
"Há um demônio rastejando por todo o seu chão,
(até quando?)
Há um demônio rastejando por todo seu chão,
(até quando?)
Com um coração trêmulo, ele está passando por sua
porta..."
(Nick Cave and The Bad Seeds)
(até quando?)
Há um demônio rastejando por todo seu chão,
(até quando?)
Com um coração trêmulo, ele está passando por sua
porta..."
(Nick Cave and The Bad Seeds)
Louis era um rapaz novo, mais novo do que aparentava ser. Distraído, sempre deixava que os detalhes lhe fugissem. Estava há anos em Wilmont e sequer recordava a dta que havia chegado. A primeira impressão que passava era a de um homem solitário, de poucas palavras e poucos amigos. Embora fosse jovem, seus vinte e dois anos pesavam como centenas em suas costas.
Louis morava numa pequena casa na entrada da cidade. Pouquíssimas vezes ousara sair dela para outro fim senão os que apresentavam verdadeira necessidade. Sua poltrona antiga, sua bebida e sua vitrola lhe eram companhias perfeitas em meio o ambiente lúgubre em que vivia.
Sua casa era um lugar escuro e as lamparinas mal iluminavam os cômodos. Além de escura, era também vazia e alguns dos quartos jamais haviam sido usados. A vida ali dentro se resumia na sala e banheiro, raramente na cozinha, que Louis só utilizava quando procurava um modo de abrir uma de suas garrafas, ou procurava algo simples para comer.
Rodeado de lembranças, seu presente sempre fora tomado pelo passado.
Ás vezes passava o dia inteiro sentado em sua poltrona, olhando para janela, com suas eternas lembranças a vagar pela casa. Nesses dias, só desviava o olhar quando procurava o fósforo para acender seu cigarro extra forte. E suas lembranças eram boas, nelas ele vivia e revivia momentos agradáveis. Cercado de amigos e bebida, cercado por boa música e boas conversas, lembranças que o tempo não pôde apagar.
"- Nem afastar de mim." - Pensava.
Mas ultimamente Louis estava preocupado, com sua própria sanidade talvez. Ultimamente não sentava mais em sua poltrona, degustando sua bebida favorita e lembrando dos velhos tempos. Nos últimos dias só uma coisa o preocupava: a mulher que toda noite entrava por sua porta e dizia coisas que ele não queria ouvir.
******
- Seis horas. - Ele disse olhando pro relógio que marcava quatro e quinze da tarde. - Seis horas ela chega. Até lá eu espero. - Falou e deixou que o som morresse no ar frio e seco de sua sala.
A neve caía timidamente do lado de fora enquanto a voz de Nick Cave ecoava pelos cantos da sala.
Louis se levantou para trocar o lado do vinil e quando o fez se interessou pela paisagem do lado de fora e foi até a janela para ver o tempo.
- Como essas horas demoram a passar. - Falava e sentia a solidão maciça ao seu lado, como uma estátua, concreta. - Não vou aguentar esperar.
Mas ele sabia que não havia outro jeito, ele teria que esperar.
- Uma mulher que mal conheço, como pode mexer tanto comigo!? - Exclamava em seu pensamento. - Maldita!
Louis se afastou pesarosamente da janela, sentou novamente em sua poltrona e fechou os olhos enquanto o som tornava-se novamente alto.
"Do you love me?
Do you love me?" - Tocava.
******
Louis acordou com o vento frio cortando sua face, abriu os olhos rapidamente e viu a escuridão entrando por sua porta e com ela Madeleine entrava.
Com seus trajes dos anos 20, mais parecia uma dançarina de algum cabaret de luxo. Para Louis parecia uma boneca perfeita. Com sua boina pendendo em sua cabeça sob seus cabelos extramente lisos e curtos. Sua boca cor-de-sangue, seu colo perfeitamente desenhado e sua pele que reluzia embaixo da meia-arrastão de trama larga.
- Lui, Lui... - Ela disse e ele mal podia acreditar que aqueles lábios macios e a voz maravilhosa se referiam a ele.
Ele olhou para o relógio, eram seis e quinze.
