos e a madrugada parecia nos embalar gentilmente. Andamos bastante até que chegamos na trilha, senti certa insegurança quando vi que teríamos que atravessar a floresta praticamente intocada.
As meninas animadas, pareciam conhecer muito bem aquele caminho. Os rapazes estavam tranquilos. Entramos na trilha um por um até que Louis se aproximou novamente.

- Agora estamos quase lá.

- Deve ser um lugar lindo. - Eu disse distraída.

- E é, já viemos algumas vezes.

- Mas aonde vamos ficar? Quer dizer, vocês estão com essas mochilas que suponho serem barracas, mas e eu? - Falei sorrindo.

- Não tem problema, você pode ficar na minha que fico em outra qualquer.

- Ah sim, já estava achando que ia ficar no sereno. - Brinquei.

- Imagina amiga, nunca.

Continuamos a caminhar pela trilha escorregadia e úmida. A noite nos cercava e a escuridão vagava entre as árvores altas.
Andamos bastante e eu já sentia meu corpo aquecido quando finalmente encontramos uma clareira. Eu não pude identificar o que nos cercava pois estava extremamente escuro então só montamos as barracas enquanto bebíamos e ríamos da situação.
Acabamos de montar e fomos dormir. Me senti insegura novamente, mas logo adormeci.
******

Não dormi por muito tempo e logo acordei com um barulho vindo de fora da barraca. "Alguém deve ter perdido o sono" - pensei enquanto despertava.
O barulho ficou ainda mais evidente então resolvi sair para ver quem era e para aproveitar e tomar um gole de bebida já que o frio era quase insuportável. Calcei minha bota e abri a barraca, mas logo que saí vi que não havia ninguém. O barulho tinha cessado.
Fiquei curiosa no primeiro instante, mas não dei muita importância.
"Seja lá quem foi deve ter desistido de ficar aqui." - Pensei e pegando uma garrafa entre as coisas que ficaram do lado de fora, resolvi que faria o mesmo.

Quando virei para entrar novamente na barraca vi algo que me chamou atenção, um vulto parecia ir de volta em direção á floresta. Pensei em gritar, mas desisti pois acabaria acordando as outras pessoas, segui então em direção á ele.

A aurora anunciava sua chegada deixando o lugar com um tom mágico de azul. Entrei na floresta e logo pude ver o vulto que agora se movimentava rapidamente, aumentei meus passos tentando não perdê-lo de vista. Quanto mais eu andava mais ele corria e a distância entre nós só parecia aumentar, foi quando de repente ele parou me fazendo parar institivamente, só aí vi que era um homem e que estava completamente despido.

Me senti envergonhada, mas ao mesmo tempo atraída pelo estranho acontecimento, na hora pensei que podia ser algum dos rapazes, afinal eu não sabia o porquê deles estarem ali, mas logo vi que a silhueta não correspondia a nenhum deles.

Fosse quem fosse estava ali parado, há alguns metros de mim, totalmente despido enquanto fazia um frio terrível. Minha cabeça estava confusa pois queria chamá-lo, mas o que consegui foi só ficar em pé, parada, com o olhar completamente fixado naquele ser de atitude tão estranha.
Depois de um tempo sem conseguir tirar os olhos dele, sua imagem parecia se aproximar lentamente mesmo sem ele se mover nenhum milímetro de onde estava. Só então pude finalmente admirá-lo, pois era alguém digno de admiração.
Seu corpo era perfeito. Na verdade ele parecia ter sido desenhado naquela paisagem escura. Os olhos de verde intenso pareciam flamejar, a boca bem desenhada, o queixo bem definido. Os cabelos como seda parados sob a brisa gelada, a pele lisa, sem imperfeições. Os músculos bem definidos.
Sua imagem se aproximou ao máximo e então como num sonho eu estiquei a mão para tocá-lo e senti sua pele macia quase surreal. Embora eu o tivesse tocado, ele permaneceu imóvel e assim continuou enquanto eu o reparava com destreza. Seus olhos agora mais vivos prendiam toda minha atenção.

"Um anjo" - pensei e ele sorriu.

Nesse momento me assustei e dei alguns passos para trás. Ele continuou a se mover, lenta e graciosamente até que tocou meu braço e subindo a mão, tocou meu pescoço. Aproximou então seu rosto do meu e gentilmente, tocou meus lábios com os seus.
Longos minutos pareceram se passar, senti que ele me guiava pela floresta, de olhos fechados pude senti seus movimentos. E mesmo de olhos fechados eu parecia poder enxergar a minha volta, vi quando nos aproximamos das barracas, parecendo sobrevoar sobre elas e quando finalmente chegamos na beira do lago.
O lago era maravilhoso, sua água verde cristalina. No outro extremo dele, jaziam montanhas frias e solitárias.
Tudo parecia um sonho quando ele finalmente me deitou na margem, seu corpo tinha uma temperatura agradável e nessa hora pesava sobre mim. Longas horas se passaram até que adormeci em seus braços.

******

Acordei com Louis em pé ao meu lado.

- Caramba, você dormiu aí? - Falou dando um gole no vinho.

Eu sorri sem graça.

- Acho que sim. - Respondi.

- Não sei como aguentou, fez muito frio essa madrugada.

- Essa bebida esquenta mesmo né? - Brinquei.

- E então, o que achou do lago? - Ele perguntou virando para frente para contemplar a paisagem perfeita á nossa frente e só então eu pareci voltar á realidade.

- Maravilhoso, perfeito.

Nesse momento ele tomou uma postura mais rude e sem me encarar, deu um trago e disse:

- O que houve?

- Quando? - Perguntei confusa.

- O que houve para você sumir daquele jeito? Aconteceu alguma coisa?

- Para ser sincero amigo, prefiro não tocar nesse assunto.

- Porque você veio para cá? Há essa altura já deve saber que não é tão bom estar aqui.

- Essa cidade me conforta amigo. - Falei deixando que meu olhar descansasse nas águas frias do lago.

- Imagino que já tenha acostumado, mas isso nunca é bom. As pessoas, os lugares, é tudo muito perigoso.

- Eu gosto daqui. - Limitei-me a dizer.

- Já encontrou as respostas que queria?

Sem responder acendi um cigarro e ele voltou a olhar para mim, percebendo que o assunto havia acabado.

- Esse fim de semana vai ser ótimo.

- Não pretendo ficar meu caro. Parto daqui a pouco.

- Mas... - Ele não continuou.

- Tenho que ir. Mesmo.

Ele não falou mais nada, então levantei-me lentamente e só aí vi o quanto estava exausta.

"Deus, como estou..." - pensei.

- Cansada. - Disse Adrian, se aproximando.

- Sim, cansada. - Falei sorrindo. - Está dando para perceber?

Ele acentiu.

- Incubus. - Disse.

- Perdão?

- O que você viu essa noite.

- Você está dizendo que... - Não terminei.

- Sim. E era o que aquelas meninas esperavam. - Ele falou sorrindo.

- Encontrar um Incubus? Você acredita mesmo nisso?

- Tudo não passou de um sonho? Triste demais, não acha?

- Não sei, eu não...

- Não precisa ficar chateada.

- Não estou. - Falei sabendo que não era verdade.

Ele então sorriu docemente e afastou toda e qualquer raiva que eu podia ter sentido. Peguei minhas coisas e me despedi do grupo sem muitos rodeios, em poucos minutos estava de volta aos trilhos do trem.

******

No caminho de volta lembrei de um passado distante e achei estranho o fato de ainda ter a sensação de algo novo á minha espera.
Andei enquanto alguém parecia me observar de longe.

"Respostas..." - Pensei. "Não aqui, não agora."

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Pesadelos


"Entrando rápido em sua terra maravilhosa
Voando alto em areia branca alvejada
Tranqüilizado por luzes
Você se perde
Bem só venha comigo
E eu os farei ver
Comigo voce vai querer ficar..."
(Switchblade Symphony)

"Eu estava num casebre dentro do mato, cercada de zumbis. Não estava sozinha, alguns amigos, desconhecidos e minha mãe estavam junto comigo. Tentávamos sobreviver.
A casa se resumia em dois cômodos e por incrível que parecesse, um era o primeiro andar, o outro - o segundo. As condições eram péssimas, dormíamos amontoados e mal tínhamos o que comer. As criaturas malígnas tentavam nos matar a todo momento e não eram poucas, eram milhares, talvez milhões.
Não teríamos muito tempo de vida caso os cientistas sobreviventes não achassem logo a cura para aquele vírus misterioso que havia dominado a raça humana.
E foi numa tarde de terror enquanto lútavamos para mantermos nossas esperanças vivas, que avistamos quatro ou cinco cientistas vindo em direção ao nosso refúgio. Eles caminhavam com suas roupas brancas no meio de toda aquela carne podre ambulante."

******

Eu acordei assustada, ainda podia sentir o terror queimando em minhas veias e meu coração batendo acelerado. Mais um pesadelo, talvez o quinto na mesma semana.
Sentei na cama, ainda estava cansada. Meus olhos pesavam e mal podia enxergar o relógio, eram 5:05 am, levantei.

As luzes azuis da aurora de Wilmont penetravam timidamente pelas cortinas da janela do meu quarto. O frio pairava quase como uma neblina em meu apartamento e eu já estava me acostumando com o clima solitário dessa época do ano.
Caminhei até o corredor, o chão e as paredes quase úmidas eram um contraste com o novo dia que começava.

Era começo de dezembro em Wilmont. A época onde a neve caía sobre a cidade. Realmente a cidade era perfeita sob a neve.
Para mim não era uma época muito feliz, embora eu fosse extremamente apaixonada pelas luzes coloridas do Natal, era a época que eu me sentia ainda mais sozinha e diferente do resto do ano, nessa temporada as pessoas pareciam mais preocupadas consigo mesmas. Na véspera e no dia vinte cinco era quase impossível achar uma companhia para passar a noite.
De certa forma eu chegava a temer o mês de dezembro. Eu suportava toda a solidão de um ano inteiro, mas nesse último mês era difícil de aguentar.
Logo que dezembro se iniciava eu lembrava dos anos anteriores e a imagem que vinha na minha mente era a minha, sentada na sala com uma garrafa de vodka pela metade, olhando meu pisca-pisca iluminar tristemente o ambiente.

"Esse ano não vai ser diferente" - pensei enquanto esquentava um pouco o café gelado. "Só vou tentar não me matar depois de meia garrafa de bebida."

Tomei meu banho, demoradamente lento como sempre. Assim que me arrumei fui até a sala e liguei o rádio que parecia mais "rouco" com o frio. Abaixei um pouco o volume e deixei na estação de sempre, uma estação francesa que tocava somente músicas antigas.
Sentei no meu sofá e olhei pela janela, o dia que havia começado com o azul dominando o céu, estava agora cada vez mais cinza.

Fui trabalhar.

******

Um pouco antes de acabar meu expediente olhei para fora da loja. As pessoas passeavam com seus casacos pesados, as outras lojas começavam a acender suas luzes de Natal, a neve acumulava nos cantos mais sutis. Era de fato uma imagem moderna, mas bonita.
Assim que deu 6:00pm eu saí e como não tinha muito o que fazer, resolvi procurar uma nova cafeteria.
Já tinha virado uma mania procurar novos lugares para ir. Eu estava sempre andando á procura de um novo bar ou um novo supermercado e dessa vez saí a procura de uma cafeteria desconhecida, aonde eu pudesse me sentar e olhar para as pessoas circulando, sem conhecê-las nem de vista.
Enquanto caminhava a neve aumentava seu ritmo, caía cada vez mais pesada. Andei cerca de quatro quarteirões até que avistei uma pequena e humilde cafeteria. Ao lado dela havia uma loja de artesanatos num estilo rústico que alegrou minha visão.
Não parei na cafeteria, segui até ela.
Havia um homem parado de costas para vitrine, ela se afastou um pouco quando notou que eu me aproximava. Parei então em frente a loja e olhei a vitrine. Nela, as luzes coloridas pareciam mais antigas que nas demais lojas.
Entrei.

