
"Posso roubar sua mente por algum tempo?
Posso parar por um tempo o seu coração?
Posso congelar a sua alma e seu tempo?
Flor escorpião
Símbolo da morte
Acenda os céus com seus olhos
E me mantenha afastado da sua luz
Se renda as suas lágrimas para seu ato mortal
Flor amaldiçoada pelo teu fruto
Pela sua última coragem
Pelo seu grande final
Flor esmagada no chão
No seu coração vazio
No peito que alimenta
Flor acabada na escuridão..."
(Moonspell)
Depois do meu encontro com Aklen, eu estava diferente. Uma grande apatia tinha tomando conta da minha vida. Eu não andava mais como antes pelas ruas de Wilmont, agora eu mal podia ver o que me cercava.
Eu não sabia as respostas para as questões impostas por ele, eu gostaria de me preocupar dessa vez, mas não conseguia.
Eu tinha passado uma semana normal, do trabalho pra casa e vice-versa. Confesso que achei até normal demais, "A vida perfeita para um suicida" - pensava ás vezes.
Eu nunca me preocupava com o que as outras pessoas pensassem de mim, mas dessa vez, temia que Aklen tivesse razão.
*******
Enfim, para todas as outras pessoas, tinha chegado sexta-feira. Eu não estava empolgada como todos ficam quando chega o fim-de-semana e não sabia como mudar isso.
Saí da livraria e me despedi do Sr. Allan com um falso sorriso que ele pareceu notar.
- Ora Malina, tente se animar. - Disse antes de fechar a porta.
Segui pelas ruas, estava frio como sempre. Confesso também que o frio sempre me alegra, por mais triste que eu esteja.
"Talvez se nevar as coisas mudem e eu me sinta mais alegre" - pensei antes de entrar no meu prédio.
Cheguei no meu apartamento e joguei a bolsa no sofá como o de costume. Engraçado como a rotina parece invencível.
Entrei para o banheiro e tomei banho, durante ele, me senti estranha em gostar da água quente ardendo em minha pele. Quando terminei, coloquei uma blusa larga e me deitei no sofá, peguei uma revista velha e li sem interesse.
Me senti cansada e adormeci ali mesmo.
******
Acordei com a claridade do céu cinza de Wilmont inundando minha sala. Me assustei quando vi minha pele pálida reluzindo em toda aquela luz. Levantei levemente a cabeça para olhar o relógio, eram oito horas da manhã.
Levantei e coloquei um cd no rádio velho, fui até a cozinha e comecei preparar meu café. Assim que ele ficou pronto acendi um cigarro.
"Não posso ficar assim o tempo todo, sei muito bem aonde isso vai parar." - Pensei quase que alto.
Nesse momento pensei novamente em Aklen, e se eu o chamasse? Será mesmo que ele apareceria? Neguei para mim mesma, sacudindo a cabeça.
Assim que acabei meu café resolvi arrumar uns livros que estavam fora do lugar. Me impressionei horas depois quando vi que tinha arrumado quase que a casa toda e que no rádio, a música estava mais alta.
Já ia tomar um outro banho quando o telefone tocou e eu corri para atender. Chegando na sala senti meu corpo tremer de ansiedade, era Aklen, eu tinha quase certeza.
Atendi o telefone com o coração quase pulando do meu peito.
- Malina? - Disse o Sr. Allan com a voz que me tirou o chão.
- Sim Sr. Allan, algum problema? - Falei desapontada.
- Não querida, não é bem um problema. - Ele disse e eu fiquei sem voz, ele continuou - estava pensando se você não poderia vim até aqui.
- Sem problemas Sr. Allan. - Eu disse e a apatia voltou a tomar conta de mim.
- Ótimo então, aqui lhe explico melhor o porquê. - Ele falou e desligou.
Eu mal podia acreditar que teria que trabalhar logo no momento em que me sentia melhor. De qualquer forma tinha que ir.
"Burra, ao invés de inventar uma boa desculpa" - falava para mim mesma.
Tomei meu banho, não tão demoradamente como pretendia, e me apressei para sair de casa.
No meio do caminho sentia uma mistura de tristeza e raiva, o frio era intenso e pensei que seria péssimo perder uma tarde tão linda.