- Não precisa me dizer que demorei. - Ela disse.
- Eu não... - Ele tentou falar, mas sua voz falhou a fazendo sorrir.
- Não se justifique para mim. - Ela sorriu.
- Madeleine porque insiste em brincar comigo? - Ele perguntou e imaginou mil respostas diferentes.
- Se você chama isso de brincadeira... - Ela respondeu.
- Madeleine, o que quer de mim?
- De novo a mesma pergunta Lui? Já disse que nada que você não possa oferecer facilmente meu caro, mas não se preocupe, falaremos disso outro dia.
- Não! - Ele exclamou. - Não, outro dia não! Quero que fale agora! Há dias vem me visitando e nada sei sobre você!
- Nada sabe sobre nada, meu caro amante. - Ela fez a última palavra soar com malícia o fazendo corar.
- Madeleine, por favor.
Ela negou com a cabeça.
Loius que havia se levantado voltou a sentar em sua poltrona a fitando. Ali ela estava, perfeita em todos os sentidos e ele mal a conhecia.
"Madeleine, você sabe o que tem feito com minha vida? Tem a mínima noção do que tem feito com minha funesta vida?" - Ele pensava enquanto seus olhos percorriam o corpo daquela figura que iluminava o lugar.
Madeleine deu alguns passos á frente, fechando a porta sem olhar para trás. Para Louis era incrível como todos seus movimentos pareciam graciosos. Ela se aproximou da pequena mesa que ficava embaixo da janela e passou uma das pernas por cima dela, jogando levemente seu peso.
Olhou para trás e segurando a cortina falou:
- Aqui escuresse tão rápido. Olhe só, poderia jurar que já são oito da noite. - Olhou para Louis que permanecia em silêncio apenas a olhando.
"- Acho que está se cansando. " - Ela pensou, se esforçando para sorrir.
Tirou sua perna vagarosamente de cima da mesa, olhando para ele e vendo o resultado de sua provocação aproximou-se dele.
- Não fique triste Lui, logo partiremos desse lugar.
Louis se assustou e acordou da hipnose que sua aproximação havia provocado.
- Partiremos? Como assim? - Quase gritou.
- Não se apresse. Só o que posso adiantar é que... - Ela não terminou. - Tenho que ir.
- Madeleine! - Louis tentou segurar em seus braços, mas ela pareceu escorregar entre seus dedos, alcançando a porta com rapidez.
Louis correu até a entrada da casa, mas a escuridão o impediu de ver para qual lado ela havia seguido. Então ele voltou para dentro e dando o último gole que restava no copo, sentou-se e fechou novamente seus olhos.
******
Era noite, o chiado do aparelho de som percorria pela casa. Louis havia adormecido no sofá. Acordou ainda bêbado e o silêncio interrompido o assustou. Na verdade ele sabia que esperava por Madeleine, sua musa misteriosa, mesmo sabendo que era uma espera vã.
" - Ela não irá voltar, seu tolo." - Falava para si mesmo enquanto levantava e ia em direção a cozinha.
Louis se aproximou da geladeira e a abriu, fez uma careta quando viu que não tinha nada dentro e que sequer estava ligada. Voltou-se em direção a porta e sorvou um gole de conhaque que estava numa garrafa sem tampa em cima da mesa.
"Você não sabe nada sobre nada meu caro..." - Lembrou-se das palavras de Madeleine, sua voz parecia ecoar dentro de sua cabeça.
Levantou-se e pegou seu pesado casaco empoeirado e foi em direção da porta principal. Saiu, na tentativa de se distrair, mesmo sabendo que a madrugada seria longa, de uma forma ou de outra.
******
Sua casa era rodeada de árvores e embora ele saísse muito pouco, conhecia bem o caminho que levava até a cidade.
Andou por meia hora na trilha estreita, suas pernas pesavam e sua cabeça parecia rodar em meio toda aquela escuridão.
Quando estava quase atingindo os trilhos do trem sentiu-se desanimado e sentou-se numa pedra que estava á beira da trilha que seguia. Apoiou os cotovelos no joelhos e abaixou a cabeça, não sabia o que estava fazendo ali.