O lugar era pequeno e confortávelmente quente. As paredes forradas de madeira e os móveis antigos perfumavam o local. Olhei alguns objetos e entre bruxas, duendes e bonecos de barro, me interessei por uma boneca de porcelana. Peguei-a e procurei o preço, assim que achei fiquei supresa, era barata demais para uma boneca daquele estilo. Parecia de fato um pouco velha, mas era muito bela.
Fui até o balcão e chamei a atendente. Essa era uma moça loira com os olhos amêndoados.
Pedi para que ela verificasse se o preço estava correto e ela disse que sim, sem procurar se informar melhor.

- Tem certeza? - Perguntei.

- Sim. - Ela respondeu.

- Achei tão barato. - Acrescentei

- É porque é usada. Aliás, tudo aqui é de segunda mão, até o pisca-pisca. - Ela falou e sorriu.

Paguei pela boneca e saí da loja lentamente ainda olhando os outros objetos.

******

Já estava escurecendo quando cheguei em casa. Só quando tirei o casaco foi que percebi que não havia tomado meu café na "nova" cafeteria. Fui até a cozinha então e depois de colocar a água na cafeteira, sentei na cadeira e abri a sacola aonde estava a boneca.
Fiquei ali contemplando seus olhos misteriosos e profundos, seus cabelos cacheados levemente despenteados e sua boca pequena já sem cor. O fato dela ser antiga me encantava e eu imaginava uma mãe a comprando ansiosa em agradar sua filha, que anos depois se desfaria dela.

Assim que me café ficou pronto peguei uma xícara e a boneca e fui sentar na sala. Liguei novamente o rádio e a música francesa tornou a preencher o vazio da sala. Sentei no sofá e fitei a boneca novamente enquanto sentia a fumaça do café esquentando meu rosto.

******

"Um rapaz me perseguia pelas ruas da minha cidade natal. Eu carregava um bebê enquanto corria desesperada entre os carros.
Corria sem acreditar que escaparia. O que ele queria? Me ferir? Ferir o bebê? Não tinha tempo para pensar, só corria tentando salvar nossas vidas."

Abri os olhos, 5:20am.

- Não acredito. - Falei com a voz ainda trêmula por causa do sono. - Não vou levantar.

Fechei os olhos. Virei para um lado, depois para o outro, deitei de bruços e nada. Era impossível trazer o sono de volta. A semana estava chegando ao fim e eu ainda não havia conseguido dormir direito á noite.
Levantei.

******

Já era quase meio dia e eu ainda não tinha feito nada. Ás vezes meu sábado era terrivelmente entedioso. Fui até a sala e quando vi a boneca no sofá lembrei da loja e das luzes antigas de Natal. Um desejo de colocá-las ali me tomou me fazendo sair imediatamente atrás delas.

Enquanto caminhava até a loja, pensei em como pequenas coisas ainda me enlevavam. Eu não era o tipo de pessoa que se preocupava com bens materias valiosos ou objetos caros. Para mim, minha caixa de música era mais importante do que um belíssimo colar de pérolas que encantaria qualquer mulher. Eu tinha ciúmes dos meus objetos, claro, mas nada extremo demais.

Assim que me aproximei da loja, diminuí meus passos. Fui andando lentamente até ela. Ao chegar na porta, o mesmo homem estava parado no mesmo lugar, talvez com a mesma roupa do dia anterior. Parei ao seu lado novamente e olhei a vitrine, as pequenas luzes piscavam fracas do lado de dentro e eu imaginei como elas ficariam na minha sala.

- Luzes antigas. - Disse o tal homem.

- Perdão?

- Você gostou dessas luzes.

Eu sorri timidamente tentando disfarçar meu interesse.

- Sim, gostei muito. - Falei finalmente.

- Notei, desde ontém. - Ele falou olhando pela primeira vez diretamente para mim. - Desde ontém que elas brilham perfeitamente em seus olhos.

Eu fiquei sem entender muito o comentário.

- Será que a menina me vende?

- De certo. Ela está doida para se livrar dessas tralhas, ainda mais no Natal.

Eu sorri e sacudi a cabeça num gesto afirmativo, empurrei a porta e entrei na loja. A moça loira vestia um suéter azul e tinha um ar cansado no rosto.
Me aproximei então e perguntei o preço do que queria. Ela pareceu se assustar e tentou disfarçar sua surpresa, falando logo em seguida o que notei ser o primeiro valor que veio a sua cabeça.

- Ótimo. - Falei colocando o dinheiro no balcão.

Saí da loja satisfeita. Do lado de fora acendi um cigarro e olhei para o lado aonde o homem estava. Sorri e ele sorriu de volta.

- Que tal um café? - Perguntei sem rodeios.

- Agora mesmo senhorita. - Ele respondeu.

Andamos alguns passos e quando ia me desfazer do meu cigarro, ele segurou minha mão.

- Não precisa, essa cafeteria é para fumantes. - Brincou.

Entramos na cafeteria e sentamos perto da janela. O lugar era bem simples. O teto baixo esquentava de certa maneira. O vidro levemente embaçado parecia isolar o lugar do resto do mundo.

- Até que é confortável. - Ele disse.

- Muito, gostei daqui. - Falei soltando a fumaça.

- Você gosta das coisas antigas não é?

- Certamente. - Sorri.

Ele levantou a mão e fez sinal para a balconista, que era uma mulher de meia idade.

- Dois capuccinos Leila.

Ela sorriu concordando com a cabeça e ele virou novamente para mim.

- Você não deveria se interessar tanto pelas coisas antigas de Wilmont. Você não é daqui, é?

- Não, não sou, mas não consigo deixar de me interessar pelas coisas antigas. Não só as de Wilmont.

- Entendo. Você me parece cansada, não tem dormido direito?

- Infelizmente não.

- E o que é? - Ele perguntou depois de pegar nossas xícaras na bandeja que Leila segurava. - Insônia? Pesadelos?

- Pesadelos. - Respondi.


- Malina é um belo nome. - Ele falou me fazendo tomar um susto.

- Como você sa...

- Eu sei. - Ele falou fazendo uma careta de mistério. - Sou bruxo.

- Sério. Como você sabe meu nome?

- Ouvi você falando na loja. Não precisa se preocupar.

- Estou cansada dessa mania de vocês daqui, parece que todos têm uma bola de cristal em casa. - Brinquei.

- Nem todos. - Sorriu. - Mas se você quer a verdade, muitos aqui são grandes observadores.

- Como assim?

- Observadores ora. Só vêem as coisas acontecerem, do mesmo jeito que eu faço.

- Entendo. - Falei na tentativa de encerrar o assunto.

- Eu tenho cinquenta e dois anos e já vi muita coisa por essas bandas daqui. Histórias e mais histórias, gente assustada, gente feliz, gente bêbada sonhando com a felicidade.

- E você já havia me visto por aqui?

- Ainda não.

Um breve silêncio tomou conta do lugar até que eu acendi outro cigarro.

- Quer dizer então que o senhor dos pesadelos anda lhe visitando? - Ele perguntou.

- O senhor dos pesadelos? O que é isso?

- Não sabe da história dele? É uma famosa história contada pelos antigos moradores de Wilmont.

- Nunca ouvi falar. Conte-me.

Ele sorriu empolgado, nessa hora notei o quanto ele parecia carente.

******

- É uma história verídica, conheci vários pais de família que contavam a mesma história e não mudavam nenhuma vírgula dos seus relatos.
- Havia uma famíla, uma das primeiras a habitar essa cidade, que era formada basicamente por um velho, seu filho, sua nora e sua neta. Wilmont ainda era um vilarejo, as casas eram distantes umas das outras e não havia luz elétrica nem água encanada.
- O velho era cego e como ele não saía muito na luz do dia, seus olhos acabaram tomando um tom acinzentado. Ele tomava conta da pequena Laura enquanto seu filho e sua nora saíam para trabalhar no campo. De noite eles voltavam e cuidavam do velho e da pequena Laura. Tudo parecia normal e nada escapava da rotina até que Laura adoeceu repentinamente. A pequena ficou muito gripada, fazendo com que toda família ficasse apreensiva. Mas os pais dela não podiam tomar conta dela durante seus sonos febris diurnos, deixaram então que o velho o fizesse.
- O velho então passava o dia inteiro sentado na beira da cama de Laura, com uma das mãos segurando seus pés. Ele não pregava o olho, não levantava para fazer nada nem para beber água, mas mesmo com seu esforço e sua vigília, a neta não melhorava.
- Certas famílias contam que Laura tremia durante o sono febril, que suava e falava certas coisas estranhas. Dizem também que ás vezes elazinha cantarolava certas músicas e que essas tinham um tom sombrio como a morte. Bem, apesar de todo o sofrimento o velho ficava ali, segurando os pés da neta. Ele foi ficando cada vez mais fraco, pois não comia nem bebia nada durante o dia todo. Certa noite quando seu filho chegou viu que Laura estava sentada no canto da cama assustada, notou que o velho estava imóvel e só então percebeu que ele estava morto. Laura havia finalmente melhorado.

Eu sorri e esperei que ele continuasse.

- Bom, Laura cresceu, mas não normalmente. Contam que ela não conseguia dormir direito desde a morte de seu avó. Era uma menina retraída e estranha e acabou se enforcando quando tinha acabado de completar quinze anos. Por isso dizem que se você tem muitos pesadelos é porque o velho dos pesadelos está segurando seus pés enquanto você dorme.

- Interessante essa história. - Falei ainda sorrindo.

- Wilmont tem muitas histórias. - Ele disse se levantando, percebi que estava se preparando para sair e levantei também. Cheguei até a ponta do balcão e coloquei o dinheiro depois de fazer sinal para Leila.
Saímos da cafeteria.

- Imagino que sim, mas só conheço as histórias novas de Wilmont, as que eu mesma presencio. - Falei acendendo um cigarro.

- Pois é cara Malina, uma dia alguém haverá de contá-las.

Ele se afastou e andou até a loja de artesanatos. Parou na mesma posição de outrora e deixou que seu olhar se perdesse na rua.
Comecei a andar para casa, parti sem mesmo me despedir.

******

Já era noite quando finalmente coloquei meu tão estimado pisca-pisca na estante. As pequenas luzes iluminavam timidamente minha sala enquanto eu as fitava com desbumbre e embora piscassem todas juntas, alguns momentos eu achava que as vermelhas dominavam o conjunto.

No rádio a antiga canção francesa, do meu lado uma garrafa velha com dois dedos de conhaque.

"Eu não disse meu nome na loja, hora nenhuma..." - pensava comigo mesma enquanto a noite e o vento frio varriam as ruas de Wilmont.




sábado, 30 de agosto de 2008

Gabrielle


"Ela levanta as flores da janela
Flores de verão agora flocos de inverno
Ela levanta seu véu para a manhã chuvosa
Esconde seus olhos do sol outra vez

Mil anos de luz fraca sobre sua face
Corta dentro dela o sonho do juramento
Ela bate suas flores na janela lateral
Eles caem para a terra eles caem para a terra

Esconde longe do sol furioso
Você esconde seu amor do fogo do além..."
(Fields of Nephilim)
Eu tinha passado a noite toda no bar de um conhecido, já se passavam das quatro da manhã quando resolvi ir para casa. Acendi meu cigarro e saí do bar.
Comecei a andar pelas ruas, Wilmont dormia profundamente.

