" Na chama do seu olhar, desafiando
Todos que dormem em silêncio
Numa cidade certa vez chamada Desejo
Sonhando com o amor enterrado."
(Moonspell)
Tentei, por diversas vezes, e se ele poderia sentir meus pensamentos, poderia também sentir meu repúdio.
Ás vezes lembrava dele com tristeza, ás vezes com raiva. Eu não sabia ao certo o que havia acontecido com ele, mas não gostava da idéia de que ele apareceria sempre que eu precisasse, o que significaria que ele estaria sempre ao meu redor, escondido no escuro - me vigiando.
******
Era sexta-feira e eu esperava uma encomenda na rodoviária. Uma amiga muito querida, estava mandando uns últimos objetos meus, pelo ônibus. Estava extremamente frio e a rodoviária estava vazia. Eu já não aguentava mais esperar e já tinha olhado diversas vezes no relógio, quando vi que o ônibus se aproximava.
Logo estava falando com o motorista sobre minha bagagem, era uma caixa grande com alguns objetos pessoais. Assim que confirmei meus dados, ele me entregou e eu parti pelas ruas desertas com a caixa que me deixava um pouco desajeitada.
A rodoviária ficava distante do meu prédio e eu já estava cansada por causa da caixa. Parei em uma pequena praça para descansar e coloquei-a no banco enquanto tomava fôlego.
O vento pareceu ficar mais forte quando notei a presença de alguém atrás de mim. Na hora gelei, pensei ser algum assaltante ou coisa do tipo. Não sabia se virava para tráz ou se corria, como demorei para decidir, a pessoa falou comigo.
- Não tenha medo Malina.
Virei instintivamente e vi que era um rapaz muito bonito. Ele tinha o cabelo cacheado extremamente preto e longo. Vestia uma calça preta, camisa social e calçava botas, tinha um visual gótico porém muito sóbrio. Assim que olhei em seus olhos negros, pude ver que conhecia aquela pálida face. Era um dos amigos de Reid, o que me fez estremecer.
- Olá. - Respondi e peguei novamente a caixa, comecei a caminhar apressada.
- Eu gostaria de falar com você. Você não pode me dar cinco minutos? - Ele perguntou, andando atrás de mim.
- Creio que não. Tenho coisas para fazer.
- Malina, por favor. - Ele falou e parou.
Virei-me para ele e colocando a caixa no chão, concordei ainda um pouco desconfiada.
- Eu sei que você não teve uma boa experiência quando nos conheceu, mas vim para lhe pedir desculpas. - Ele falou enquanto se aproximava, eu sentei no banco e o encarei.
- Certo. Você parece diferente do Reid. - Falei.
- Bom, o problema dele é que ele se acha um anjo das trevas, mas garanto que fora isso, ele é boa pessoa. - Sorriu.
- Você é o guitarrista não é?
- Sim, e aliás, me chamo Dirk.
- Creio que não preciso me apresentar. - Falei e sorri.
- Malina, posso lhe acompanhar? Carrego a caixa para você e aproveitamos para conversar. - Ele perguntou. - Não quero lhe atrapalhar.
- Tudo bem, estou mesmo cansada.
Eu me levantei e ele abaixou para pegar a caixa, fiquei surpresa quando vi a facilidade com a qual ele levantou a caixa.
- Pra você parece fácil. - Sorri enquanto ele a erguia com grande facilidade.
- Nem sempre. - Ele sorriu.
Começamos a caminhar e notei que apesar da caixa um tanto pesada, ele não tinha dificuldade nenhuma em carregá-la. Muito inteligente e bem-humorado, ele afastou qualquer receio que eu pudesse ter sentido.
- Esperei a semana toda para vim falar com você. - Ele disse, sempre com o sorriso encantador.
- Bem, aqui estamos. - Respondi sem tirar os olhos dele.
- Vi quando você saiu machucada e me precupei. Reid não tem limites.