Entrei na livraria e o Sr. Allan me recebeu com um sorriso que me deixou sem graça.
- Ah Malina, só você para me salvar! Estou precisando de alguém mesmo. - Disse.
- Estou aqui Sr. Allan, é só falar. - Eu falei tentando parecer animada.
- Não, não é aqui na livraria que preciso. Por aqui está tudo bem. - Ele falou e eu fiquei imaginando para aonde iria.
- Meu irmão está precisando de uma forcinha na loja dele. Acho que já comentei com você sobre ele, tem uma loja de cd ali perto da Rua Cinquenta e um. Hoje tem uma tarde de autógrafo e ele precisa de mais pessoas e como ele vai pagar por isso, pensei que você se interessaria.
- Gentileza de sua parte lembrar de mim Sr. Allan, vou sim. - Falei, não era tão mal o oferecido.
- Aqui está. - Ele disse me entregando um cartão com o nome do irmão e o endereço da loja.
- Tudo bem. - Eu falei e me despedi.
******
Cheguei na frente da loja e deveriam ter umas vinte e poucas pessoas, na maioria garotas, do lado de fora. Entrei e não foi difícil identificar o irmão do Sr. Allan, os dois se pareciam muito.
Ele veio até mim e nos apresentamos, o nome dele era Giles. Ele explicou o que eu deveria fazer e que se resumia em ficar ao lado dos artistas e atendê-los quando eles precisassem de algo.
"Nada mal mesmo" - pensei.
Fiquei por um tempo arrumando algumas mesas e cadeiras quando notei que o número de fãs do lado de fora tinha aumentado consideravelmente. Não pude de deixar de rir sozinha. Parei em frente á um cartaz e então li para ver de quem se tratava.
Era uma banda filandesa muito conhecida pelo seu estilo sombrio, quatro homens e uma mulher.
Depois de me informar melhor sobre eles, me sentei e ficamos esperando que eles aparecessem, o que me deixou entediada, pois eles não apareceram.
Giles veio até mim depois de um bom tempo de espera e disse que a tarde de autógrafos tinha sido cancelada. Imaginei que o empresário da banda tivesse ligado ou algo desse tipo.
- Aqui está seu dinheiro Malina. - Disse Giles.
- Oh não, por favor! - Exclamei, mas ele insistiu com um olhar doce, eu aceitei e me despedi.
Quando estava chegando perto da porta, parei para olhar um cartaz que estava pendurado na parede de vidro da loja, o cartaz anunciava o show da banda. Sem maiores esforços voltei até o Sr. Giles e devolvi o dinheiro, pedindo o ingresso.
******
A tarde passou da maneira mais agradável possível, fiquei sentada na pequena varanda no meu apartamento por horas, com o olhar perdido na paisagem cinza.
Quando a noite fria estava se aproximando, entrei e aumentei a música, indo me preparar para sair.
Demorei um pouco mais que o de costume e assim que acabei fui para rua.
Andei até o ponto de táxi mais próximo e chamei um dos motoristas que estava na calçada, disse o meu destino e assim que ele concordou, saímos.
Eu não sabia aonde era o lugar ao certo, sabia somente que era numa casa em uma colina um pouco distante da cidade.
No caminho o frio parecia aumentar, talvez pelo fato de estarmos cercados de florestas. Eu olhava pela janela e sentia uma grande ansiedade dentro de mim.
Demoramos talvez uns vinte minutos até chegarmos em frente a casa, paguei e desci do carro.
Comecei á andar pelo gramado e me senti mais segura quando vi que muitas pessoas chegavam junto comigo.
Subi a pequena escada que dava para a porta de entrada e antes de entrar, parei e olhei para trás. A noite escura dominava tudo e só um fraco raio da luz da lua iluminava os picos das árvores. Senti uma fisgada no peito quando vi que estava novamente rodeada pela escuridão.
Me virei e entrei. A entrada era uma sala grande com o chão de madeira bem lustrada e as paredes beges. Segui então até o segurança e ele me indicou aonde era a entrada para o salão aonde o show aconteceria.
Entrei por uma porta que ficava na lateral da sala e desci uma escada que me fez lembrar do Teatro dos Vampiros do filme Entrevista com o Vampiro. Haviam muitas pessoas no lugar e pude perceber que a o show ainda não tinha começado pois a música não era tão alta e as pessoas dançavam sem se preocupar com o pequeno palco no final do salão.