Eu já estava acostumada a andar sozinha, na verdade não tive outra escolha.
No começo a melancolia me tomava, andava lamentosa e quase não aproveitava meus passeios. Com o tempo fui obrigada a me acostumar com tal solidão.

Eu já morava em Wilmont há muito tempo e adorava a cidade. Sabia que nada me tiraria dali.
Meu apartamento era pequeno, mas confortável. A tristeza parecia sempre emanar das paredes velhas. Os móveis estavam sempre nos mesmos lugares, raramente os mudava. Minha pilha de cd´s e a coleção de vinil que me traziam sempre uma alegria mórbida. Os porta-retratos sobre a cômoda, me faziam voltar ao tempo toda vez que os olhava. Tinha sempre meia-dúzia de cervejas na geladeira, o cinzeiro sobre a mesa da cozinha e minha cafeteira que apesar de velha, eu fazia questão em mantê-la impecávelmente limpa.
O apartamento era herança de um tio que eu adorava e que infelizmente falecera. Por vezes eu imaginava que ele estava ali me fazendo companhia. Tinha sempre um pouco dele naquela atmosfera sóbria e antiga que pairava sobre o lugar.
Nas soturnas manhãs nubladas eu sentava na cadeira enquanto tomava meu café e tentava manter meus pensamentos distantes do passado.

Esse dia que narro agora, tinha começado assim. Apesar de que não me lembro um único dia que não tenha amanhecido dessa maneira.

******

Estava andando pelas ruas do Centro, distraída como sempre, quando avistei de longe uma moça parada perto do ponto de táxi, que se encontrava vazio. Caminhei normalmente em sua direção e quando me aproximei notei que ela falava sozinha.

- Mon Dieu! O que faço agora? - Ela tinha um sotaque francês evidente. Passei por ela, mas não pude deixar de prestar atenção em suas palavras, ela continuou: - Não sei o que vim fazer aqui, Dieu!

Eu já estava á dois passos de distância dela, quando resolvi voltar.

- Boa noite! - Falei e ela se virou em minha direção, percebi que não havia notado minha presença.

- Oui, boa noite. - Ela respondeu tentando sorrir. Era uma mulher muito bonita, tinha o cabelo num tom escuro de loiro, estatura mediana. Os olhos expressivos e a boca bem desenhada. Vestia um casaco pesado e tinha a face corada pelo frio.

- Posso lhe ajudar?

- Oui, oui. Acho que estou perdida. Como faço para ir embora? Já fui na rodoviária e só tem ônibus pela manhã, estou esperando um táxi, mas não creio que tenha. Dieu, porque fui acreditar nele! - Ela falou e as lágrimas ameaçaram escorrer dos seus olhos.

- Olha, não se preocupe, eu moro aqui perto. O que acha de irmos até lá? Tomamos um café enquanto você espera a hora do ônibus. Está muito frio aqui fora. O que acha?

- Non, non. Não quero incomodá-la.

- Por favor. - Eu falei indicando o caminho. Ela entendeu que seria melhor e começou a andar.

- Só por algumas horas, prometo não atrapalhar.

- Vamos ou iremos congelar aqui fora. - Falei sorrindo.

Logo estávamos subindo as escadas do meu prédio. Quando notei que ela transpirava, apesar do frio, ajudei-a com a mala marrom que carregava.

- Entre. - Eu disse.

- Merci. - Ela respondeu e entrou. Ficou parada no canto da sala, parecia com medo.

- Por favor, fique á vontade. Eu moro sozinha, sente-se no sofá que logo trago nosso café.

Ela se sentou e eu fui para o banheiro para trocar minhas roupas. Assim que terminei, voltei até a sala e a olhei, ela sorriu e vi que estava mais descontraída.

- Vou na cozinha e já volto. - Eu disse.

- Bien. - Ela sorriu.

Fui para cozinha e lavei primeiro uns copos que estavam na pia, quando acabei liguei a cafeteira. Fui acender meu cigarro, que havia deixado em cima da mesa, quando a vi parada na porta da cozinha.
Eu acendi meu cigarro e falei: - Você não me disse o seu nome. - Sorri.

- Pardon, meu nome é Gabrielle. E o seu ma fleur?

- Malina.

O sorriso dela era maravilhoso, alegrava minha casa.

- Gabrielle, talvez queira tomar banho ou trocar suas roupas úmidas.

- Adoraria. Estou com um pouco de frio agora.

Eu indiquei o banheiro e ela foi até a sala pegar uma roupa em sua mala. Voltei para cozinha, o café estava quase pronto.

- Que acha? - Ela falou mostrando a roupa que acabava de vestir. Era um vestido um pouco largo, vermelho claro. A parte superior tinha umas fitas de cetim enfeitando, a saia - na verdade as saias, pois eram mais de uma - eram de um tecido quase transparente. Ela ainda calçava sua bota pesada e estava com um outro casaco, maior que o anterior, aberto por cima do vestido.

- Está belíssimo, combina com você. Venha, acabei de fazer o café.

Ela se aproximou sorrindo e sentou-se na cadeira. Eu servi o café e a fitei enquanto bebia o seu.

- Se me permite perguntar, o que aconteceu? - Perguntei.

- Você nem imagina, ma fleur. Foi um erro meu ter vindo.

- Não precisa contar se quiser, desculpe a pergunta.

- Non, non. Falo sim. Eu conheci um rapaz, um belo rapaz. Ele estava em minha cidade, disse que á trabalho. Nos encontramos diversas vezes. Ele era sempre tão gentil comigo e carinhoso, achei que estivéssemos namorando. Passamos boas horas juntos e ele vivia me convidando para vim á Wilmont. Disse que a cidade era linda e que adoraria que eu viesse.

- Quanto tempo ele ficou na sua cidade?

- Seis meses e meio. E nesse tempo, ficamos juntos, nos encontrávamos quase todos os dias. Até que ele disse que estava de partida, imagina ma fleur, eu fiquei desesperada. Há essas alturas, já estava apaixonada por ele.

- E ele veio embora?

- Oui, na mesma semana, dois dias depois de conversarmos. Eu fiquei perdida no começo, queria estar junto á ele, mas ele sumiu. Meses se passaram e então resolvi esquecê-lo, foi difícil.

- E então?

- E então ele ligou, semana passada, dizendo que não aguentava mais ficar longe de mim. Pediu para que eu viesse na próxima semana e me deu o endereço. Eu fiquei assustada, mas não consegui resistir. Eu vi que ainda o amava.

- E você disse isso pra ele?

- Disse e ele então deu as ordens. Disse que eu deveria pegar o trem das três e vim para uma cidade vizinha. Disse que eu chegaria nessa cidade por volta das seis e que assim que chegasse, deveria esperar o ônibus das oito para Wilmont. Falou que era necessário que eu respeitasse os horários, eu imaginei que seria por causa do seu trabalho ou coisa parecida.

- Sim, e então? O que aconteceu quando vocês se encontraram?

- Nada ma chéri. Eu não o encontrei. Desci do ônibus e vim direto para o endereço que ele me deu, só que cheguei aqui e o lugar era só uma casa abandonada. Perguntei para os vizinhos e eles disseram que há décadas ninguém vivia ali.

- Nossa, estranho. - Falei pra mim mesma, não pra ela. Nada me surpreendia mais em Wilmont.

- Estranho nada, ele já tinha me deixado uma vez, com certeza fez isso de propósito. Eu estava tão cega que não vi o óbvio, ele era apenas mais um homem tentando se aproveitar de mim.

- Entendo sua frustação.

- Mais que frustação. Eu o amava, no fundo acreditava que ele era a pessoa certa, que merecia meu amor. Como fui tola, mon Dieu, como fui tola!

- Acalme-se, ele não merecia. Você é bela demais, não se preocupe um dia encontrará alguém que lhe fará feliz.

- Non. Agora não pretendo mais. Vou dedicar-me somente ao meu trabalho, não quero mais saber de amores.

- Entendo. E com o que você trabalha?

- Eu sou pintora e toco violoncelo.

- Nossa, que interessante.

- Poético. Non ma fleur?

- Muito. - Eu falei e sorri. Ainda nos encaramos por um tempo, seu olhar doce parecia iluminar minha alma.

- Você quer dormir? Se quiser pode dormir em minha cama, eu deito no sofá, estou acostumada a dormir lá.

- Você é muito gentil querida. Acho que quero sim, estou exausta.

- Aceite sim, não há problema algum.

Nos levantamos e eu a acompanhei até o quarto, ela se sentou na cama e vi que estava mesmo cansada, não quis prendê-la mais por muito tempo então logo peguei um cobertor e fui para sala.
Antes de deitar, olhei pela janela, o céu estava cinza escuro. Deitei e fiquei olhando para o teto, um aroma floral inundava minha sala. O cheiro doce afastava a atmosfera soturna do meu apartamento.
Pensei no quanto ela era bela, seu corpo perfeito com as curvas bem desenhadas embaixo do vestido de crepe indiano.

"Bela e inocente" - pensei.

Ela não sabia dos segredos de Wilmont, do que "a cidade" era capaz. Lamentei por ela ter passado por uma situação tão difícil, típica de Wilmont.

Acordei bem cedo, estava animada. Levantei e fiz chocolate quente. Logo Gabrielle estava junto á mim. Tomamos nosso desjejum, logo depois ela levantou e foi até a janela, teve um momento solitário enquanto apreciava nosso belo céu de agosto.

- Vou partir, ma fleur. - Ela disse.

- Não queria que partisse com essa má impressão da cidade. Essa cidade é mesmo maravilhosa.

- Eu voltarei mais vezes, o caminho foi belíssimo mesmo e pude ver muita coisa que gosto aqui.

- Se quiser é só me procurar. - Eu disse me afastando para pegar um pedaço de papel e uma caneta. Anotei o endereço e o telefone e me aproximei novamente. - Aqui está, é só avisar. Será um enorme prazer recebê-la novamente.

- Obrigada querida. - Ela sorriu e continuou: E por falar nisso, - pegou um papel que estava em seu bolso - não preciso mais disso. É o endereço de Michael W. Houten, o rapaz que não me merece. - Sorriu.

Ela acabou de rasgar o papel e deixou em cima da mesa. Fomos até a sala e ela pegou sua mala, quando abri a porta ela virou-se e estendendo a mão me deu um cartão.

- Aqui está meu endereço e meu telefone. Caso queira me visitar.

- Obrigada.

- Eu que agradeço, por tudo. - Ela disse e sorriu.

- Imagina.

- Tenha um belo dia. - Falou e partiu.

******

Uma semana passou e eu não conseguia tirar Gabrielle e o suposto rapaz da minha cabeça. Resolvi então pegar os pedaços do papel que ela havia rasgado. Sabia que ali estava o endereço de Michael Houten.

Saí de casa decidida a descobrir a verdade sobre ele, fui até o local indicado no papel. Era mesmo uma casa abandonada. Algumas casas vizinhas também pareciam abandonadas e outras bem velhas. Andei então até a cafeteria que ficava ao lado e vendo que um Senhor que atendia no balcão, fui até sua direção e perguntei se ele conhecia Michael.