- Estou bem, pode ficar tranquilo. Eu acho tudo tão - hesitei - estranho.
- Só tenho um conselho para você Malina, não tente entender. Talvez tenha dois conselhos - sorriu - não se aproxime quando você tiver qualquer pressentimento estranho.
- Como assim? - Perguntei.
- Alguns de nós, parecem amigáveis ou bem-intencionados, mas no fundo, não são. Somos algo que não podemos controlar.
- O que significa que devo sair correndo nesse exato momento?
- Oh não! - Soltou uma gargalhada. - Sem falsas modéstias, eu levei tempos para conseguir ser como sou, saiba que não ofereço perigo.
- Estou aliviada. - Falei sarcasticamente.
Ainda andamos mais dois quarteirões até chegarmos em frente ao meu prédio, queria convidá-lo a entrar mas fiquei com medo de ser mal interpretada.
- Imagina, podemos subir sim. - Ele falou e sorriu novamente. - Sem problemas.
Eu ia falar algo mas a voz não saiu, achei engraçado e ao mesmo tempo assustador. Fiz sinal para que ele entrasse e logo estávamos subindo as escadas.
Entrei despreocupada assim que abri a porta, quando vi que ele não tinha me acompanhado, olhei para trás. Ele estava parado na porta me encarando.
- O que foi? - Perguntei.
- Você sabe. - Ele falou.
- Não, não sei.
- Sabe sim. - Sorriu.
- Ah perdão! Desculpe-me, entre por favor. - Falei finalmente e ele entrou.
Ele colocou a caixa no chão e sentou-se no sofá, eu fui até a cozinha e peguei duas cervejas. Abri uma e estiquei a segunda para ele, mas ele negou educadamente.
Coloquei um cd para tocar e abri as cortinas da sala, abrindo também a porta que dava para a varanda.
- Venha, vamos sentar aqui. - Falei e ele me seguiu.
Sentamos na varanda e ficamos por um tempo em silêncio. As nuvens carregadas manchavam o céu negro de Wilmont.
- Você disse que eu não deveria tentar entender, mas não consigo deixar de pensar nisso. - Falei com o olhar perdido na paisagem.
- Não há mal nenhum em entender, mas nem todos são iguais. Portanto eu posso falar de nossas características mas não posso falar sobre todos. Cada um age de uma maneira diferente, alguns são reservados, outros extravagantes. Alguns são românticos, outros extremamente perversos.
- Entendo, nada muito diferente do que conheço. - Sorri. - Vocês parecem tão poderosos. Gostaria de poder entendê-los melhor.
- É esse o problema. Depois de muitas confusões, ficou decidido que não falaríamos sobre o que somos para ninguém.
- Confusões? - Perguntei.
- Sim. Geralmente quando contamos, se a pessoa tiver uma "mente pequena" ela se ludibria sobre a nossa situação. Na verdade a pessoa entende bem no começo, mas quando falamos dos nossos "dons", a pessoa se perde, vê a verdade e logo a distorce. - Ele explicou.
- Entendo.
Passamos ainda muito tempo conversando, ele se mostrou um ótimo conhecedor da música. Falou mil nomes de bandas e seus países de origem, nomes de integrantes e assim por diante. Se mostrou também um ótimo conselheiro, sábio e um amigo dedicado. Por diversas vezes pensei em quantas meninas não ficariam completamente apaixonadas se o vissem falando assim.
Eu me sentia completamente bem em sua presença e vi que ele também estava gostando de estar ali. Conversamos por muito tempo e quando olhei para o relógio, já passavam das duas da manhã.
- E você? Como tudo aconteceu com você? - Falei enquanto abria outra cerveja.
- Faz tanto tempo que nem me lembro.
- Impossível! - Protestei. - Conte-me.
- Tudo bem. - Ele falou com um sorriso e uma expressão de fracasso no rosto, me fazendo ter certeza de que ele tentou me enganar. - Começou assim que vim morar em Wilmont.
- Então você mora aqui há muito tempo? - Perguntei.