Teve a impressão de ter dormido por algum tempo, pois quando abriu novamente os olhos algo parecia diferente. O silêncio era absoluto.
Levantou-se e seguiu seu caminho. A madrugada gelada o fazia tremer.
******
Louis atingiu a estação de trem e logo estava subindo pela estrada em direção a cidade. Assim que chegou, notou que a cidade parecia morta. Nada havia nas ruas gélidas de Wilmont, não havia ninguém. Continuou andando até que chegou no Centro da cidade e apesar de estranhar, não temeu hora nenhuma o fato da cidade estar deserta.
"Wilmont, Wilmont..." - Pensava enquanto andava.
As calçadas úmidas e o frio intenso quase o desanimaram, mas ele seguia em frente.
No período em que a neve deixava de cair parecia mais gelado, Louis quase sentia falta de alguém para conversar.
Ele andava a procura de algum bar quando se aproximou do final da calçada e se distraiu olhando para o semáforo. Quando voltou a olhar para baixo viu um vulto que acabava de virar a esquina, um vulto que ele pôde reconhecer, era o vulto de Madeleine.
Sem pensar muito atravessou a rua correndo e seguiu na mesma direção que ela havia seguido. Assim que alcançou a rua onde supostamente ela estaria ficou surpreso por não a ver. Seu perfume era inconfundível e paraiva no ar.
"- É ela! É claro que é ela!" - Falava para si mesmo.
"Ela é real! Não estou ficando louco!" - Pensava enquanto acendia outro cigarro e voltava a aumentar os passos em sua procura.
Louis andou durante horas e horas. Em cada esquina parecia mais perto de Madeleine. Algumas horas tinha a impressão que se esticasse as mãos a tocaria, outras ouvia com nitidez o barulho dos seus saltos enquanto ela corria, parecendo fugir.
Entre um cigarro e outro Louis continuava sua procura, sem cansar. Ás vezes andava em círculos durante horas.
"Aonde você está indo Madeleine?" - Falava com o rastro que ela parecia deixar a cada passo.
E assim continuou até que a madrugada finalmente se foi, dando lugar á aurora triste e cinza.
Louis então sentiu que ela havia partido de vez. Sentiu como se realmente ela houvesse deixado de estar ali. Olhou para o relógio, era sete e quinze da manhã. Só então enrusbeceu ao ver que a cidade continuava deserta.
Olhou para os dois lados e resolveu voltar para casa. Só no caminho de volta percebeu o quanto estava cansado.
"Mal vejo a hora de chegar." - Pensou.
Embora estivesse muito cansado Louis atravessou a floresta rapidamente e logo estava entrando em casa e embora não quisesse, sabia que passaria o dia á espera de Madeleine.
E assim foi. Louis passou o dia em sua sala á espera dela, em sua cabeça milhões de pensamentos, em seus pensamentos milhões de perguntas.
"O que está acontecendo comigo?" - Se perguntava. - "Quem é essa mulher?"
No fundo Louis sabia que havia algo errado, ele morava ali há anos e conhecia bem os segredos de Wilmont. E embora já esperasse pelo pior, o que mais o intrigava era como aquela mulher o havia mudado. Ele conseguia se expressar muito bem com ela, mesmo sabendo que sempre fora muito tímido com as mulheres.
"Como se eu já a conhecesse." - Pensava. - "Como se fosse uma velha amiga."
Conseguia se desprender de seus hábitos enquanto estava com ela e se sentia bem outra vez em sua presença.
"- Há algo errado." - Ele dizia.
Apesar de ansioso pela chegada dela, Louis não aguentou o cansaço e acabou cochilando em seu sofá velho. Quando abriu os olhos Madeleine já estava lá, sentada em sua poltrona.
O que viu o fez gelar por inteiro. A bela mulher de outrora, havia se transformado em uma criatura triste de olhos desesperados.
Madeleine parecia chorar, estava de cabeça baixa olhando os cortes em seus braços e lamentando sua roupa suja de sangue.
- Lui... - Ela disse levantando o olhar.