Ele fez uma expressão pensativa e logo falou:

- Oh sim! Conheci sim, era filho do Richard. Família boa. Mas não entendo sua curiosidade minha cara, eles morreram há quinze anos.

- Como assim morreram?

- Naquele acidente de trem, o único acidente de trem da região. Você não conhece a história? O famoso trem das três?

- Não senhor, acho que nunca ouvi essa história. - Falei. - Não há nenhum parente deles? Talvez um irmão?

- Não, eram só eles e a mãe. Logo depois da morte deles dois, a mãe se suicidou e a casa ficou abandonada.

- Obrigada senhor.

Saí da cafeteria. Pensei em avisá-la, mas não queria que se magoasse ou ficasse assustada. Eu já estava acostumada com os casos estranhos de Wilmont, mas ela não.
Andei confusa, pensando se contaria ou não para ela, depois de muito pensar, decidi que contaria. Afinal, eu nada tinha a ver com sua história, descobri por curiosidade, achei que seria melhor que contasse logo.

Fui direto para casa e peguei minha bolsa, iria até sua casa. Não levei mala, não demoraria por lá, ficaria só o tempo de contar tudo e depois voltaria para casa.

Peguei o ônibus e depois o trem, cheguei em sua cidade por volta das quatro da tarde. Da estação andei até o Centro da cidade e lá peguei um táxi. Mostrei para o motorista o endereço e ele me levou até lá.

Chegamos na casa de Gabrielle. A casa era simples mas muito bonita. Era de madeira e na frente, do lado esquerdo tinha um enorme pé de carvalho. Do lado direito, um lindo jardim de margaridas e rosas.
Andei pelo pequeno caminho de pedras e chegando na porta, toquei a campainha.
Não houve resposta. Toquei novamente e nada.
Pensei então que ela poderia ter saído ou algo parecido, sentei então na varanda e esperei que voltasse.
Esperei muito tempo, quando olhei no relógio já eram quase seis horas e quando finalmente o relógio acusou seis horas em ponto, ouvi uma melodia vinda da casa.

Levantei-me e prestei atenção por alguns minutos, o som era de violoncelo. Um som perfeito, que só podia estar sendo tocado pelas mãos da encantadora Gabrielle.
Esperei mais alguns minutos para novamente chamar, a melodia parecia me hipnotizar. Aproximei-me novamente da porta e quando encostei na mesma, essa se abriu.
Entrei cautelosamente e chamei-a, mas ela não respondeu. Entrei até a sala então e seguindo o som, andei por um corredor até atingir a porta de onde vi que o som vinha.
A porta estava entreaberta, inclinei-me em sua direção e espiei o interior. Não a vi, então abri a porta e entrei no quarto, a melodia estava mais alta, como se um rádio estivesse a tocando. O perfume inesquecível dominava o ambiente.

O quarto tinha um belo papel de parede num tom de verde claro, aproximei de uma das paredes quando vi alguns quadros que ali estavam. Na minha opnião, belíssimos quadros, dóceis e muito bem pintados.

Saí do quarto, a música não parava. Andei por toda a casa, mas Gabrielle não estava em nenhum dos cômodos. Sem esperanças de encontrá-la, resolvi partir.

******

Voltei a estação e logo estava á caminho de Wilmont. No caminho pensei muitas coisas e senti como se tivesse sonhado esse tempo todo. Mas embora estivesse ébria quando a encontrei, eu tinha certeza de que tudo tinha realmente acontecido.
Quando cheguei na minha adorada cidade, algo parecia diferente. Senti como se não tivesse que ter saído de Wilmont e vi que as coisas começavam a mudar.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Atração e Orgulho



"Ela é benção
Ela está viciada nele
Ela é a raiz da conexão e
Ela está conectada comigo

Aqui eu vou e eu não sei porque
Eu viro tão incessantemente
Poderia ser que ele está me assumindo

Eu estou dançando descalço
Indo a um giro
Alguma música estranha me arrasta por dentro
Faz-me sentir como algum tipo de heroína..."
(Dancing Barefoot)

Julia havia acabado de chegar em Wilmont. Logo que chegou já demonstrou seu desagrado, não gostava do clima nem do fato da cidade ser isolada.
Sua irmã, Katherine, parecia mais animada e por diversas vezes tentou animá-la, mas ela parecia não se importar em ceder.

Julia era uma garota com seus dezessete anos, do gênio difícil e uma personalidade forte. Apesar de muito inteligente, se deixava levar pela raiva e diversas vezes perdia a razão.
Estatura mediana, branca, cabelos ondulados tingidos de vermelho, Julia se destacava por sua beleza, mas não gostava quando isso ocorria.
Não se deixava enganar pro certas manias que toda garota de sua idade tem, era muito centrada e persuasiva.
Também não se deixava levar por caprichos e tampouco ia á festas típicas de adolescentes, ela preferia isolar-se, sempre fora assim, mas dessa vez algo dizia que Wilmont não era seu lugar.

Ela nada sabia sobre a cidade, mas sentia que não deveria se aproximar dali.

*****

Julia, seus pais e sua irmã estavam á caminho de Wilmont. Dentro do carro, seu pai falava em como seria bom que as meninas crescessem em uma cidade como Wilmont, sua mãe parecia muito feliz e tentava disfarçar o sorriso quando Julia a encarava com raiva.

- Vamos querida, você sempre gostou de se isolar não sei porque não aceita a idéia de nos mudarmos para cá. - Disse o pai a olhando pelo retrovisor.

- Julia, você poderia facilitar as coisas, nem amigos você tem direito, não pode falar que vai sentir saudade de alguém. - Disse a irmã que estava sentada ao seu lado.

- Não é isso! - Julia exclamou. - Só não estou me sentindo bem.

- Tomara que melhore filha, ouvi falar dessa cidade, parece ser muito bonita. - Disse a mãe dando um sorriso.

- Pelo menos a estrada é. - Retrucou seu pai.

Eles não demoraram muito para chegarem á cidade. A noite caía como uma mortalha sobre Wilmont.
Logo estavam apreciando as luzes amarelas do centro e em média de quinze minutos chegaram á casa que haviam alugado.

- Nossa, é linda. - Disse Katherine assim que desceu do carro.

- Muito, querida. - Respondeu seu pai.

Julia seguiu na frente com sua mãe enquanto seu pai e sua irmã tiravam as malas do carro. Ao entrar na casa, Julia sentiu como se já conhecesse o lugar. Ao contrário de sua mãe, que andou pelos cômodos afim de conhecer melhor os mesmos, Julia subiu a escada que ficava na sala e foi direto para o que seria, em breve, o seu quarto.


Na manhã seguinte Julia acordou desanimada, não importava o quão cansativa fora a viagem, ela e sua irmã teriam que ir para escola.
Julia já estava acostumada com sua rotina entediante, já estava no terceiro ano e sabia que nada mudaria. Arrumou-se e saiu de casa sozinha á procura da escola. Andou pelas ruas, olhava para cada pessoa que passava por ela, até que chegou ao colégio.

- Ainda bem que é perto. - Falou para si mesma. Muitas pessoas entravam e saíam, o que a deixou desanimada demais, detestava o fato de ter que se relacionar com outras pessoas.

Entrou pelo estacionamento e seguiu em direção ao prédio principal.

- Isso aqui mais parece uma faculdade. - Disse para si mesma novamente e se assustou pelo fato de estar falando sozinha.

O tédio havia tomado conta de toda sua manhã, ela não via a hora de voltar pra casa. Estava sentada na sala assistindo sua última aula e mal podia se concentrar no que o professor falava.
Ficou surpresa quando notou que até aquele momento, nenhum aluno havia se aproximado dela, ninguém havia puxado assunto e nem sequer haviam a reparado.
Ela olhava os colegas de classe com certa indignação.

"Nem parecem humanos, mas ainda bem que não vieram me perturbar, esse colégio não é tão ruim assim". - Pensava.

Assim que a aula acabou ela se levantou e foi em direção ao pátio que ficava em frente ao prédio aonde estava. Parou e fitou as pessoas sentadas no gramado e alguns meninos que jogavam bola na quadra.
Estava distraída quando alguém esbarrou nela a fazendo virar institivamente. Quando olhou para o lado viu que se tratava de uma garota. Ao contrário do que ela imaginou, a menina não se desculpou, apenas continuou andando.

"Mal educada." - Pensou.

Nesse momento a menina que parecia apática, parou e virou-se para tráz a encarando com um sorriso no rosto.

- Desculpe-me por isso. - Falou e seguiu seu caminho.

Julia pareceu congelar, balançou a cabeça e seguiu de volta para sua casa.
No caminho se sentiu pertubada, a cidade em si era linda, mas havia algo de errado. Tentou não pensar em como aquela garota havia adivinhado o que ela pensava naquele momento, mas era inevitável.

"Coincidência, ela só demorou um pouco pra se desculpar. Devo estar ficando louca." - Pensou enquanto abria o portão de sua casa.

******

No dia seguinta, Julia acordou mais animada. Levantou mais cedo e tomou um banho demorado, assim que sua irmã acordou, ela ligou o seu pequeno rádio.

- Você parece mais animada Ju. - Disse a irmã.

- Vá se arrumar Kath, vamos pra escola logo. - Retrucou.

As duas saíram de casa e chegaram ao colégio um pouco antes do horário, resolveram então que esperariam no pátio. Sentaram-se num banco de pedra e ficaram esperando a hora da primeira aula.

- Caramba! Aqui parece que nunca esquenta. - Disse Kath enquanto esfregava uma mão na outra.

- Está frio mesmo. Deve ser sempre assim, estamos rodeadas de montanhas. - Disse Julia.

Elas ainda conversavam sobre o clima quando Julia viu que a menina que a assustara outrora, estava chegando junto á dois rapazes.
Por um minuto Julia se distraiu os olhando, reparou no quão bonito eles eram. A menina vestia uma saia longa preta e coturnos que pareciam pesados demais para ela. Era extremamente branca e inacreditavelmente bonita.

- Góticos. - Disse Katherine. - Tem em todos os cantos dessa cidade.

- Como você sabe? - Perguntou Julia.

- Ontém fui dar uma volta depois da aula, vi muitos mesmo. No centro, na nossa rua, aqui na escola.

- E você fica andando por aqui sozinha? - Censurou Julia.

- Claro, sinto que não corro perigo. Hoje vou ao parque, quero conhecer essa cidade melhor.

"Não sente o perigo, você deve estar louca irmãzinha." - Julia pensou.

******

A semana passou rapidamente, Julia se sentia melhor e mais descontraída. Apesar de estar se acostumando com a cidade, ela ainda não havia saído á noite. Já era sexta-feira e logo de manhã ela decidiu que sairia de noite para um passeio.

Foi até a escola, parecia mais frio que nunca.

- Ju, hoje neva! - Disse Kath.

- O tempo está ótimo assim. - Retrucou.

- Louca! - Disse a irmã soltando uma gargalhada em seguida.

Julia assitiu ás aulas tranquilamente, olhava pela janela que dava para o pátio afim de ver o trio que tanto a inquietava.
Assim que a aula acabou ela desceu até o pátio e sentou-se, ficou esperando que eles aparecessem. Ela lembrava das feições da menina e inexplicavelmente, sentia-se atraída por ela.
Meia hora se passou e eles não apareceram, Julia se sentiu cansada e tentou tirá-los da cabeça, voltou para casa.

Á noite se aproximava enquanto ela se preparava para sair. Havia dito aos pais que sairia com amigos que tinha feito na escola, somente para tranquilizá-los, pois sabia que seria incapaz de penetrar no "mundo" em que seus colegas de classe viviam.