- Pode-se dizer que sim. - Ele respondeu. - Eu pouco me lembro do que fazia antes de vim, acho que a única característica que ficou foi o meu dom de guitarrista. - Ele falou e soltou uma gargalhada.
- Convencido! - Exclamei.
- Mas é verdade. No começo fiquei muito confuso, sabendo que teria tanto tempo pela frente. Fiquei vagando por essas ruas por anos, sem nada acontecer. Depois de ver que as coisas sempre aconteciam para os outros e nunca aconteciam comigo, resolvi dar um sentido á minha vida. Saí e viajei por mais oito anos, conheci o mundo, até que fui parar na Finlândia e lá conheci os integrantes da minha banda.
- Então a banda é sua? - Perguntei.
- Sim.
- Sabe, você falou que já viu muita coisa acontecer por aqui e eu fiquei pensando: eu também.
- Pois é, Wilmont é mesmo incrível. Até meio assustadora ás vezes. - Sorriu.
- Mas não quero desviar o assunto, fale mais sobre você. - Continuei. - Aonde você mora aqui?
- Em um lugar muito conhecido por todos, um lugar que frequentei durante anos e que adoro, principalmente por sua beleza.
- Aonde? Como é lá? - Perguntei.
- Não teria palavras para explicar, o que acha de irmos até lá? - Ele perguntou.
- Tudo bem então, vamos. - Falei e me levantei, vesti um sobretudo grosso e logo estávamos á caminho.
******
Confesso que pensei que ele me levaria á um cemitério ou coisa parecida, mas chegando em nosso destino me senti ridícula por ter pensado assim. Um rapaz como ele não viveria em um lugar tão simples.
A rua estava molhada e completamente deserta. O frio dominava a noite e o vento uivava balançando as árvores altas.
- Chegamos. - Ele falou, parando na escada da catedral.
- Incrível. - Eu estava deslumbrada com sua beleza.
- Vamos entrar.
- Mas... - Tentei falar.
- Não tem problema, sei por onde entrar só tente não fazer barulho.
Andamos em direção á lateral da catedral e ele abriu uma porta que ficava no final da parede de pedra. Notei, antes de entrarmos, que a chuva começava a cair discretamente.
A catedral estava totalmente escura. Entramos primeiro em uma sala e eu mal podia ver o cômodo, segurei em seu ombro para que ele me guiasse, quando o fiz, ele sorriu baixinho.
Achei incrível o jeito que ele andava naquela escuridão, eu não conseguia ver nem o chão que pisava, mas ele parecia não ter problemas nenhum em andar.
Assim que seguimos um pequeno corredor, saímos perto do altar da catedral. A luz fraca da rua penetrava pelos vitrais coloridos nos proporcionando uma visão maravilhosa. Só nesse momento entendi o por quê que ele não conseguiu explicar sobre a beleza do lugar aonde morava.
Fiquei parada olhando aquela imagem que mais parecia um quadro para mim, até que ele tocou meu braço e fez sinal para que eu o seguisse.
Fomos até o final do salão e subimos as escadas, não sabia para onde ele estava me levando, mas á cada degrau eu olhava para baixo e a ficava mais encantada com a beleza do lugar.
Subimos muito até que chegamos ao último lance de escadas, assim que acabamos, vi que estávamos em um tipo de torre.
Ele se adiantou em minha frente e abriu a única porta que havia. Eu o acompanhei e entramos no pequeno cômodo. Era um pequeno quarto úmido, as paredes de pedras, o chão de piso envelhecido. Estava escuro até que ele acendeu um castiçal que estava na pequena mesa ao lado da cama.
- O que achou? - Ele perguntou.
- Sem palavras para descrever. - Eu sorri.
- Espere até ver uma coisa. - Ele falou e me virando para o lado direito do quarto, abriu uma pequena janela.