- Madeleine o que houve com você? - Ele perguntou dando um pulo do sofá.
- Lui... - A voz dela parecia não sair.
- Madeleine! - Ele disse se aproximando.
Ela esperou que ele se aproximasse - O que fazia atrás de mim?
Nesse momento o olhar de Madeleine pareceu mudar e a face desesperada agora exprimia sua raiva. Louis tentou se afastar quando notou sua mudança, mas viu que era tarde.
Madeleine que estava com um pedaço de espelho em uma das mãos, levantou-se e foi em sua direção, o agarrando fortemente.
- Madeleine espere! - Louis gritava enquanto tentava se desvenciliar dela. - Espere!
Mas Madeleine parecia cega de ódio e com um único objetivo, ferí-lo.
- Mad... - Louis falava enquanto perdia as forças. O corpo de Madeleine pesava sobre o dele, parecia mais forte do que qualquer outra coisa que já tinha visto. Com movimentos bruscos ela o cortava, alguns ferimentos profundos, outros cortes superficiais.
- Madeleine... - Louis perdeu finalmente as forças, caindo no chão, depois de lutar por sua vida ferozmente.
Louis sentiu todo cansaço de seu corpo. Sentiu todo o cansaço de anos sofridos. Sentiu cada arranhão e cada corte que ardiam em sua pele morena. Sentiu que seu sangue escorria sendo derramado no carpete envelhecido.
Louis sentiu uma lágrima, talvez a última, que solitariamente escorreu pelo seu rosto e finalmente fechou seus olhos.
Madeleine não estava mais ali.
******
Louis abriu os olhos e viu que ainda estava no meio da floresta. O frio parecia ter congelado suas mãos. Com dificuldade levantou-se e pondo-se de pé olhou para os lados.
- Mas o que... - Não terminou de falar.
Pegou sua garrafa que estava encostada na pedra que sentara outrora. Olhou para cima e viu que o céu continuava negro. Decidiu então que não seguiria em frente e voltou pela mesma trilha que viera.
Chegou em casa e assim que entrou na sala sentiu o perfume de Madeleine, mas não a quis procurar. Ligou seu aparelho de som e jogou-se de qualquer jeito no sofá, acendeu um cigarro e fechou os olhos acompanhando a música que tocava.
"Wilmont, há tantos anos lhe evitando. E você vem até mim..."
Do outro lado da casa Madeleine prestava atenção nos ruídos que Louis provocava.
"Lui, Lui..."
Louis morava numa pequena casa na entrada da cidade. Pouquíssimas vezes ousara sair dela para outro fim senão os que apresentavam verdadeira necessidade. Sua poltrona antiga, sua bebida e sua vitrola lhe eram companhias perfeitas em meio o ambiente lúgubre em que vivia.
Sua casa era um lugar escuro e as lamparinas mal iluminavam os cômodos. Além de escura, era também vazia e alguns dos quartos jamais haviam sido usados. A vida ali dentro se resumia na sala e banheiro, raramente na cozinha, que Louis só utilizava quando procurava um modo de abrir uma de suas garrafas, ou procurava algo simples para comer.
Rodeado de lembranças, seu presente sempre fora tomado pelo passado.
Ás vezes passava o dia inteiro sentado em sua poltrona, olhando para janela, com suas eternas lembranças a vagar pela casa. Nesses dias, só desviava o olhar quando procurava o fósforo para acender seu cigarro extra forte. E suas lembranças eram boas, nelas ele vivia e revivia momentos agradáveis. Cercado de amigos e bebida, cercado por boa música e boas conversas, lembranças que o tempo não pôde apagar.
"- Nem afastar de mim." - Pensava.
Mas ultimamente Louis estava preocupado, com sua própria sanidade talvez. Ultimamente não sentava mais em sua poltrona, degustando sua bebida favorita e lembrando dos velhos tempos. Nos últimos dias só uma coisa o preocupava: a mulher que toda noite entrava por sua porta e dizia coisas que ele não queria ouvir.