Enquanto se arrumava pensava em como a garota se vestia, no fundo, Julia a admirava e queria ser como ela. Vestiu sua jaqueta de couro, sua saia preta comprida, calçou sua bota e suas luvas e desceu as escadas de sua casa.
Despediu-se dos seus pais que estavam sentados na sala assistindo televisão. Antes de sair olhou no espelho e sentiu-se orgulhosa por estar parecendo com a menina do seu colégio.

Saiu e caminhando pelas ruas, sentiu que o frio havia aumentado considerávelmente. Não andou muito até que chegou perto de um bar. Entrou sem pensar duas vezes e pediu uma garrafa de vinho ao rapaz que estava no balcão. Andou até o lado de fora do bar e sentou em uma das cadeiras que estavam disponíveis.

Viu que muitas pessoas entravam ali e se sentiu incomodada por não ter conhecido ninguém. Muitas pessoas chegavam, jovens de motos iam e vinham com frequência. Ela estava completamente absorta, quando uma moto extremamente barulhenta parou em sua frente.
Eram eles. Um dos rapazes e a menina, indiscritivelmente arrumados.

Julia os encarou tentando mostrar que estava interessada, mas eles pareciam não notar, sem muitos rodeios, entraram no bar.
Ela estava inquieta, precisava falar com eles, tentava pensar em algum assunto interessante, mas nada vinha á sua cabeça. Decidiu então que entraria, nem que fosse para olhá-los simplismente.
Quando tomou coragem o suficiente para levantar, viu que a garota havia saído do bar e vinha em sua direção.
Sentiu seu coração bater mais forte enquanto a menina diminua a distância entre elas.

- Oi. Meu nome é Anna. - Disse a garota enquanto se sentava junto á ela.

- Oi Anna, prazer, meu nome é Julia.

Anna tinha os olhos negros como a noite, sua pele reluzia sob a lua.

- Você é nova aqui, não é? - Perguntou.

- Sim. - Julia respondeu.

- O que acha de Wilmont? - Anna perguntou.

- Interessante, um tanto misteriosa.

- E você gosta de mistérios? - Anna falou sorrindo.

- Se não gostasse não estaria aqui á essa hora.

- Perfeito. - Anna falava e parecia a hipnotizar. - Venha comigo, temos muito o que aproveitar essa noite.

Julia não conseguia falar, apenas levantou e a seguiu. As duas entraram no bar e logo Julia pôde ver aonde o rapaz estava sentado.

- Aquele é Nicholas, meu namorado. - Disse Anna. - Lindo não é?

- Todos vocês são. - Julia respondeu sem medir as palavras.

Anna se suspreendeu com a resposta e sorriu.

A madrugada chegou enquanto eles bebiam e conversavam, Julia explicava o porquê de estar morando em Wilmont enquanto Nicholas bebia, sempre abraçado á sua namorada.

- Acho que já estou bêbada demais. - Disse Julia.

- Melhor assim. - Nicholas falou soltando uma gargalhada.

Ficaram ali até que o sol começasse a nascer, o céu assumia seu tom cinza de todas as manhãs quando Julia resolveu se despedir. No fundo ela sabia que ficaria ali até que eles a mandassem embora, mas também sabia que precisava ir. Se despediu pesarosamente e partiu á caminho de sua casa.

******

O fim-de-semana havia sido patético em sua concepção. Ela havia passeado com sua família, eles quase que a forçaram a isso.
Julia não via a hora de chegar na escola e conversar com seus mais novos colegas. Estava ansiosa, mas ao mesmo tempo alegre.

A manhã de segunda-feira chegou trazendo o frio quase insuportável. Julia que não havia dormido direito, pensando em Anna e Nicholas, só levantou com muito esforço. Mesmo assim, antes de sair de casa, vestiu sua blusa vinho escuro e passou uma maquiagem pesada, sempre se concentrando em Anna.

Chegou na escola sozinha, ficou esperando que eles aparecessem novamente. Sentou-se no banco e acendeu um cigarro que havia restado da noite no bar. Anna, Nicholas e o outro rapaz logo chegaram e assim que Anna a viu, foi em sua direção.
Julia se sentiu extasiada pelo fato de Anna se aproximar e não conseguiu esconder seu sorriso de satisfação.

- Oi Julia, bom dia. - Disse Anna.

- Oi Anna. - Julia falou soltando a fumaça.

- Parece contente. - Anna falou. - Aconteceu algo?

Nesse momento Nicholas se aproximou e fitando Julia, disse em tom de surpresa:

- Nossa, você está diferente.

Julia apenas sorriu, se sentia orgulhosa por ter conseguido chamar a atenção deles.

- É. Está linda. - Disse Anna com seu doce sorriso. - E já que está tão contente essa manhã, o que acha de darmos um passeio hoje á noite? Esse frio está irresistível.

- Tudo bem. - Julia não pensou duas vezes em responder.

- Ótimo, passamos na sua casa mais tarde. - Disse Nicholas.

Julia não conseguia parar de pensar neles. Mal pôde caminhar até sua sala de aula, queria que o dia chegasse logo ao fim para que pudesse reencontrá-los.

******

A noite caiu novamente sobre Wilmont, do seu quarto Julia olhava ansiosa pela janela. Havia se vestido novamente como Anna e pensava em como parecia mais com ela á cada dia. Se distraiu olhando-se no espelho quando escutou a buzina da moto de Nicholas, correu novamente até a janela e fez sinal para que ele esperasse.
Desceu a escada apressada e mal se despediu dos pais.

Chegou rapidamente na calçada e ao se aproximar de Nicholas, não conseguiu disfarçar sua empolgação.

- Nossa, você está linda! Assim Anna pode ficar com ciúmes. - Nicholas falou e sorriu.

Julia sorriu de volta e sentou-se na moto. Ele dirigia rapidamente e ela pôde perceber que se distanciavam do centro da cidade.

- Para aonde estamos indo? - Perguntou quase gritando.

- Surpresa, mas você vai gostar. - Respondeu Nicholas.

Eles tomaram bastante distância da cidade, Nicholas agora dirigia mais devagar. Apesar de estarem rodeados pela escuridão, Julia se sentia orgulhosa e segura.
Nicholas de repente diminuiu mais a velocidade e Julia percebeu que ele entraria por uma pequena estrada.

- Agora estamos chegando. - Ele disse, mas ela não falou nada.

Entraram pela estrada estreita, no curto caminho, ela se assustou várias vezes quando os galhos das árvores bateram em suas costas. Logo estavam de frente para uma casa do meio de uma clareira.
Estava escuro, de longe Julia via as luzes trêmulas das velas que iluminavam a casa.

- Vamos. - Disse Nicholas enquanto desligava a moto e descia.

- O que vamos fazer aí? - Perguntou Julia.

- É uma festa querida. Não precisa se preocupar, tem muita gente lá dentro.

E realmente tinha. Julia se aproximou da casa de madeira envelhecida e logo que entrou na sala pôde ver as pessoas sentadas na sala. Alguns rapazes estavam desajeitados no sofá, algumas meninas cantavam e dançavam embriagadas.

Julia andou pela casa á procura de Anna, chegando na cozinha encontrou o outro rapaz. Ele estava encostado em um dos móveis e quando a viu entrando, sorriu.

- Anna está lhe esperando lá em cima, no segundo quarto á direita.

- Ah sim, obrigada. - Julia agradeceu e subiu a escada.

O andar de cima estava mais escuro, ela pôde notar que apenas uma vela iluminava cada cômodo.
Passou por um dos cômodos e se assustou com a quantidade de pessoas deitadas no chão, uma fumaça estranha pairava no local.

Entrou no quarto aonde Anna a estava esperando e viu que ela estava na janela, Anna notando sua presença, virou-se e Julia ficou perplexa com sua aparência.
A luz da lua parecia brilhar em sua pele, seus olhos negros e seu batom roxo a davam uma aparência incrível.

- Sente-se Julia. - Disse Anna, indicando a cama.

- Nossa, legal essa casa. Gostei. - Disse Julia tentando puxar assunto.

- É sim, muito interessante e divertida.

- O que aquelas pessoas fazem deitadas no chão no quarto ao lado? - Julia perguntou.

- Estão fumando ópio. - Anna respondeu e não percebeu a indignação estampada no rosto de Julia.

- Então Anna, vamos descer? Parece animado lá embaixo. - Julia falou e a viu se aproximar.

- Nós, não vamos á lugar algum. - Anna respondeu se aproximando ainda mais.

Julia tentou levantar, mas Anna a empurrou na cama. Aos poucos subiu em cima dela, forçando-a deitar.

- Você sempre me desejou não é? Sempre me quis. - Disse Anna enquanto acariciava o rosto de Julia.

- Anna, o que você está fazendo?

- Responda.

- Sim, sempre me senti atraída por você. - Julia respondeu.

- Mas como não conseguiu ficar comigo, você seguiu meus passos não é mesmo?

- Sim Anna, mas não entendo o porquê disso.

Anna puxou seus braços para cima enquanto afundava a cabeça em seu pescoço. Julia sentia sua respiração gélida e tremia de excitação.

- O que vamos fazer? - Julia perguntou.

- Não use o "nós" querida, isso não existe. Você não é digna de ser considerada como "nós".

Nesse momento Julia pareceu ter voltado á realidade, viu que o que Anna estava fazendo, fosse o que fosse, não era o que ela esperava.
Julia havia acabado de amarrar suas mãos na cabeceira da cama, sentou-se novamente em cima dela e sorriu.

- Você quis parecer comigo, ser como sou. Isso não vale muito aqui nessa cidade sabia? De qualquer forma, agora você vai conhecer melhor o que andou desejando.

- O que você vai fazer Anna? Por favor não me machuque. - Julia estava com medo.

- Você está com medo? - Disse Anna. - Não deveria, eu jamais sinto medo.

Anna colocou a mão para tráz e puxou um punhal de prata que estava preso entre sua cintura e a saia. Julia queria gritar, mas não conseguia. Ela olhava com desespero para Anna enquanto Anna levantava o punhal, com os olhos fechados.

- Anna me escuta, não faça isso comigo. Por favor. - Disse.

- Faço sim querida, faço. Você quer me conhecer? Quer ser como sou? Então é isso que você vai ter. - Anna falou e fez um corte profundo em sua mão, falou algumas palavras em latim que Julia não pôde entender. Anna esticou a mão em direção ao rosto de Julia e deixou que o sangue escorresse em sua boca.

Julia estava desesperada, não sabia o que era aquilo. Sentiu o gosto amargo do sangue de Anna em sua boca e tentou se livrar das cordas que a prendiam.
De repente Julia sentiu um forte peso sobre sua cabeça, como se algo a tivesse puxado para um sono profundo. Fechou os olhos imediatamente e embora estivesse lúcida, não conseguia abrí-los.
Seu corpo foi ficando pesado, enquanto suas costas ardiam como se alguém as tivesse queimando. Suas veias pareciam em fogo.
Suas costas doíam mais á cada segundo que se passava e ela teve a certeza de que alguém a ferira.
Soltou um grito de dor e sua voz parecia tão quente que ela sentiu como se sua garganta estivesse em chamas.

Sua dor foi cedendo aos poucos e o peso em seu corpo diminuindo. Ela abriu os olhos lentamente e viu que Anna estava no mesmo lugar, mas sua mão não sangrava mais.

