
"Um círculo quebrado numa sangreta casca
Na face
De propostas da meia-noite
Alguém roubou a nostalgia da escuridão
Alguém roubou nossa inocência
Na sombra de seu sorriso
Na sombra de seu sorriso...
Todos os nossos sonhos se derreteram
Nos escondemos nos arbustos
De homens mortos..."
(Who killed Mr. Moonlight - Bauhaus)
O sol estava se despendindo dando lugar á uma chuva fina, o céu assumia um tom acinzentado. Na face
De propostas da meia-noite
Alguém roubou a nostalgia da escuridão
Alguém roubou nossa inocência
Na sombra de seu sorriso
Na sombra de seu sorriso...
Todos os nossos sonhos se derreteram
Nos escondemos nos arbustos
De homens mortos..."
(Who killed Mr. Moonlight - Bauhaus)
Na cozinha, ainda sentados á mesa, estavam Daniel, Nicholas e Anna. Nicholas encarava o irmão enquanto esse estava com o olhar perdido olhando para janela. Anna sempre dócil, estava de cabeça baixa e se sentia uma intrusa.
- Não sei. Sinceramente não sei. - Dizia Daniel distraído.
- Não quero lhe confundir ou forçá-lo a algo, Dan. - Explicava Nicholas.
- Se quem você conheceu é mesmo Lúcifer, deve existir um deus. E eu não quero nem ver aonde isso vai parar. - Falava Daniel.
- Ele só me ofereceu uma oportunidade e o que pediu em troca foi também uma oportunidade. Já lhe disse o que conversei com ele.
- E daí ? Não dizem que ele é o pai da mentira ? - Daniel insistia em contrariar o irmão.
- Você está vendo muita tv, Dan. Ele não me pareceu mentiroso, muito pelo contrário.
- Chega! - Disse Daniel se levantando e indo em direção ao seu quarto.
Daniel se afastou enquanto Anna e Nicholas olhavam um para o outro.
*****
A semana parecia não passar e Daniel continuava tracado no seu quarto, por diversas vezes Nicholas bateu á sua porta e ele veio atender com uma aparência horrível.
Nick também já tinha ligado no trabalho do irmão para avisar que ele estava muito doente e que precisaria faltar, dessa vez era Nicholas quem estava preocupado. Estava acostumado com seu irmão ser tão quieto, mas dessa vez era diferente. Ele via no olhar de Daniel que alguma coisa estava errada e estava quase se arrependendo de ter contado tudo ao irmão.
Já era quarta-feira e Daniel continuava no quarto, Nicholas então resolveu conversar com o irmão. Subiu a pequena escada que dava para o quarto de Daniel no sotão e bateu na porta, não havendo resposta, resolveu entrar.
O quarto era todo de madeira, como o resto da casa, o chão opaco e as paredes envelhecidas davam uma atmosfera fantasmagórica ao lugar. Na janela a chuva anunciava a chegada da noite.
- Daniel ? - Chamou enquanto entrava.
- Diga. - Dan respondeu.
- Vim conversar com você. Sabe, não queria forçá-lo a nada. Acho melhor você esquecer essa história. Estou preocupado com você. - Fez uma pausa. - Não queria tê-lo asustado tanto.
Nicholas sentindo que falava praticamente sozinho, virou-se para porta e quando estava quase se aproximando ouviu Daniel falar:
- Desde quando se importa comigo ?
Voltou para o interior do quarto e sentou-se na cama, aonde Daniel parecia jazer. Ele estava deitado com as mãos em cima do peito e olhava para o teto.
- Eu sei, meu irmão. Eu queria não tê-lo magoado tanto. Sei que agi de forma errada todo esses anos mas agora posso mudar. - Explicou Nicholas.
- Agiu de forma errada ? - Daniel sentou-se na cama. - Eu que passei esses anos pensando no que fazer, eu que me preocupei em pagar as contas e cuidar da comida. Até da limpeza dessa funesta casa eu cuidei enquanto você saía com suas namoradas e bebia até perder os sentidos! E o que ganhei ? Nada! Só vi você se afastar mais ainda!