******
- Seis horas. - Ele disse olhando pro relógio que marcava quatro e quinze da tarde. - Seis horas ela chega. Até lá eu espero. - Falou e deixou que o som morresse no ar frio e seco de sua sala.
A neve caía timidamente do lado de fora enquanto a voz de Nick Cave ecoava pelos cantos da sala.
Louis se levantou para trocar o lado do vinil e quando o fez se interessou pela paisagem do lado de fora e foi até a janela para ver o tempo.
- Como essas horas demoram a passar. - Falava e sentia a solidão maciça ao seu lado, como uma estátua, concreta. - Não vou aguentar esperar.
Mas ele sabia que não havia outro jeito, ele teria que esperar.
- Uma mulher que mal conheço, como pode mexer tanto comigo!? - Exclamava em seu pensamento. - Maldita!
Louis se afastou pesarosamente da janela, sentou novamente em sua poltrona e fechou os olhos enquanto o som tornava-se novamente alto.
"Do you love me?
Do you love me?" - Tocava.
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Louis acordou com o vento frio cortando sua face, abriu os olhos rapidamente e viu a escuridão entrando por sua porta e com ela Madeleine entrava.
Com seus trajes dos anos 20, mais parecia uma dançarina de algum cabaret de luxo. Para Louis parecia uma boneca perfeita. Com sua boina pendendo em sua cabeça sob seus cabelos extramente lisos e curtos. Sua boca cor-de-sangue, seu colo perfeitamente desenhado e sua pele que reluzia embaixo da meia-arrastão de trama larga.
- Lui, Lui... - Ela disse e ele mal podia acreditar que aqueles lábios macios e a voz maravilhosa se referiam a ele.
Ele olhou para o relógio, eram seis e quinze.
- Não precisa me dizer que demorei. - Ela disse.
- Eu não... - Ele tentou falar, mas sua voz falhou a fazendo sorrir.
- Não se justifique para mim. - Ela sorriu.
- Madeleine porque insiste em brincar comigo? - Ele perguntou e imaginou mil respostas diferentes.
- Se você chama isso de brincadeira... - Ela respondeu.
- Madeleine, o que quer de mim?
- De novo a mesma pergunta Lui? Já disse que nada que você não possa oferecer facilmente meu caro, mas não se preocupe, falaremos disso outro dia.
- Não! - Ele exclamou. - Não, outro dia não! Quero que fale agora! Há dias vem me visitando e nada sei sobre você!
- Nada sabe sobre nada, meu caro amante. - Ela fez a última palavra soar com malícia o fazendo corar.
- Madeleine, por favor.
Ela negou com a cabeça.
Loius que havia se levantado voltou a sentar em sua poltrona a fitando. Ali ela estava, perfeita em todos os sentidos e ele mal a conhecia.
"Madeleine, você sabe o que tem feito com minha vida? Tem a mínima noção do que tem feito com minha funesta vida?" - Ele pensava enquanto seus olhos percorriam o corpo daquela figura que iluminava o lugar.
Madeleine deu alguns passos á frente, fechando a porta sem olhar para trás. Para Louis era incrível como todos seus movimentos pareciam graciosos. Ela se aproximou da pequena mesa que ficava embaixo da janela e passou uma das pernas por cima dela, jogando levemente seu peso.
Olhou para trás e segurando a cortina falou:
- Aqui escuresse tão rápido. Olhe só, poderia jurar que já são oito da noite. - Olhou para Louis que permanecia em silêncio apenas a olhando.
"- Acho que está se cansando. " - Ela pensou, se esforçando para sorrir.
Tirou sua perna vagarosamente de cima da mesa, olhando para ele e vendo o resultado de sua provocação aproximou-se dele.
- Não fique triste Lui, logo partiremos desse lugar.
Louis se assustou e acordou da hipnose que sua aproximação havia provocado.
- Partiremos? Como assim? - Quase gritou.
- Não se apresse. Só o que posso adiantar é que... - Ela não terminou. - Tenho que ir.
- Madeleine! - Louis tentou segurar em seus braços, mas ela pareceu escorregar entre seus dedos, alcançando a porta com rapidez.