- Você não sabe o que é cair! Não sabe o que é ter o fogo correndo em suas veias. Você é apenas uma vadia mortal com uma sede insignificante pelo conhecimento dos outros. Sua vida é tão frágil que eu poderia acabar com ela de olhos fechados.

- O que você fez comigo? - Julia estava quase sem voz, sua garganta ainda ardia.

- Nada além de lhe dar um pouco de mim e nada comparado ao que eu posso fazer. - Anna respondeu enfurecida. - Você não é nada além de um ser humano insignificante que se orgulha por causa de uma simples veste, você me enoja!

- O que você é? - Julia parecia incrédula.

- Não lhe interessa, não mesmo. Não á você, uma simples e mesquinha vadia.

- Me deixe ir. - Julia falou ainda com medo.

- Você vai sair daqui com vida, não precisa temer, não mais. - Anna falou e Julia sentiu que as cordas se afrouxaram de seus pulsos.

Anna se levantou e seguiu até a porta do quarto. Seus olhos pareciam mais negros do que nunca. Julia se levantou apressada e a viu de distanciar, notou quando ela virou, dois enormes cortes verticais em suas costas.
Ela ainda sentia um peso em seu corpo quando levantou e desceu a escada. Passou pela sala e as pessoas que estavam lá pareciam não se importar com sua presença.
Seguiu para fora da casa e viu que a lua iluminava o lado de fora. Sentiu medo quando pensou no caminho de volta para casa, mas temeu mais ainda em pensar em ficar ali.

******

Na porta da sala estavam Nicholas e Anna. Eles a olhavam até que ela finalmente desapareceu na escuridão.

- Ela parece ter entendido querida. - Disse Nicholas dando um gole na bebida.

- Creio que sim. - Anna respondeu.

- Você é demais. - Ele falou. - Assustou a menina mesmo.

- Eu não assustei. Ela fez isso com ela mesma. Você sabe meu amor, cuidado com aquilo... - Anna não terminou a frase.

- Que deseja. - Continuou Nicholas.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Seguindo a escuridão.


" Na chama do seu olhar, desafiando

Todos que dormem em silêncio
Numa cidade certa vez chamada Desejo
Sonhando com o amor enterrado."
(Moonspell)

Eu estava decidida, Aklen estava fora da minha vida. Desta vez, para sempre. Mas embora estivesse decidida, não conseguia parar de pensar nele e sabia que isso o atrairia.
Tentei, por diversas vezes, e se ele poderia sentir meus pensamentos, poderia também sentir meu repúdio.
Ás vezes lembrava dele com tristeza, ás vezes com raiva. Eu não sabia ao certo o que havia acontecido com ele, mas não gostava da idéia de que ele apareceria sempre que eu precisasse, o que significaria que ele estaria sempre ao meu redor, escondido no escuro - me vigiando.

******

Era sexta-feira e eu esperava uma encomenda na rodoviária. Uma amiga muito querida, estava mandando uns últimos objetos meus, pelo ônibus. Estava extremamente frio e a rodoviária estava vazia. Eu já não aguentava mais esperar e já tinha olhado diversas vezes no relógio, quando vi que o ônibus se aproximava.

Logo estava falando com o motorista sobre minha bagagem, era uma caixa grande com alguns objetos pessoais. Assim que confirmei meus dados, ele me entregou e eu parti pelas ruas desertas com a caixa que me deixava um pouco desajeitada.

A rodoviária ficava distante do meu prédio e eu já estava cansada por causa da caixa. Parei em uma pequena praça para descansar e coloquei-a no banco enquanto tomava fôlego.
O vento pareceu ficar mais forte quando notei a presença de alguém atrás de mim. Na hora gelei, pensei ser algum assaltante ou coisa do tipo. Não sabia se virava para tráz ou se corria, como demorei para decidir, a pessoa falou comigo.

- Não tenha medo Malina.

Virei instintivamente e vi que era um rapaz muito bonito. Ele tinha o cabelo cacheado extremamente preto e longo. Vestia uma calça preta, camisa social e calçava botas, tinha um visual gótico porém muito sóbrio. Assim que olhei em seus olhos negros, pude ver que conhecia aquela pálida face. Era um dos amigos de Reid, o que me fez estremecer.

- Olá. - Respondi e peguei novamente a caixa, comecei a caminhar apressada.

- Eu gostaria de falar com você. Você não pode me dar cinco minutos? - Ele perguntou, andando atrás de mim.

- Creio que não. Tenho coisas para fazer.

- Malina, por favor. - Ele falou e parou.

Virei-me para ele e colocando a caixa no chão, concordei ainda um pouco desconfiada.

- Eu sei que você não teve uma boa experiência quando nos conheceu, mas vim para lhe pedir desculpas. - Ele falou enquanto se aproximava, eu sentei no banco e o encarei.

- Certo. Você parece diferente do Reid. - Falei.

- Bom, o problema dele é que ele se acha um anjo das trevas, mas garanto que fora isso, ele é boa pessoa. - Sorriu.

- Você é o guitarrista não é?

- Sim, e aliás, me chamo Dirk.

- Creio que não preciso me apresentar. - Falei e sorri.

- Malina, posso lhe acompanhar? Carrego a caixa para você e aproveitamos para conversar. - Ele perguntou. - Não quero lhe atrapalhar.

- Tudo bem, estou mesmo cansada.

Eu me levantei e ele abaixou para pegar a caixa, fiquei surpresa quando vi a facilidade com a qual ele levantou a caixa.

- Pra você parece fácil. - Sorri enquanto ele a erguia com grande facilidade.

- Nem sempre. - Ele sorriu.

Começamos a caminhar e notei que apesar da caixa um tanto pesada, ele não tinha dificuldade nenhuma em carregá-la. Muito inteligente e bem-humorado, ele afastou qualquer receio que eu pudesse ter sentido.

- Esperei a semana toda para vim falar com você. - Ele disse, sempre com o sorriso encantador.

- Bem, aqui estamos. - Respondi sem tirar os olhos dele.

- Vi quando você saiu machucada e me precupei. Reid não tem limites.

- Estou bem, pode ficar tranquilo. Eu acho tudo tão - hesitei - estranho.

- Só tenho um conselho para você Malina, não tente entender. Talvez tenha dois conselhos - sorriu - não se aproxime quando você tiver qualquer pressentimento estranho.

- Como assim? - Perguntei.

- Alguns de nós, parecem amigáveis ou bem-intencionados, mas no fundo, não são. Somos algo que não podemos controlar.

- O que significa que devo sair correndo nesse exato momento?

- Oh não! - Soltou uma gargalhada. - Sem falsas modéstias, eu levei tempos para conseguir ser como sou, saiba que não ofereço perigo.

- Estou aliviada. - Falei sarcasticamente.

Ainda andamos mais dois quarteirões até chegarmos em frente ao meu prédio, queria convidá-lo a entrar mas fiquei com medo de ser mal interpretada.

- Imagina, podemos subir sim. - Ele falou e sorriu novamente. - Sem problemas.

Eu ia falar algo mas a voz não saiu, achei engraçado e ao mesmo tempo assustador. Fiz sinal para que ele entrasse e logo estávamos subindo as escadas.
Entrei despreocupada assim que abri a porta, quando vi que ele não tinha me acompanhado, olhei para trás. Ele estava parado na porta me encarando.

- O que foi? - Perguntei.

- Você sabe. - Ele falou.

- Não, não sei.

- Sabe sim. - Sorriu.

- Ah perdão! Desculpe-me, entre por favor. - Falei finalmente e ele entrou.

Ele colocou a caixa no chão e sentou-se no sofá, eu fui até a cozinha e peguei duas cervejas. Abri uma e estiquei a segunda para ele, mas ele negou educadamente.
Coloquei um cd para tocar e abri as cortinas da sala, abrindo também a porta que dava para a varanda.

- Venha, vamos sentar aqui. - Falei e ele me seguiu.

Sentamos na varanda e ficamos por um tempo em silêncio. As nuvens carregadas manchavam o céu negro de Wilmont.

- Você disse que eu não deveria tentar entender, mas não consigo deixar de pensar nisso. - Falei com o olhar perdido na paisagem.

- Não há mal nenhum em entender, mas nem todos são iguais. Portanto eu posso falar de nossas características mas não posso falar sobre todos. Cada um age de uma maneira diferente, alguns são reservados, outros extravagantes. Alguns são românticos, outros extremamente perversos.

- Entendo, nada muito diferente do que conheço. - Sorri. - Vocês parecem tão poderosos. Gostaria de poder entendê-los melhor.

- É esse o problema. Depois de muitas confusões, ficou decidido que não falaríamos sobre o que somos para ninguém.

- Confusões? - Perguntei.

- Sim. Geralmente quando contamos, se a pessoa tiver uma "mente pequena" ela se ludibria sobre a nossa situação. Na verdade a pessoa entende bem no começo, mas quando falamos dos nossos "dons", a pessoa se perde, vê a verdade e logo a distorce. - Ele explicou.

- Entendo.

Passamos ainda muito tempo conversando, ele se mostrou um ótimo conhecedor da música. Falou mil nomes de bandas e seus países de origem, nomes de integrantes e assim por diante. Se mostrou também um ótimo conselheiro, sábio e um amigo dedicado. Por diversas vezes pensei em quantas meninas não ficariam completamente apaixonadas se o vissem falando assim.
Eu me sentia completamente bem em sua presença e vi que ele também estava gostando de estar ali. Conversamos por muito tempo e quando olhei para o relógio, já passavam das duas da manhã.

- E você? Como tudo aconteceu com você? - Falei enquanto abria outra cerveja.

- Faz tanto tempo que nem me lembro.

- Impossível! - Protestei. - Conte-me.

- Tudo bem. - Ele falou com um sorriso e uma expressão de fracasso no rosto, me fazendo ter certeza de que ele tentou me enganar. - Começou assim que vim morar em Wilmont.

- Então você mora aqui há muito tempo? - Perguntei.

- Pode-se dizer que sim. - Ele respondeu. - Eu pouco me lembro do que fazia antes de vim, acho que a única característica que ficou foi o meu dom de guitarrista. - Ele falou e soltou uma gargalhada.

- Convencido! - Exclamei.

- Mas é verdade. No começo fiquei muito confuso, sabendo que teria tanto tempo pela frente. Fiquei vagando por essas ruas por anos, sem nada acontecer. Depois de ver que as coisas sempre aconteciam para os outros e nunca aconteciam comigo, resolvi dar um sentido á minha vida. Saí e viajei por mais oito anos, conheci o mundo, até que fui parar na Finlândia e lá conheci os integrantes da minha banda.

- Então a banda é sua? - Perguntei.

- Sim.

- Sabe, você falou que já viu muita coisa acontecer por aqui e eu fiquei pensando: eu também.

- Pois é, Wilmont é mesmo incrível. Até meio assustadora ás vezes. - Sorriu.

- Mas não quero desviar o assunto, fale mais sobre você. - Continuei. - Aonde você mora aqui?

- Em um lugar muito conhecido por todos, um lugar que frequentei durante anos e que adoro, principalmente por sua beleza.

- Aonde? Como é lá? - Perguntei.

- Não teria palavras para explicar, o que acha de irmos até lá? - Ele perguntou.

- Tudo bem então, vamos. - Falei e me levantei, vesti um sobretudo grosso e logo estávamos á caminho.

******

Confesso que pensei que ele me levaria á um cemitério ou coisa parecida, mas chegando em nosso destino me senti ridícula por ter pensado assim. Um rapaz como ele não viveria em um lugar tão simples.

A rua estava molhada e completamente deserta. O frio dominava a noite e o vento uivava balançando as árvores altas.