Desci a escada e fui até o bar que ficava no canto do salão, chamei o rapaz que estava atendendo e pedi uma dose de campari. Me distraí um pouco até que alguém me puxou pelo braço.
- Olá Malina. - Disse Giles.
- Oi Giles, como está? - Eu disse reparando em como ele parecia diferente. Ele era muito parecido com o irmão, mas mais novo. Branco, alto e cabelos castanhos claros. Tinha um sorriso tão doce quanto o do Sr. Allan.
- Bem melhor agora. - Falou e sorriu me fazendo sorrir sem graça. - Você também gosta dessas músicas sombrias pelo visto.
- Gosto sim. - Respondi.
- Que tal conhecer os rapazes da banda essa noite? - Perguntou.
- Seria legal, mas não sei se devo, não conheço bem a banda. - Respondi pensando em como agiria se algum deles perguntassem sobre algum cd.
- Sem problemas, vai conhecer hoje. - Ele falou e riu.
Ficamos ali conversando sobre música por um bom tempo até que o show começasse. Quando cada integrante da banda tomou seu lugar, as luzes se apagaram á espera do vocalista, que era o único que não estava no palco. Pude ouvir alguns gritos femininos e percebi que ele estava entrando.
No decorrer do show fiquei impressionada com a música de boa qualidade e a presença de palco dos integrantes. Os rapazes, quase todos, vestiam calças e jaquetas de couro. A única moça da banda, a tecladista, vestia uma saia de couro, botas e uma blusa de renda.
O show deve ter durado uma hora e meia mais ou menos, no final as meninas gritaram muito quando o vocalista fez seu último discurso.
- Chegou nossa hora Malina, vamos no camarim. - Disse Giles me puxando pelo braço.
Andamos até a porta que ficava ao lado do palco e entramos sem problemas. O camarim era iluminado por velas que deixavam o quarto num tom de vermelho-escuro. Giles pediu que eu esperasse um pouco antes e foi em direção ao guitarrista que estava parado junto á menina.
Sentei-me em uma cadeira que acompanhava uma mesa de madeira. Em cima da mesa havia uma vela e um cinzeiro, acendi meu cigarro e fiquei esperando Giles voltar.
O ambiente tinha um cheiro suave de essência de sândalo, o lugar era obscuramente agradável.
Eu olhava para Giles que conversava com muita intimidade com os outros rapazes, até que a moça se aproximou com o sorriso lindo.
- Oi, vem pra cá. - Ela disse esticando a mão. - Se aproxime de nós.
Eu sorri e levantei indo em sua direção. Estava um pouco insegura mas a bebida já estava me deixando mais descontraída.
Fiquei ao lado dela enquanto Giles conversava com três dos rapazes, no meio da conversa soube que o nome da moça era Louise, ela não falou muito, só ficava parada do meu lado sorrindo e bebendo.
Não havia reparado que o vocalista não estava conosco até que Louise, olhando para o sofá que ficava no final do camarim, disse:
- Reid, venha para cá. Está se sentindo bem?
Mas ele não respondeu, estava sentado com as pernas esticadas para frente. Usava óculos escuros e seu cabelo cobria quase todo seu rosto. Ele parecia estar olhando para nós, mas como eu não sabia se realmente estava, continuei prestando atenção no que os outros rapazes falavam.
Depois de um tempo, Louise voltou a chamá-lo mas ele não respondeu novamente. Quando olhei dessa vez, ele parecia me encarar. Fiquei sem jeito e desviei o olhar, mas a situação me incomodava.
Olhei de novo em sua direção e ele sorriu. Não o sorriso normal, um sorriso hipnótico. Devo ter ficado olhando para ele por algum tempo, mesmo sem sentir.
Ele então fez sinal para que eu me aproximasse e assim o fiz, andei como senão tivesse que fazer nenhum esforço, senti como se tivesse sendo guiada por alguém.
Ele se ergueu um pouco e se sentou de maneira mais formal, passou a mão no sofá indicando aonde eu deveria sentar. Sentei, estava séria.