- Desculpe-me Daniel. - Nicholas falou logo levantando e saindo do quarto.
Daniel levantou e foi até a janela, fitando a rua deserta.
*****
Já era sábado e Daniel continuava trancado em seu quarto, ao som de Burning from the Inside do Bauhaus, ele bebia uma garrafa de vinho barato. As luzes estava apagadas e somente a luz da rua entrava pela janela de vidro e iluminava o lugar aonde ele estava. Ele, sentado no chão do quarto, encostado na cama com a cabeça pendendo para trás,
lembrava dos seus pais e a nostalgia tomava conta dos seus pensamentos, lembrava do irmão e da sua depressão assim que os pais morreram, lembrava do quanto ele mesmo havia sofrido com a morte dos pais e a tristeza do irmão. Sentiu remorso e pensou no quanto foi rude com o irmão quando ele tentou reanimá-lo naquela manhã.
Deu um gole na garrafa de vinho e enquanto tocava Who killed Mr. Moonlight, fechou os olhos e começou a chorar. Lembrou do seu emprego e das horas trancadas dentro da lanchonete, ouvindo desaforos do seu patrão. Pensou no caminho que fazia do trabalho para casa e das pessoas que cruzavam seu caminho, a aparência estranha delas até que chegou á sua própria aparência.
Fitou a estante de livros que estava á sua frente e bebeu novamente dizendo para si mesmo:
- Essas pessoas me odeiam! O quanto já li ? O quanto aprendi ? E de nada me serviram tantas informações! Mundo hipócrita! Sou julgado por minha aparência e de nada me adiataram os estudos! O que consegui foi um empreguinho qualquer!
Levantou do chão e aumentou o volume do rádio. Parou em frente á janela e continuou bebendo até que resolveu se sentar novamente e sentiu o peso do seu corpo e todo o efeito daquela bebida.
- Vida imunda! De que me adianta viver ? Não a quero mais! Posso desistir agora que meu irmão está "salvo".
Falou a palavra "salvo" e soltou uma gargalhada embriagada continuando:
- Salvo! Nicholas está salvo! Grande Lúcifer espertalhão! Salvou meu irmão!
E ainda sorrindo voltou a posição inicial e fechou novamente os olhos lamentando sua própria existência, adormeceu.
*****
Numa casa noturna renomada, estava Anna e Nicholas. Estavam sentados á mesa quando uma moça se aproximou dizendo:
- Canalha!
Era Angela, uma ex-namorada de Nick, ela, como muitas outras, invejavam Anna. O modo como ela se comportava, o olhar profundo e encantador, a aparência de boneca.
- Perdão ? - Disse Nicholas a encarando.
- Você ouviu bem cara! Você não presta! - Gritava Angela, bêbada. Ela gritava e puxava Nicholas pelo braço, xingando e o agredindo. Até que Anna, que continuava com sua calma de sempre, levantou e começou a falar:
- Saia daqui Angela!
Angela congelou ao ouvir seu nome, ela mesmo duvidava que Nicholas lembrasse. Nicholas estava olhando Anna com atenção e surpresa, imaginou a namorada virando um anjo das trevas e acabando com a vida de Angela, temeu por isso.
Ele estava sentindo de perto o ódio de sua amada, sentia um fogo que corria em suas veias.
Anna parecia ter ser transformado numa criatura das trevas mas estava com a mesma aparência de sempre, os olhos dela pareciam ter ficado mais negros que nunca, embora continuassem dóceis e amáveis como sempre.
- O que ? - Perguntou Angela, assustada.
- Você ouviu. Saia de perto dele! - Respondeu Anna.
Angela se afastou aos poucos e Anna voltou a se sentar. Ela sentiu que o namorado estava assustado então resolveu acalmá-lo:
- O que houve ? Não era para ter feito o que fiz ? Perdoe-me querido.
- Não é isso Anna, eu senti sua raiva, senti o que você estava sentindo como se você fosse parte de mim.