Do lado de fora a chuva caía intensa e tristemente. As árvores dançavam junto á melodia do vento, a escuridão da noite avançava sobre as pequenas casas de Wilmont. A beleza era tão grande que uma lágrima escorreu em meus olhos.
- É lindo. - Falei quase sem voz.
- Eu sei. - Ele respondeu da mesma forma.
Após alguns minutos parada ali, voltei-me ao interior do quarto e sentei em sua cama passando a mão em sua colcha de veludo vinho.
- Conte-me mais sobre você. Não sei o por quê, mas sinto que todas as pessoas em Wilmont são solitárias, parece que gostam de viver assim, isoladas.
Ele sorriu discretamente e disse:
- Olhe para você.
A voz me faltou, não consegui argumentar.
- Esqueça, não se preocupe com isso. Um dia você vai entender tudo. - Ele falou.
- Um dia? Que dia? - Falei quase melancolicamente.
- O dia que você entender a essência dessa cidade.
Houve um longo silêncio até que eu conseguisse me recuperar de toda minha tristeza. Meus pensamentos se tornaram tristes e eu tive vontade de chorar.
- Estou cansada de ver muita coisa acontecer e de nada entender. Quero que as coisas fiquem mais claras para mim.
- Não posso responder por tudo o que você viu aqui em Wilmont, mas não costumo julgar as pessoas, se você quiser saber mais sobre mim, eu a ajudarei. Só espero que esteja preparada.
- Estou.
Ele se aproximou de mim, eu ainda estava sentada na cama. Ele apenas esticou a mão em direção ao meu rosto, como se quisesse me hipnotizar. Sem sentir fechei os olhos e as imagens surgiram em minha frente, nelas, ele aparecia e sem mover os lábios, falava para mim:
"Eu posso roubar sua mente por algum tempo,
Eu posso parar por um tempo o seu coração,
Eu posso congelar a sua alma.
Símbolo da morte.
Acendo os céus com os meus olhos."¹
As lágrimas escorriam dos meus olhos, mas eu não conseguia abrí-los.
"Se renda as suas lágrimas para seu ato mortal
Flor amaldiçoada pelo teu fruto
Pela sua última coragem
Pelo seu grande final
Flor esmagada no chão
No seu coração vazio
No peito que alimenta
Flor acabada na escuridão..."²
Eu não queria mais estar ali, sabia agora que talvez eu não estivesse preparada. Senti uma grande tristeza correndo em minhas veias e quis amaldiçoar o dia em que nasci. Vi que tudo acabaria logo, as imagens foram sumindo até que ele disse as últimas palavras.
"Acendo os céus com os meus olhos,
Mas me mantenha afastado da sua luz."³
Abri os olhos e senti que as lágrimas haviam molhado todo meu rosto, inclinei minha cabeça em direção aos joelhos e enxuguei as lágrimas.
Ele me olhava com um olhar piedoso do outro canto da sala. Não sabia o que dizer, o que ele fez foi grandioso demais e eu sabia que nada explicaria o que estava sentindo.
- Posso lhe levar para casa se quiser. - Ele falou timidamente e sua voz soava como música aos meus ouvidos.
- Não é preciso. - Falei e parti.
Desci as escadas muito mais rápido do que esperava, segui todo o caminho e quase me perdi dentro da catedral, mas por fim, estava na rua.
Cheguei ao lado de fora e senti a chuva caindo em meu casaco e molhando meu cabelo. Andei com o vento cortando minha face até que parei nos degraus da entrada e olhei para cima, Dirk estava parado em frente ao enorme crucifixo da torre principal. Agora ele vestia um sobretudo longo que balançava junto ao vento, seus cabelos dançavam na tempestade enquanto ele permanecia imóvel.
Olhei-o ainda por muito tempo, até que virei-me e fui embora.
Em minha cabeça as palavras de Aklen começavam a fazer sentido. Ele tinha razão, eu amava a escuridão.
¹,²,³ - Trechos retirados da música "Escorpion Flower" - Moonspell.
Esse conto foi inspirado nessa mesma música.
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