Ele então se aproximou mais de mim e passou a mão por debaixo dos meus cabelos, parando em minha nuca. Chegou seu rosto mais próximo do meu e sorriu, olhou para os outros integrantes e depois voltou a olhar para mim, encostando sua boca em meu rosto.
- Fique mais a vontade. - Ele disse.
Eu não poderia ficar mais a vontade com ele tão próximo, olhei então para onde Giles e os outros rapazes estavam e vi que eles tinham saído junto com Louise.
- Agora você consegue ficar mais a vontade? - Ele perguntou e sorriu sarcasticamente.
- Sim. - Respondi e a voz quase não saiu.
Ele tirou o óculos então e com um movimento rápido, afundou sua cabeça em meu pescoço. Ele me beijava e passava a mão em minhas pernas. Sua mão estava fria e quando ele tocou minha boca levei um pequeno susto, o excitando ainda mais.
Ele se levantou aos poucos, continuava me beijando. Puxou meus cabelos para trás enquanto desabotoava minha blusa.
Eu estava me deixando levar pela situação, ou pelo "poder" que parecia emanar de seus toques quando tive um segundo de lucidez e o empurrei, colocando minha mão em seu peito, o afastando.
Ele me olhou sorrindo e passou a mão em meus cabelos os jogando para trás, se sentou ao meu lado e disse:
- Não precisa ficar com medo.
- Não estou. - Falei.
Ele sorriu novamente e se atirou em mim, jogou todo seu peso em cima de mim e puxou meus cabelos com força. Encostou seus lábios em meu pescoço e disse:
- Mas acho que vai ficar.
Ele mordia levemente meu pescoço e descia até meu ombro, eu estava totalmente imóvel embaixo dele. Senti quando ele arrastou algo que arranhou minha pele, eu sentia minha pele quente em contraste com a sua, que estava completamente gelada.
Quando os arranhões ficaram mais intensos, abri meus olhos com medo e o que vi me fez gelar.
Aklen estava parado atrás de Reid, ele estava sério e vi que prestava atenção em todos os movimentos dele. Não tive tempo de nada antes que ele arrancasse Reid de cima de mim e o jogasse no outro canto da quarto.
Levantei assustada e quando olhei para baixo, vi que algumas gotas de sangue escorriam timidamente do meu pescoço, mas não tive tempo para me preocupar comigo mesma. Aklen estava batendo em Reid com tanta força que o barulho chegava a ser insuportável.
Corri até ele e tentei pará-lo, mas sua raiva era incontrolável.
Corri então até a porta do camarim e passei pelo meio da multidão, atordoada.
Subi as escadas correndo, não sabia de quem ao certo estava fugindo, só pensava em sair dali.
Cheguei até o lado de fora da casa e lá estavam Louise, Giles e os outros rapazes. Louise se virou quando percebeu que eu havia saído da casa, seus olhos pareciam brilhar, ela sorriu como se soubesse o que estava acontecendo. Eu então diminui meus passos e andei na direção contrária á ela.
Andei para a lateral da casa e me encostei na parede.
- Malina. - Disse Aklen. Ele estava em pé perto de uma árvore.
Eu o olhei e me senti envergonhada, não respondi.
- Você deveria saber o que lhe cerca, porque você não é capaz de ter cuidado? - Ele falou enquanto se aproximava de mim. - Não é possível que não entenda o que está acontecendo.
- Não me preocupo em entender Aklen. Não sei o que você faz aqui. - Respondi tentando parecer indiferente.
- Você gosta disso não é? Da morte de rondando o tempo todo.
- Não perco mais meu tempo tentando lhe explicar nada depois do que você fez comigo.
- Você acha que eu não vi? Seus olhos ardiam naquela luz vermelha enquanto Reid começava a lhe machucar. O que houve com você? - Ele se aproximou ainda mais.
- O que houve com você. - Frizei a última palavra.
- Vamos embora, eu vou com você para onde você quiser. - Ele falou.
- Eu não fiquei com você da primeira vez Aklen, não vou ficar agora. - Falei e o vi se afastar.
As palavras morreram em seus lábios antes mesmo de sairem. Ele me encarou por alguns segundos e disse:
- Vou sempre estar ao seu lado.
- Faça o que quiser.
Olhei para ele por mais um tempo e um triste silêncio nos envolveu até que comecei a andar devagar.