- Chegamos. - Ele falou, parando na escada da catedral.

- Incrível. - Eu estava deslumbrada com sua beleza.

- Vamos entrar.

- Mas... - Tentei falar.

- Não tem problema, sei por onde entrar só tente não fazer barulho.

Andamos em direção á lateral da catedral e ele abriu uma porta que ficava no final da parede de pedra. Notei, antes de entrarmos, que a chuva começava a cair discretamente.
A catedral estava totalmente escura. Entramos primeiro em uma sala e eu mal podia ver o cômodo, segurei em seu ombro para que ele me guiasse, quando o fiz, ele sorriu baixinho.

Achei incrível o jeito que ele andava naquela escuridão, eu não conseguia ver nem o chão que pisava, mas ele parecia não ter problemas nenhum em andar.
Assim que seguimos um pequeno corredor, saímos perto do altar da catedral. A luz fraca da rua penetrava pelos vitrais coloridos nos proporcionando uma visão maravilhosa. Só nesse momento entendi o por quê que ele não conseguiu explicar sobre a beleza do lugar aonde morava.

Fiquei parada olhando aquela imagem que mais parecia um quadro para mim, até que ele tocou meu braço e fez sinal para que eu o seguisse.
Fomos até o final do salão e subimos as escadas, não sabia para onde ele estava me levando, mas á cada degrau eu olhava para baixo e a ficava mais encantada com a beleza do lugar.
Subimos muito até que chegamos ao último lance de escadas, assim que acabamos, vi que estávamos em um tipo de torre.

Ele se adiantou em minha frente e abriu a única porta que havia. Eu o acompanhei e entramos no pequeno cômodo. Era um pequeno quarto úmido, as paredes de pedras, o chão de piso envelhecido. Estava escuro até que ele acendeu um castiçal que estava na pequena mesa ao lado da cama.

- O que achou? - Ele perguntou.

- Sem palavras para descrever. - Eu sorri.

- Espere até ver uma coisa. - Ele falou e me virando para o lado direito do quarto, abriu uma pequena janela.

Do lado de fora a chuva caía intensa e tristemente. As árvores dançavam junto á melodia do vento, a escuridão da noite avançava sobre as pequenas casas de Wilmont. A beleza era tão grande que uma lágrima escorreu em meus olhos.

- É lindo. - Falei quase sem voz.

- Eu sei. - Ele respondeu da mesma forma.

Após alguns minutos parada ali, voltei-me ao interior do quarto e sentei em sua cama passando a mão em sua colcha de veludo vinho.

- Conte-me mais sobre você. Não sei o por quê, mas sinto que todas as pessoas em Wilmont são solitárias, parece que gostam de viver assim, isoladas.

Ele sorriu discretamente e disse:

- Olhe para você.

A voz me faltou, não consegui argumentar.

- Esqueça, não se preocupe com isso. Um dia você vai entender tudo. - Ele falou.

- Um dia? Que dia? - Falei quase melancolicamente.

- O dia que você entender a essência dessa cidade.

Houve um longo silêncio até que eu conseguisse me recuperar de toda minha tristeza. Meus pensamentos se tornaram tristes e eu tive vontade de chorar.

- Estou cansada de ver muita coisa acontecer e de nada entender. Quero que as coisas fiquem mais claras para mim.

- Não posso responder por tudo o que você viu aqui em Wilmont, mas não costumo julgar as pessoas, se você quiser saber mais sobre mim, eu a ajudarei. Só espero que esteja preparada.

- Estou.

Ele se aproximou de mim, eu ainda estava sentada na cama. Ele apenas esticou a mão em direção ao meu rosto, como se quisesse me hipnotizar. Sem sentir fechei os olhos e as imagens surgiram em minha frente, nelas, ele aparecia e sem mover os lábios, falava para mim:

"Eu posso roubar sua mente por algum tempo,
Eu posso parar por um tempo o seu coração,
Eu posso congelar a sua alma.
Símbolo da morte.
Acendo os céus com os meus olhos."¹

As lágrimas escorriam dos meus olhos, mas eu não conseguia abrí-los.

"Se renda as suas lágrimas para seu ato mortal
Flor amaldiçoada pelo teu fruto
Pela sua última coragem
Pelo seu grande final
Flor esmagada no chão
No seu coração vazio
No peito que alimenta
Flor acabada na escuridão..."²

Eu não queria mais estar ali, sabia agora que talvez eu não estivesse preparada. Senti uma grande tristeza correndo em minhas veias e quis amaldiçoar o dia em que nasci. Vi que tudo acabaria logo, as imagens foram sumindo até que ele disse as últimas palavras.

"Acendo os céus com os meus olhos,
Mas me mantenha afastado da sua luz."³

Abri os olhos e senti que as lágrimas haviam molhado todo meu rosto, inclinei minha cabeça em direção aos joelhos e enxuguei as lágrimas.
Ele me olhava com um olhar piedoso do outro canto da sala. Não sabia o que dizer, o que ele fez foi grandioso demais e eu sabia que nada explicaria o que estava sentindo.

- Posso lhe levar para casa se quiser. - Ele falou timidamente e sua voz soava como música aos meus ouvidos.

- Não é preciso. - Falei e parti.

Desci as escadas muito mais rápido do que esperava, segui todo o caminho e quase me perdi dentro da catedral, mas por fim, estava na rua.

Cheguei ao lado de fora e senti a chuva caindo em meu casaco e molhando meu cabelo. Andei com o vento cortando minha face até que parei nos degraus da entrada e olhei para cima, Dirk estava parado em frente ao enorme crucifixo da torre principal. Agora ele vestia um sobretudo longo que balançava junto ao vento, seus cabelos dançavam na tempestade enquanto ele permanecia imóvel.

Olhei-o ainda por muito tempo, até que virei-me e fui embora.
Em minha cabeça as palavras de Aklen começavam a fazer sentido. Ele tinha razão, eu amava a escuridão.


¹,²,³ - Trechos retirados da música "Escorpion Flower" - Moonspell.
Esse conto foi inspirado nessa mesma música.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Em algum lugar, no escuro...


"Posso roubar sua mente por algum tempo?
Posso parar por um tempo o seu coração?
Posso congelar a sua alma e seu tempo?
Flor escorpião
Símbolo da morte
Acenda os céus com seus olhos
E me mantenha afastado da sua luz

Se renda as suas lágrimas para seu ato mortal
Flor amaldiçoada pelo teu fruto
Pela sua última coragem
Pelo seu grande final
Flor esmagada no chão
No seu coração vazio
No peito que alimenta
Flor acabada na escuridão..."
(Moonspell)

Depois do meu encontro com Aklen, eu estava diferente. Uma grande apatia tinha tomando conta da minha vida. Eu não andava mais como antes pelas ruas de Wilmont, agora eu mal podia ver o que me cercava.
Eu não sabia as respostas para as questões impostas por ele, eu gostaria de me preocupar dessa vez, mas não conseguia.

Eu tinha passado uma semana normal, do trabalho pra casa e vice-versa. Confesso que achei até normal demais, "A vida perfeita para um suicida" - pensava ás vezes.
Eu nunca me preocupava com o que as outras pessoas pensassem de mim, mas dessa vez, temia que Aklen tivesse razão.

*******

Enfim, para todas as outras pessoas, tinha chegado sexta-feira. Eu não estava empolgada como todos ficam quando chega o fim-de-semana e não sabia como mudar isso.
Saí da livraria e me despedi do Sr. Allan com um falso sorriso que ele pareceu notar.

- Ora Malina, tente se animar. - Disse antes de fechar a porta.

Segui pelas ruas, estava frio como sempre. Confesso também que o frio sempre me alegra, por mais triste que eu esteja.
"Talvez se nevar as coisas mudem e eu me sinta mais alegre" - pensei antes de entrar no meu prédio.

Cheguei no meu apartamento e joguei a bolsa no sofá como o de costume. Engraçado como a rotina parece invencível.
Entrei para o banheiro e tomei banho, durante ele, me senti estranha em gostar da água quente ardendo em minha pele. Quando terminei, coloquei uma blusa larga e me deitei no sofá, peguei uma revista velha e li sem interesse.

Me senti cansada e adormeci ali mesmo.

******

Acordei com a claridade do céu cinza de Wilmont inundando minha sala. Me assustei quando vi minha pele pálida reluzindo em toda aquela luz. Levantei levemente a cabeça para olhar o relógio, eram oito horas da manhã.
Levantei e coloquei um cd no rádio velho, fui até a cozinha e comecei preparar meu café. Assim que ele ficou pronto acendi um cigarro.
"Não posso ficar assim o tempo todo, sei muito bem aonde isso vai parar." - Pensei quase que alto.

Nesse momento pensei novamente em Aklen, e se eu o chamasse? Será mesmo que ele apareceria? Neguei para mim mesma, sacudindo a cabeça.
Assim que acabei meu café resolvi arrumar uns livros que estavam fora do lugar. Me impressionei horas depois quando vi que tinha arrumado quase que a casa toda e que no rádio, a música estava mais alta.

Já ia tomar um outro banho quando o telefone tocou e eu corri para atender. Chegando na sala senti meu corpo tremer de ansiedade, era Aklen, eu tinha quase certeza.
Atendi o telefone com o coração quase pulando do meu peito.

- Malina? - Disse o Sr. Allan com a voz que me tirou o chão.

- Sim Sr. Allan, algum problema? - Falei desapontada.

- Não querida, não é bem um problema. - Ele disse e eu fiquei sem voz, ele continuou - estava pensando se você não poderia vim até aqui.

- Sem problemas Sr. Allan. - Eu disse e a apatia voltou a tomar conta de mim.

- Ótimo então, aqui lhe explico melhor o porquê. - Ele falou e desligou.

Eu mal podia acreditar que teria que trabalhar logo no momento em que me sentia melhor. De qualquer forma tinha que ir.
"Burra, ao invés de inventar uma boa desculpa" - falava para mim mesma.

Tomei meu banho, não tão demoradamente como pretendia, e me apressei para sair de casa.

No meio do caminho sentia uma mistura de tristeza e raiva, o frio era intenso e pensei que seria péssimo perder uma tarde tão linda.
Entrei na livraria e o Sr. Allan me recebeu com um sorriso que me deixou sem graça.

- Ah Malina, só você para me salvar! Estou precisando de alguém mesmo. - Disse.

- Estou aqui Sr. Allan, é só falar. - Eu falei tentando parecer animada.

- Não, não é aqui na livraria que preciso. Por aqui está tudo bem. - Ele falou e eu fiquei imaginando para aonde iria.

- Meu irmão está precisando de uma forcinha na loja dele. Acho que já comentei com você sobre ele, tem uma loja de cd ali perto da Rua Cinquenta e um. Hoje tem uma tarde de autógrafo e ele precisa de mais pessoas e como ele vai pagar por isso, pensei que você se interessaria.

- Gentileza de sua parte lembrar de mim Sr. Allan, vou sim. - Falei, não era tão mal o oferecido.

- Aqui está. - Ele disse me entregando um cartão com o nome do irmão e o endereço da loja.

- Tudo bem. - Eu falei e me despedi.

******

Cheguei na frente da loja e deveriam ter umas vinte e poucas pessoas, na maioria garotas, do lado de fora. Entrei e não foi difícil identificar o irmão do Sr. Allan, os dois se pareciam muito.
Ele veio até mim e nos apresentamos, o nome dele era Giles. Ele explicou o que eu deveria fazer e que se resumia em ficar ao lado dos artistas e atendê-los quando eles precisassem de algo.