Louis correu até a entrada da casa, mas a escuridão o impediu de ver para qual lado ela havia seguido. Então ele voltou para dentro e dando o último gole que restava no copo, sentou-se e fechou novamente seus olhos.
******
Era noite, o chiado do aparelho de som percorria pela casa. Louis havia adormecido no sofá. Acordou ainda bêbado e o silêncio interrompido o assustou. Na verdade ele sabia que esperava por Madeleine, sua musa misteriosa, mesmo sabendo que era uma espera vã.
" - Ela não irá voltar, seu tolo." - Falava para si mesmo enquanto levantava e ia em direção a cozinha.
Louis se aproximou da geladeira e a abriu, fez uma careta quando viu que não tinha nada dentro e que sequer estava ligada. Voltou-se em direção a porta e sorvou um gole de conhaque que estava numa garrafa sem tampa em cima da mesa.
"Você não sabe nada sobre nada meu caro..." - Lembrou-se das palavras de Madeleine, sua voz parecia ecoar dentro de sua cabeça.
Levantou-se e pegou seu pesado casaco empoeirado e foi em direção da porta principal. Saiu, na tentativa de se distrair, mesmo sabendo que a madrugada seria longa, de uma forma ou de outra.
******
Sua casa era rodeada de árvores e embora ele saísse muito pouco, conhecia bem o caminho que levava até a cidade.
Andou por meia hora na trilha estreita, suas pernas pesavam e sua cabeça parecia rodar em meio toda aquela escuridão.
Quando estava quase atingindo os trilhos do trem sentiu-se desanimado e sentou-se numa pedra que estava á beira da trilha que seguia. Apoiou os cotovelos no joelhos e abaixou a cabeça, não sabia o que estava fazendo ali.
Teve a impressão de ter dormido por algum tempo, pois quando abriu novamente os olhos algo parecia diferente. O silêncio era absoluto.
Levantou-se e seguiu seu caminho. A madrugada gelada o fazia tremer.
******
Louis atingiu a estação de trem e logo estava subindo pela estrada em direção a cidade. Assim que chegou, notou que a cidade parecia morta. Nada havia nas ruas gélidas de Wilmont, não havia ninguém. Continuou andando até que chegou no Centro da cidade e apesar de estranhar, não temeu hora nenhuma o fato da cidade estar deserta.
"Wilmont, Wilmont..." - Pensava enquanto andava.
As calçadas úmidas e o frio intenso quase o desanimaram, mas ele seguia em frente.
No período em que a neve deixava de cair parecia mais gelado, Louis quase sentia falta de alguém para conversar.
Ele andava a procura de algum bar quando se aproximou do final da calçada e se distraiu olhando para o semáforo. Quando voltou a olhar para baixo viu um vulto que acabava de virar a esquina, um vulto que ele pôde reconhecer, era o vulto de Madeleine.
Sem pensar muito atravessou a rua correndo e seguiu na mesma direção que ela havia seguido. Assim que alcançou a rua onde supostamente ela estaria ficou surpreso por não a ver. Seu perfume era inconfundível e paraiva no ar.
"- É ela! É claro que é ela!" - Falava para si mesmo.
"Ela é real! Não estou ficando louco!" - Pensava enquanto acendia outro cigarro e voltava a aumentar os passos em sua procura.
Louis andou durante horas e horas. Em cada esquina parecia mais perto de Madeleine. Algumas horas tinha a impressão que se esticasse as mãos a tocaria, outras ouvia com nitidez o barulho dos seus saltos enquanto ela corria, parecendo fugir.
Entre um cigarro e outro Louis continuava sua procura, sem cansar. Ás vezes andava em círculos durante horas.
"Aonde você está indo Madeleine?" - Falava com o rastro que ela parecia deixar a cada passo.
E assim continuou até que a madrugada finalmente se foi, dando lugar á aurora triste e cinza.
Louis então sentiu que ela havia partido de vez. Sentiu como se realmente ela houvesse deixado de estar ali. Olhou para o relógio, era sete e quinze da manhã. Só então enrusbeceu ao ver que a cidade continuava deserta.