- Você vai embora? - Ele perguntou.
- Sim e sozinha. - Respondi.
Estava me afastando quando parei e olhei para trás dizendo:
- Aliás, gostei de sentir a morte entre minhas coxas.
Fui até a frente da casa e pegando meu celular, liguei para o taxista. Logo estava de volta para casa, olhando pela janela, toda aquela conhecida escuridão.
Eu não sabia as respostas para as questões impostas por ele, eu gostaria de me preocupar dessa vez, mas não conseguia.
Eu tinha passado uma semana normal, do trabalho pra casa e vice-versa. Confesso que achei até normal demais, "A vida perfeita para um suicida" - pensava ás vezes.
Eu nunca me preocupava com o que as outras pessoas pensassem de mim, mas dessa vez, temia que Aklen tivesse razão.
*******
Enfim, para todas as outras pessoas, tinha chegado sexta-feira. Eu não estava empolgada como todos ficam quando chega o fim-de-semana e não sabia como mudar isso.
Saí da livraria e me despedi do Sr. Allan com um falso sorriso que ele pareceu notar.
- Ora Malina, tente se animar. - Disse antes de fechar a porta.
Segui pelas ruas, estava frio como sempre. Confesso também que o frio sempre me alegra, por mais triste que eu esteja.
"Talvez se nevar as coisas mudem e eu me sinta mais alegre" - pensei antes de entrar no meu prédio.
Cheguei no meu apartamento e joguei a bolsa no sofá como o de costume. Engraçado como a rotina parece invencível.
Entrei para o banheiro e tomei banho, durante ele, me senti estranha em gostar da água quente ardendo em minha pele. Quando terminei, coloquei uma blusa larga e me deitei no sofá, peguei uma revista velha e li sem interesse.
Me senti cansada e adormeci ali mesmo.
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Acordei com a claridade do céu cinza de Wilmont inundando minha sala. Me assustei quando vi minha pele pálida reluzindo em toda aquela luz. Levantei levemente a cabeça para olhar o relógio, eram oito horas da manhã.
Levantei e coloquei um cd no rádio velho, fui até a cozinha e comecei preparar meu café. Assim que ele ficou pronto acendi um cigarro.
"Não posso ficar assim o tempo todo, sei muito bem aonde isso vai parar." - Pensei quase que alto.
Nesse momento pensei novamente em Aklen, e se eu o chamasse? Será mesmo que ele apareceria? Neguei para mim mesma, sacudindo a cabeça.
Assim que acabei meu café resolvi arrumar uns livros que estavam fora do lugar. Me impressionei horas depois quando vi que tinha arrumado quase que a casa toda e que no rádio, a música estava mais alta.
Já ia tomar um outro banho quando o telefone tocou e eu corri para atender. Chegando na sala senti meu corpo tremer de ansiedade, era Aklen, eu tinha quase certeza.
Atendi o telefone com o coração quase pulando do meu peito.
- Malina? - Disse o Sr. Allan com a voz que me tirou o chão.
- Sim Sr. Allan, algum problema? - Falei desapontada.
- Não querida, não é bem um problema. - Ele disse e eu fiquei sem voz, ele continuou - estava pensando se você não poderia vim até aqui.
- Sem problemas Sr. Allan. - Eu disse e a apatia voltou a tomar conta de mim.
- Ótimo então, aqui lhe explico melhor o porquê. - Ele falou e desligou.
Eu mal podia acreditar que teria que trabalhar logo no momento em que me sentia melhor. De qualquer forma tinha que ir.
"Burra, ao invés de inventar uma boa desculpa" - falava para mim mesma.
Tomei meu banho, não tão demoradamente como pretendia, e me apressei para sair de casa.
No meio do caminho sentia uma mistura de tristeza e raiva, o frio era intenso e pensei que seria péssimo perder uma tarde tão linda.
Entrei na livraria e o Sr. Allan me recebeu com um sorriso que me deixou sem graça.
- Ah Malina, só você para me salvar! Estou precisando de alguém mesmo. - Disse.
- Estou aqui Sr. Allan, é só falar. - Eu falei tentando parecer animada.
- Não, não é aqui na livraria que preciso. Por aqui está tudo bem. - Ele falou e eu fiquei imaginando para aonde iria.