- Quem sabe eu sou ? - Anna falou logo o beijando em seguida.
- É, quem sabe. - Disse Nicholas, sorrindo.
*****
No quarto Daniel havia acabado de acordar, ainda envolto em toda sua tristeza, resolveu sair para um breve passeio pelas ruas úmidas de Wilmont. Vestiu um casaco e saiu com toda sua embriaguês.
Caminhou até o centro, onde comprou outra garrafa de vinho e seguiu em direção ao cemitério da cidade. Não teve dificuldades para entrar já que o portão velho de ferro sempre ficava aberto. Entrou e caminhou pela estrada principal até que se sentou junto á lápide dos seus pais.
- Vocês partiram tão cedo, e porque ? - Falava como se eles pudessem ouvir. - Agora tenho alguém que me oferece a eternidade, mas de que ela adiantaria sem vocês ? De que adiantaria ter todo esse tempo ? Iria apenas prolongar minha dor.
- Ou poderia curá-la. - Disse uma voz que paralizou Daniel.
Daniel virou-se para trás e o que conseguiu ver foi somente a silhueta de uma mulher que se aproximava.
- Era o que me faltava! - Exclamou. - Cadê o seu mestre ? Onde está o grande Lúcifer, princípe da terra ?
- Não seja ridículo Daniel, você é mais inteligente que isso. Apenas bebeu demais e está falando besteira sobre o que, você - frizou - e todo mundo, não conhecem.
- Quer dizer que toda aquela história de paraíso e inferno são mentiras ? - Disse Daniel com deboche.
- Não cabe á mim lhe explicar isso. - Respondeu a mulher que já havia se aproximado e estava sentada em sua frente.
- E o que você pode me explicar ? - Daniel parecia mais calmo.
- Agora sim, começamos bem. - Respondeu a mulher. - Você está assustado pois pensa que o seu presente será igual ao do Nicholas, mas não, cada um tem o que mais deseja. E creio que no seu caso, esse desejo é a liberdade. A liberdade que você perdeu com a morte dos seus pais, a liberdade que você perdeu prendendo-se obstinadamente á sua tristeza e esquecendo de viver.
- Quem é você ? Lúcifer ? - Perguntou Daniel, tentando mudar de assunto.
- Ora! Eu me pareço com Lúcifer ? Óbvio que não, você pode até não querer e negar, mas acredita em muita baboseira hein ? Um demônio como ele na forma de uma mulher ? Acho meio difícil, ele com aquela virilidade toda ? Eu sou uma outra criação dele, uma das mais antigas.
- Não vai falar seu nome ?
- Isso não importa, aliás, vejo que muita coisa que costuma ter importância, não tem, aqui nessa cidade. - Respondeu a mulher.
- Então aonde ele está ? - Perguntou Daniel.
- Do seu lado, só que você não o pode ver.
- Porque ele não aparece ?
- Porque ele precisa de algo que sirva como um portal, uma conexão entre vocês. - Falou a mulher, de cabeça baixa.
- O comprimido ?
- Sim. Pode ser. Mas bêbado do jeito que você está, creio que seria capaz de ver até fadas e duendes. - Debochou. - Agora venha e sente-se ao meu lado, vamos olhar o céu negro de Wilmont.
Daniel se levantou de onde estava sentado e deitou-se junto dela, ficaram olhando para céu noturno até que ela disse:
- Feche os olhos, não vai doer. Nada melhor que uma noite no cemitério.
Ele fechou os olhos e adormeceu facilmente por causa da bebida. Pôde ver o irmão e sua nova namorada e mesmo estando de olhos fechados, podia ver o ambiente sombrio que o cercava. Viu um homem se aproximando com um olhar envergonhado e sentiu empatia, talvez pela primeira vez em sua vida.
- Daniel. - Falou o homem se aproximando. - Não queria que nosso encontro ocorresse dessa maneira. Estou lhe vendo sofrer e não gosto disso.
- Não me venha de papo espertinho. Diga o que tem que dizer. - Retrucou Daniel.