Olhou para os dois lados e resolveu voltar para casa. Só no caminho de volta percebeu o quanto estava cansado.
"Mal vejo a hora de chegar." - Pensou.
Embora estivesse muito cansado Louis atravessou a floresta rapidamente e logo estava entrando em casa e embora não quisesse, sabia que passaria o dia á espera de Madeleine.
E assim foi. Louis passou o dia em sua sala á espera dela, em sua cabeça milhões de pensamentos, em seus pensamentos milhões de perguntas.
"O que está acontecendo comigo?" - Se perguntava. - "Quem é essa mulher?"
No fundo Louis sabia que havia algo errado, ele morava ali há anos e conhecia bem os segredos de Wilmont. E embora já esperasse pelo pior, o que mais o intrigava era como aquela mulher o havia mudado. Ele conseguia se expressar muito bem com ela, mesmo sabendo que sempre fora muito tímido com as mulheres.
"Como se eu já a conhecesse." - Pensava. - "Como se fosse uma velha amiga."
Conseguia se desprender de seus hábitos enquanto estava com ela e se sentia bem outra vez em sua presença.
"- Há algo errado." - Ele dizia.
Apesar de ansioso pela chegada dela, Louis não aguentou o cansaço e acabou cochilando em seu sofá velho. Quando abriu os olhos Madeleine já estava lá, sentada em sua poltrona.
O que viu o fez gelar por inteiro. A bela mulher de outrora, havia se transformado em uma criatura triste de olhos desesperados.
Madeleine parecia chorar, estava de cabeça baixa olhando os cortes em seus braços e lamentando sua roupa suja de sangue.
- Lui... - Ela disse levantando o olhar.
- Madeleine o que houve com você? - Ele perguntou dando um pulo do sofá.
- Lui... - A voz dela parecia não sair.
- Madeleine! - Ele disse se aproximando.
Ela esperou que ele se aproximasse - O que fazia atrás de mim?
Nesse momento o olhar de Madeleine pareceu mudar e a face desesperada agora exprimia sua raiva. Louis tentou se afastar quando notou sua mudança, mas viu que era tarde.
Madeleine que estava com um pedaço de espelho em uma das mãos, levantou-se e foi em sua direção, o agarrando fortemente.
- Madeleine espere! - Louis gritava enquanto tentava se desvenciliar dela. - Espere!
Mas Madeleine parecia cega de ódio e com um único objetivo, ferí-lo.
- Mad... - Louis falava enquanto perdia as forças. O corpo de Madeleine pesava sobre o dele, parecia mais forte do que qualquer outra coisa que já tinha visto. Com movimentos bruscos ela o cortava, alguns ferimentos profundos, outros cortes superficiais.
- Madeleine... - Louis perdeu finalmente as forças, caindo no chão, depois de lutar por sua vida ferozmente.
Louis sentiu todo cansaço de seu corpo. Sentiu todo o cansaço de anos sofridos. Sentiu cada arranhão e cada corte que ardiam em sua pele morena. Sentiu que seu sangue escorria sendo derramado no carpete envelhecido.
Louis sentiu uma lágrima, talvez a última, que solitariamente escorreu pelo seu rosto e finalmente fechou seus olhos.
Madeleine não estava mais ali.
******
Louis abriu os olhos e viu que ainda estava no meio da floresta. O frio parecia ter congelado suas mãos. Com dificuldade levantou-se e pondo-se de pé olhou para os lados.
- Mas o que... - Não terminou de falar.
Pegou sua garrafa que estava encostada na pedra que sentara outrora. Olhou para cima e viu que o céu continuava negro. Decidiu então que não seguiria em frente e voltou pela mesma trilha que viera.
Chegou em casa e assim que entrou na sala sentiu o perfume de Madeleine, mas não a quis procurar. Ligou seu aparelho de som e jogou-se de qualquer jeito no sofá, acendeu um cigarro e fechou os olhos acompanhando a música que tocava.
"Wilmont, há tantos anos lhe evitando. E você vem até mim..."
Do outro lado da casa Madeleine prestava atenção nos ruídos que Louis provocava.
"Lui, Lui..."