- Meu irmão está precisando de uma forcinha na loja dele. Acho que já comentei com você sobre ele, tem uma loja de cd ali perto da Rua Cinquenta e um. Hoje tem uma tarde de autógrafo e ele precisa de mais pessoas e como ele vai pagar por isso, pensei que você se interessaria.
- Gentileza de sua parte lembrar de mim Sr. Allan, vou sim. - Falei, não era tão mal o oferecido.
- Aqui está. - Ele disse me entregando um cartão com o nome do irmão e o endereço da loja.
- Tudo bem. - Eu falei e me despedi.
******
Cheguei na frente da loja e deveriam ter umas vinte e poucas pessoas, na maioria garotas, do lado de fora. Entrei e não foi difícil identificar o irmão do Sr. Allan, os dois se pareciam muito.
Ele veio até mim e nos apresentamos, o nome dele era Giles. Ele explicou o que eu deveria fazer e que se resumia em ficar ao lado dos artistas e atendê-los quando eles precisassem de algo.
"Nada mal mesmo" - pensei.
Fiquei por um tempo arrumando algumas mesas e cadeiras quando notei que o número de fãs do lado de fora tinha aumentado consideravelmente. Não pude de deixar de rir sozinha. Parei em frente á um cartaz e então li para ver de quem se tratava.
Era uma banda filandesa muito conhecida pelo seu estilo sombrio, quatro homens e uma mulher.
Depois de me informar melhor sobre eles, me sentei e ficamos esperando que eles aparecessem, o que me deixou entediada, pois eles não apareceram.
Giles veio até mim depois de um bom tempo de espera e disse que a tarde de autógrafos tinha sido cancelada. Imaginei que o empresário da banda tivesse ligado ou algo desse tipo.
- Aqui está seu dinheiro Malina. - Disse Giles.
- Oh não, por favor! - Exclamei, mas ele insistiu com um olhar doce, eu aceitei e me despedi.
Quando estava chegando perto da porta, parei para olhar um cartaz que estava pendurado na parede de vidro da loja, o cartaz anunciava o show da banda. Sem maiores esforços voltei até o Sr. Giles e devolvi o dinheiro, pedindo o ingresso.
******
A tarde passou da maneira mais agradável possível, fiquei sentada na pequena varanda no meu apartamento por horas, com o olhar perdido na paisagem cinza.
Quando a noite fria estava se aproximando, entrei e aumentei a música, indo me preparar para sair.
Demorei um pouco mais que o de costume e assim que acabei fui para rua.
Andei até o ponto de táxi mais próximo e chamei um dos motoristas que estava na calçada, disse o meu destino e assim que ele concordou, saímos.
Eu não sabia aonde era o lugar ao certo, sabia somente que era numa casa em uma colina um pouco distante da cidade.
No caminho o frio parecia aumentar, talvez pelo fato de estarmos cercados de florestas. Eu olhava pela janela e sentia uma grande ansiedade dentro de mim.
Demoramos talvez uns vinte minutos até chegarmos em frente a casa, paguei e desci do carro.
Comecei á andar pelo gramado e me senti mais segura quando vi que muitas pessoas chegavam junto comigo.
Subi a pequena escada que dava para a porta de entrada e antes de entrar, parei e olhei para trás. A noite escura dominava tudo e só um fraco raio da luz da lua iluminava os picos das árvores. Senti uma fisgada no peito quando vi que estava novamente rodeada pela escuridão.
Me virei e entrei. A entrada era uma sala grande com o chão de madeira bem lustrada e as paredes beges. Segui então até o segurança e ele me indicou aonde era a entrada para o salão aonde o show aconteceria.
Entrei por uma porta que ficava na lateral da sala e desci uma escada que me fez lembrar do Teatro dos Vampiros do filme Entrevista com o Vampiro. Haviam muitas pessoas no lugar e pude perceber que a o show ainda não tinha começado pois a música não era tão alta e as pessoas dançavam sem se preocupar com o pequeno palco no final do salão.
Desci a escada e fui até o bar que ficava no canto do salão, chamei o rapaz que estava atendendo e pedi uma dose de campari. Me distraí um pouco até que alguém me puxou pelo braço.
- Olá Malina. - Disse Giles.