- Não dessa forma. Primeiro, fale o que lhe oprime.
- Tudo bem. - Disse Daniel. - Do que me adiantaria a eternidade ? Não é muito tempo para se passar sozinho ?
- Depende de como você enxerga a eternidade, depende de como você a entende. Sobre a eternidade, eu posso dizer. Fui afastado dos meus filhos por uma mentira e agora que tento me aproximar, vejo que essa mentira criou suas raízes.
- Eu não me interesso nas coisas que meu irmão se interessa. Se for me oferecer bebida, riqueza e poder, saiba que isso não me importa.
Lúcifer se aproximou dele e sentou-se ao seu lado dizendo:
- Oh não meu filho! Eu sei tudo sobre você, sei o quanto sofreu tendo que se importar com coisas que não se importava antes, tendo que fazer um esforço enorme para cuidar do seu irmão enquanto ele deveria tê-lo feito, mas nada disso precisa continuar, esse sentimento de força mesmo sabendo do fracasso, essa lamúria infinda.
- Tenho também que entregar esse comprimido á todos ?
- É necessário, expliquei ao seu irmão que foi a forma que encontrei de chegar até vocês. O que ofereço é o que deseja. Não vou arrancar sua alma e jogá-la no fogo, muito menos prendê-lo em alguma cela fedida á enxofre. Quero somente que você se sinta bem, você e todos os meus filhos. - Lúcifer se levantou e começou a andar em volta de Daniel. - Sabe Dan, eu já vi muitos de vocês trancados em seus quartos, chorando pelos mais diversos motivos, alguns se feriam, alguns se embriagavam, outros se mataram em minha frente e eu nada pude fazer. Chorei suas lágrimas e na hora de suas mortes me senti impossibilitado. Não podia deixar que mais de vocês morressem sem saber do meu sentimento, não os meus filhos. Então resolvi me aproximar.
- Nicholas me falou da sua conversa com ele. - Disse Daniel.
- Se você não quiser me acompanhar, tudo bem. Mas sinceramente, você e seu irmão seriam uma bela dupla. - Sorriu.
- Eu aceito. Está bem. - Afirmou Daniel.
- Vejo que me entendeu e eu o agradeço. Peço desculpa por qualquer infortúnio. - Desculpou-se Lúcifer.
- Não se preocupe. - Disse Daniel.
Lúcifer já estava andando em direção a saída do cemitério quando virou-se e disse:
- A propósito : Diga ao seu irmão que Anna não tem super poderes, ela é como qualquer outra mulher. Embora seja difícil de acreditar. - Sorriu e partiu.
*****
Daniel abriu os olhos e Nicholas e Anna estava parados o olhando. Ele ainda estava no cemitério e já era de manhã, como em qualquer manhã típica do inverno de Wilmont, o céu estava nublado e a neve começava a cair.
Daniel se levantou e sentiu a cabeça doer.
- Como me acharam ? - Perguntou.
- Muito difícil saber aonde você vai quando está triste. Vem, levante-se. - Disse Nicholas enquanto puxava o irmão pelo braço. - Vamos para casa.
Daniel olhou Anna e sorriu ao ver naquele lindo rosto, a preocupação dela. Nick ao notar isso falou:
- Não se preocupe Anna, ele é assim mesmo, nada que um banho não possa melhorar.
Ela sorriu e logo eles estavam á caminho de casa. Pararam apenas para comprar cigarros e logo chegaram.
Assim que entraram na casa Daniel contou o que havia ocorrido e seguiu o conselho do irmão indo tomar banho.
Anna e Nicholas sentaram na sala e Nick começou a conversar com ela:
- Anna, ontém vi que muitos homens se aproximavam de você mas você os afastava antes que eles chegasse perto. Mas certa hora, vi que uma moça se aproximou, o que ela disse ?
- Ela não disse nada, tão pouco se aproximou. Eu a atraí. - Respondeu Anna.
- E quem ela era ? - Perguntou Nicholas.
- Sua próxima "cliente" - sorriu - o nome dela é Rachel.
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