"Nada mal mesmo" - pensei.

Fiquei por um tempo arrumando algumas mesas e cadeiras quando notei que o número de fãs do lado de fora tinha aumentado consideravelmente. Não pude de deixar de rir sozinha. Parei em frente á um cartaz e então li para ver de quem se tratava.
Era uma banda filandesa muito conhecida pelo seu estilo sombrio, quatro homens e uma mulher.
Depois de me informar melhor sobre eles, me sentei e ficamos esperando que eles aparecessem, o que me deixou entediada, pois eles não apareceram.

Giles veio até mim depois de um bom tempo de espera e disse que a tarde de autógrafos tinha sido cancelada. Imaginei que o empresário da banda tivesse ligado ou algo desse tipo.

- Aqui está seu dinheiro Malina. - Disse Giles.

- Oh não, por favor! - Exclamei, mas ele insistiu com um olhar doce, eu aceitei e me despedi.

Quando estava chegando perto da porta, parei para olhar um cartaz que estava pendurado na parede de vidro da loja, o cartaz anunciava o show da banda. Sem maiores esforços voltei até o Sr. Giles e devolvi o dinheiro, pedindo o ingresso.

******

A tarde passou da maneira mais agradável possível, fiquei sentada na pequena varanda no meu apartamento por horas, com o olhar perdido na paisagem cinza.
Quando a noite fria estava se aproximando, entrei e aumentei a música, indo me preparar para sair.
Demorei um pouco mais que o de costume e assim que acabei fui para rua.
Andei até o ponto de táxi mais próximo e chamei um dos motoristas que estava na calçada, disse o meu destino e assim que ele concordou, saímos.

Eu não sabia aonde era o lugar ao certo, sabia somente que era numa casa em uma colina um pouco distante da cidade.
No caminho o frio parecia aumentar, talvez pelo fato de estarmos cercados de florestas. Eu olhava pela janela e sentia uma grande ansiedade dentro de mim.
Demoramos talvez uns vinte minutos até chegarmos em frente a casa, paguei e desci do carro.

Comecei á andar pelo gramado e me senti mais segura quando vi que muitas pessoas chegavam junto comigo.
Subi a pequena escada que dava para a porta de entrada e antes de entrar, parei e olhei para trás. A noite escura dominava tudo e só um fraco raio da luz da lua iluminava os picos das árvores. Senti uma fisgada no peito quando vi que estava novamente rodeada pela escuridão.

Me virei e entrei. A entrada era uma sala grande com o chão de madeira bem lustrada e as paredes beges. Segui então até o segurança e ele me indicou aonde era a entrada para o salão aonde o show aconteceria.

Entrei por uma porta que ficava na lateral da sala e desci uma escada que me fez lembrar do Teatro dos Vampiros do filme Entrevista com o Vampiro. Haviam muitas pessoas no lugar e pude perceber que a o show ainda não tinha começado pois a música não era tão alta e as pessoas dançavam sem se preocupar com o pequeno palco no final do salão.

Desci a escada e fui até o bar que ficava no canto do salão, chamei o rapaz que estava atendendo e pedi uma dose de campari. Me distraí um pouco até que alguém me puxou pelo braço.

- Olá Malina. - Disse Giles.

- Oi Giles, como está? - Eu disse reparando em como ele parecia diferente. Ele era muito parecido com o irmão, mas mais novo. Branco, alto e cabelos castanhos claros. Tinha um sorriso tão doce quanto o do Sr. Allan.

- Bem melhor agora. - Falou e sorriu me fazendo sorrir sem graça. - Você também gosta dessas músicas sombrias pelo visto.

- Gosto sim. - Respondi.

- Que tal conhecer os rapazes da banda essa noite? - Perguntou.

- Seria legal, mas não sei se devo, não conheço bem a banda. - Respondi pensando em como agiria se algum deles perguntassem sobre algum cd.

- Sem problemas, vai conhecer hoje. - Ele falou e riu.

Ficamos ali conversando sobre música por um bom tempo até que o show começasse. Quando cada integrante da banda tomou seu lugar, as luzes se apagaram á espera do vocalista, que era o único que não estava no palco. Pude ouvir alguns gritos femininos e percebi que ele estava entrando.
No decorrer do show fiquei impressionada com a música de boa qualidade e a presença de palco dos integrantes. Os rapazes, quase todos, vestiam calças e jaquetas de couro. A única moça da banda, a tecladista, vestia uma saia de couro, botas e uma blusa de renda.

O show deve ter durado uma hora e meia mais ou menos, no final as meninas gritaram muito quando o vocalista fez seu último discurso.

- Chegou nossa hora Malina, vamos no camarim. - Disse Giles me puxando pelo braço.

Andamos até a porta que ficava ao lado do palco e entramos sem problemas. O camarim era iluminado por velas que deixavam o quarto num tom de vermelho-escuro. Giles pediu que eu esperasse um pouco antes e foi em direção ao guitarrista que estava parado junto á menina.

Sentei-me em uma cadeira que acompanhava uma mesa de madeira. Em cima da mesa havia uma vela e um cinzeiro, acendi meu cigarro e fiquei esperando Giles voltar.
O ambiente tinha um cheiro suave de essência de sândalo, o lugar era obscuramente agradável.
Eu olhava para Giles que conversava com muita intimidade com os outros rapazes, até que a moça se aproximou com o sorriso lindo.

- Oi, vem pra cá. - Ela disse esticando a mão. - Se aproxime de nós.

Eu sorri e levantei indo em sua direção. Estava um pouco insegura mas a bebida já estava me deixando mais descontraída.
Fiquei ao lado dela enquanto Giles conversava com três dos rapazes, no meio da conversa soube que o nome da moça era Louise, ela não falou muito, só ficava parada do meu lado sorrindo e bebendo.
Não havia reparado que o vocalista não estava conosco até que Louise, olhando para o sofá que ficava no final do camarim, disse:

- Reid, venha para cá. Está se sentindo bem?

Mas ele não respondeu, estava sentado com as pernas esticadas para frente. Usava óculos escuros e seu cabelo cobria quase todo seu rosto. Ele parecia estar olhando para nós, mas como eu não sabia se realmente estava, continuei prestando atenção no que os outros rapazes falavam.

Depois de um tempo, Louise voltou a chamá-lo mas ele não respondeu novamente. Quando olhei dessa vez, ele parecia me encarar. Fiquei sem jeito e desviei o olhar, mas a situação me incomodava.
Olhei de novo em sua direção e ele sorriu. Não o sorriso normal, um sorriso hipnótico. Devo ter ficado olhando para ele por algum tempo, mesmo sem sentir.
Ele então fez sinal para que eu me aproximasse e assim o fiz, andei como senão tivesse que fazer nenhum esforço, senti como se tivesse sendo guiada por alguém.

Ele se ergueu um pouco e se sentou de maneira mais formal, passou a mão no sofá indicando aonde eu deveria sentar. Sentei, estava séria.
Ele então se aproximou mais de mim e passou a mão por debaixo dos meus cabelos, parando em minha nuca. Chegou seu rosto mais próximo do meu e sorriu, olhou para os outros integrantes e depois voltou a olhar para mim, encostando sua boca em meu rosto.

- Fique mais a vontade. - Ele disse.

Eu não poderia ficar mais a vontade com ele tão próximo, olhei então para onde Giles e os outros rapazes estavam e vi que eles tinham saído junto com Louise.

- Agora você consegue ficar mais a vontade? - Ele perguntou e sorriu sarcasticamente.

- Sim. - Respondi e a voz quase não saiu.

Ele tirou o óculos então e com um movimento rápido, afundou sua cabeça em meu pescoço. Ele me beijava e passava a mão em minhas pernas. Sua mão estava fria e quando ele tocou minha boca levei um pequeno susto, o excitando ainda mais.

Ele se levantou aos poucos, continuava me beijando. Puxou meus cabelos para trás enquanto desabotoava minha blusa.
Eu estava me deixando levar pela situação, ou pelo "poder" que parecia emanar de seus toques quando tive um segundo de lucidez e o empurrei, colocando minha mão em seu peito, o afastando.

Ele me olhou sorrindo e passou a mão em meus cabelos os jogando para trás, se sentou ao meu lado e disse:

- Não precisa ficar com medo.

- Não estou. - Falei.

Ele sorriu novamente e se atirou em mim, jogou todo seu peso em cima de mim e puxou meus cabelos com força. Encostou seus lábios em meu pescoço e disse:

- Mas acho que vai ficar.

Ele mordia levemente meu pescoço e descia até meu ombro, eu estava totalmente imóvel embaixo dele. Senti quando ele arrastou algo que arranhou minha pele, eu sentia minha pele quente em contraste com a sua, que estava completamente gelada.

Quando os arranhões ficaram mais intensos, abri meus olhos com medo e o que vi me fez gelar.
Aklen estava parado atrás de Reid, ele estava sério e vi que prestava atenção em todos os movimentos dele. Não tive tempo de nada antes que ele arrancasse Reid de cima de mim e o jogasse no outro canto da quarto.

Levantei assustada e quando olhei para baixo, vi que algumas gotas de sangue escorriam timidamente do meu pescoço, mas não tive tempo para me preocupar comigo mesma. Aklen estava batendo em Reid com tanta força que o barulho chegava a ser insuportável.
Corri até ele e tentei pará-lo, mas sua raiva era incontrolável.
Corri então até a porta do camarim e passei pelo meio da multidão, atordoada.
Subi as escadas correndo, não sabia de quem ao certo estava fugindo, só pensava em sair dali.

Cheguei até o lado de fora da casa e lá estavam Louise, Giles e os outros rapazes. Louise se virou quando percebeu que eu havia saído da casa, seus olhos pareciam brilhar, ela sorriu como se soubesse o que estava acontecendo. Eu então diminui meus passos e andei na direção contrária á ela.

Andei para a lateral da casa e me encostei na parede.

- Malina. - Disse Aklen. Ele estava em pé perto de uma árvore.

Eu o olhei e me senti envergonhada, não respondi.

- Você deveria saber o que lhe cerca, porque você não é capaz de ter cuidado? - Ele falou enquanto se aproximava de mim. - Não é possível que não entenda o que está acontecendo.

- Não me preocupo em entender Aklen. Não sei o que você faz aqui. - Respondi tentando parecer indiferente.

- Você gosta disso não é? Da morte de rondando o tempo todo.

- Não perco mais meu tempo tentando lhe explicar nada depois do que você fez comigo.

- Você acha que eu não vi? Seus olhos ardiam naquela luz vermelha enquanto Reid começava a lhe machucar. O que houve com você? - Ele se aproximou ainda mais.

- O que houve com você. - Frizei a última palavra.

- Vamos embora, eu vou com você para onde você quiser. - Ele falou.

- Eu não fiquei com você da primeira vez Aklen, não vou ficar agora. - Falei e o vi se afastar.

As palavras morreram em seus lábios antes mesmo de sairem. Ele me encarou por alguns segundos e disse:

- Vou sempre estar ao seu lado.

- Faça o que quiser.

Olhei para ele por mais um tempo e um triste silêncio nos envolveu até que comecei a andar devagar.

- Você vai embora? - Ele perguntou.

- Sim e sozinha. - Respondi.

Estava me afastando quando parei e olhei para trás dizendo:

- Aliás, gostei de sentir a morte entre minhas coxas.

Fui até a frente da casa e pegando meu celular, liguei para o taxista. Logo estava de volta para casa, olhando pela janela, toda aquela conhecida escuridão.