- Oi Giles, como está? - Eu disse reparando em como ele parecia diferente. Ele era muito parecido com o irmão, mas mais novo. Branco, alto e cabelos castanhos claros. Tinha um sorriso tão doce quanto o do Sr. Allan.
- Bem melhor agora. - Falou e sorriu me fazendo sorrir sem graça. - Você também gosta dessas músicas sombrias pelo visto.
- Gosto sim. - Respondi.
- Que tal conhecer os rapazes da banda essa noite? - Perguntou.
- Seria legal, mas não sei se devo, não conheço bem a banda. - Respondi pensando em como agiria se algum deles perguntassem sobre algum cd.
- Sem problemas, vai conhecer hoje. - Ele falou e riu.
Ficamos ali conversando sobre música por um bom tempo até que o show começasse. Quando cada integrante da banda tomou seu lugar, as luzes se apagaram á espera do vocalista, que era o único que não estava no palco. Pude ouvir alguns gritos femininos e percebi que ele estava entrando.
No decorrer do show fiquei impressionada com a música de boa qualidade e a presença de palco dos integrantes. Os rapazes, quase todos, vestiam calças e jaquetas de couro. A única moça da banda, a tecladista, vestia uma saia de couro, botas e uma blusa de renda.
O show deve ter durado uma hora e meia mais ou menos, no final as meninas gritaram muito quando o vocalista fez seu último discurso.
- Chegou nossa hora Malina, vamos no camarim. - Disse Giles me puxando pelo braço.
Andamos até a porta que ficava ao lado do palco e entramos sem problemas. O camarim era iluminado por velas que deixavam o quarto num tom de vermelho-escuro. Giles pediu que eu esperasse um pouco antes e foi em direção ao guitarrista que estava parado junto á menina.
Sentei-me em uma cadeira que acompanhava uma mesa de madeira. Em cima da mesa havia uma vela e um cinzeiro, acendi meu cigarro e fiquei esperando Giles voltar.
O ambiente tinha um cheiro suave de essência de sândalo, o lugar era obscuramente agradável.
Eu olhava para Giles que conversava com muita intimidade com os outros rapazes, até que a moça se aproximou com o sorriso lindo.
- Oi, vem pra cá. - Ela disse esticando a mão. - Se aproxime de nós.
Eu sorri e levantei indo em sua direção. Estava um pouco insegura mas a bebida já estava me deixando mais descontraída.
Fiquei ao lado dela enquanto Giles conversava com três dos rapazes, no meio da conversa soube que o nome da moça era Louise, ela não falou muito, só ficava parada do meu lado sorrindo e bebendo.
Não havia reparado que o vocalista não estava conosco até que Louise, olhando para o sofá que ficava no final do camarim, disse:
- Reid, venha para cá. Está se sentindo bem?
Mas ele não respondeu, estava sentado com as pernas esticadas para frente. Usava óculos escuros e seu cabelo cobria quase todo seu rosto. Ele parecia estar olhando para nós, mas como eu não sabia se realmente estava, continuei prestando atenção no que os outros rapazes falavam.
Depois de um tempo, Louise voltou a chamá-lo mas ele não respondeu novamente. Quando olhei dessa vez, ele parecia me encarar. Fiquei sem jeito e desviei o olhar, mas a situação me incomodava.
Olhei de novo em sua direção e ele sorriu. Não o sorriso normal, um sorriso hipnótico. Devo ter ficado olhando para ele por algum tempo, mesmo sem sentir.
Ele então fez sinal para que eu me aproximasse e assim o fiz, andei como senão tivesse que fazer nenhum esforço, senti como se tivesse sendo guiada por alguém.
Ele se ergueu um pouco e se sentou de maneira mais formal, passou a mão no sofá indicando aonde eu deveria sentar. Sentei, estava séria.
Ele então se aproximou mais de mim e passou a mão por debaixo dos meus cabelos, parando em minha nuca. Chegou seu rosto mais próximo do meu e sorriu, olhou para os outros integrantes e depois voltou a olhar para mim, encostando sua boca em meu rosto.
- Fique mais a vontade. - Ele disse.
Eu não poderia ficar mais a vontade com ele tão próximo, olhei então para onde Giles e os outros rapazes estavam e vi que eles tinham saído junto com Louise.
- Agora você consegue ficar mais a vontade? - Ele perguntou e sorriu sarcasticamente.
- Sim. - Respondi e a voz quase não saiu.
Ele tirou o óculos então e com um movimento rápido, afundou sua cabeça em meu pescoço. Ele me beijava e passava a mão em minhas pernas. Sua mão estava fria e quando ele tocou minha boca levei um pequeno susto, o excitando ainda mais.
Ele se levantou aos poucos, continuava me beijando. Puxou meus cabelos para trás enquanto desabotoava minha blusa.
Eu estava me deixando levar pela situação, ou pelo "poder" que parecia emanar de seus toques quando tive um segundo de lucidez e o empurrei, colocando minha mão em seu peito, o afastando.
Ele me olhou sorrindo e passou a mão em meus cabelos os jogando para trás, se sentou ao meu lado e disse:
- Não precisa ficar com medo.
- Não estou. - Falei.
Ele sorriu novamente e se atirou em mim, jogou todo seu peso em cima de mim e puxou meus cabelos com força. Encostou seus lábios em meu pescoço e disse:
- Mas acho que vai ficar.
Ele mordia levemente meu pescoço e descia até meu ombro, eu estava totalmente imóvel embaixo dele. Senti quando ele arrastou algo que arranhou minha pele, eu sentia minha pele quente em contraste com a sua, que estava completamente gelada.
Quando os arranhões ficaram mais intensos, abri meus olhos com medo e o que vi me fez gelar.
Aklen estava parado atrás de Reid, ele estava sério e vi que prestava atenção em todos os movimentos dele. Não tive tempo de nada antes que ele arrancasse Reid de cima de mim e o jogasse no outro canto da quarto.
Levantei assustada e quando olhei para baixo, vi que algumas gotas de sangue escorriam timidamente do meu pescoço, mas não tive tempo para me preocupar comigo mesma. Aklen estava batendo em Reid com tanta força que o barulho chegava a ser insuportável.
Corri até ele e tentei pará-lo, mas sua raiva era incontrolável.
Corri então até a porta do camarim e passei pelo meio da multidão, atordoada.
Subi as escadas correndo, não sabia de quem ao certo estava fugindo, só pensava em sair dali.
Cheguei até o lado de fora da casa e lá estavam Louise, Giles e os outros rapazes. Louise se virou quando percebeu que eu havia saído da casa, seus olhos pareciam brilhar, ela sorriu como se soubesse o que estava acontecendo. Eu então diminui meus passos e andei na direção contrária á ela.
Andei para a lateral da casa e me encostei na parede.
- Malina. - Disse Aklen. Ele estava em pé perto de uma árvore.
Eu o olhei e me senti envergonhada, não respondi.
- Você deveria saber o que lhe cerca, porque você não é capaz de ter cuidado? - Ele falou enquanto se aproximava de mim. - Não é possível que não entenda o que está acontecendo.
- Não me preocupo em entender Aklen. Não sei o que você faz aqui. - Respondi tentando parecer indiferente.
- Você gosta disso não é? Da morte de rondando o tempo todo.
- Não perco mais meu tempo tentando lhe explicar nada depois do que você fez comigo.
- Você acha que eu não vi? Seus olhos ardiam naquela luz vermelha enquanto Reid começava a lhe machucar. O que houve com você? - Ele se aproximou ainda mais.
- O que houve com você. - Frizei a última palavra.
- Vamos embora, eu vou com você para onde você quiser. - Ele falou.
- Eu não fiquei com você da primeira vez Aklen, não vou ficar agora. - Falei e o vi se afastar.
As palavras morreram em seus lábios antes mesmo de sairem. Ele me encarou por alguns segundos e disse:
- Vou sempre estar ao seu lado.
- Faça o que quiser.
Olhei para ele por mais um tempo e um triste silêncio nos envolveu até que comecei a andar devagar.
- Você vai embora? - Ele perguntou.
- Sim e sozinha. - Respondi.
Estava me afastando quando parei e olhei para trás dizendo:
- Aliás, gostei de sentir a morte entre minhas coxas.
Fui até a frente da casa e pegando meu celular, liguei para o taxista. Logo estava de volta para casa, olhando pela janela, toda aquela conhecida escuridão.
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