sábado, 13 de junho de 2009

O Lago de Lilith



"Um jovem anjo aparece em frente do templo
A saliva dela gruda sob suas asas
Sangue fresco pinga de suas sombrancelhas
Ele abre suas mãos e pede mais
Eu fecho meus olhos e lambo sua torrente de lágrimas
Corpos preguiçosos jazem nos degraus
Vítimas do amor chamuscados pelo sol..."


"Eu estava deitada em minha cama, como em muitas manhãs, mas algo estava diferente. Do lado de fora o vento gelado varria as ruas desertas de Wilmont e tocava lugubremente a janela do meu quarto.

Meus olhos cansados fitavam sem interesse o teto do cômodo, uma tímida lágrima escorria enquanto meu pensamento me levava pra longe.
Mais um outono em Wilmont."

******
Calcei minha meia-calça e minha bota, vesti minha saia de couro que raramente eu usava, passei uma maquiagem pesada e quando acabei espiei a tarde triste pela janela. A casa estava vazia como sempre e quase era possível tocar a solidão.
Tudo parecia assustadoramente normal, a música baixa, o frio do lado de fora, o cigarro pela metade no cinzeiro e até a mesma bebida no copo.
Eu estava há um bom tempo afastada das ruas de Wilmont, há um bom tempo os mistérios da cidade não me cercavam mais, mas embora tudo parecesse normal e quase inerte eu sabia que algo me esperava, algo novo talvez.

"- É hora de voltar." - Pensei comigo mesma enquanto levantava da poltrona e saía de casa.

Assim que cheguei do lado de fora pude sentir o vento frio em minhas pernas, acendi um cigarro e a nostalgia me tomou por inteira.

Era quinta-feira e o final do outono já apresentava as características do inverno. Andei como sempre pelas ruas quase desertas e a cada trago o vento parecia me guiar para um só lugar: a Estação de Trem. Apesar de conhecer tão bem aquelas ruas, algo novo parecia vagar pela cidade e eu não podia nem prever o que era.
Andei durante um bom tempo, na minha pequena mochila a garrafa de coquetel de mel estava quase cheia.
Quando já estava bem próxima ao meu destino, peguei-a e sorvei um gole da bebida que me esquentou docemente por alguns instantes.
O céu enegrecia a cada minuto e a tarde cinza e gelada se transformava vagarosamente numa linda noite fria.

Cheguei á estação por volta das seis e meia. Tirei novamente a garrafa da mochila e bebendo caminhei até o final da estação. O lugar era imenso e estava vazio, somente alguns funcionários vagavam distraídos.
Assim que cheguei no último banco sentei-me, acendi um cigarro e deixei que meu olhar se perdesse na paisagem verde do outro lado. Me distraí por longos minutos, eu acho, pois quando olhei para o lado notei que havia um grupo de pessoas no extremo oposto da estação. Sem muito interesse, voltei meu olhar para o mesmo lugar de outrora.

******

" - Esse lugar é tão solitário quanto você... Garota esquisita." - Eu dizia para mim mesma enquanto a noite finalmente tomava seu lugar.
As pessoas que havia visto ainda estavam na estação, era um grupo de sete á oito pessoas, em sua maioria, mulheres. Me distraí olhando-as quando percebi que um dos rapazes se aproximava com um andar sombrio. De longe não podia ver quem era, mas sabia que conhecia aquele jeito de algum lugar. Quando a distância diminuiu significativamente, pude ver seu rosto. Era Louis.
Louis era um velho amigo, de boas e más horas que há tempos eu não via. Negro, alto, com um sorriso reconfortante e uma risada engraçada. Era soturno por natureza e eu não o imagina sem ser trajando luto. Em poucos segundos viajei até uma outra época, onde bebíamos e conseguíamos nos divertir com tão pouco e em poucos segundos voltei ao presente e deparei com a surpresa naqueles olhos tristes.

- Não posso acreditar! - Ele exclamou. - Você!

- Meu amigo. - Retruquei enquanto me levantava para cumprimentá-lo.

- Caramba - ele parecia realmente surprêso - você está sumida, quanto tempo não nos vemos?

- Anos amigo, anos.

- E como você está?

- Nesse frio? Estou muito bem. Vai um gole? - Perguntei esticando a garrafa em sua direção.

- Claro. - Ele disse olhando para a garrafa. - Velhos costumes nunca morrem, hein? A mesma bebida de anos atrás.

Eu apenas sorri.

- Vejo que você está acompanhado essa noite, muito bem acompanhado. - Falei enquanto ele bebia.

- Alguns amigos, queridos amigos. Vamos até lá?

- Não sei se devo, não quero tirar a harmonia do grupo. - Falei sorrindo.

- Imagina, será um prazer.

Caminhamos então até onde seus amigos estavam. Enquanto nos aproximávamos contei, eram quatro meninas e três rapazes, contando com Louis. O grupo se divertia livremente, pareciam unidos. Estavam levemente ébrios pelo que pude notar e conversavam discretamente.
Fiquei receosa, não estava acostumada a sair com muitas pessoas. Dei um gole e finalmente nos aproximamos de um dos rapazes, que estava um pouco isolado.

- Adrian, essa é a Malina, a encontrei perdida aqui. - Disse Louis.

- Prazer. - Falei esticando a mão.

- Como vai? - Disse o rapaz.

Embora eu ainda temesse que minha presença não fosse bem-vinda, depois de uns minutos já estava mais á vontade. E embora a conversa tivesse tomado um tom mais alto, eu mal conseguia me concentrar no que eles diziam. Estava distraída quando Louis dirigiu-se a mim:

- Malina, você quer nos acompanhar?

- Desculpe, - falei balançando a cabeça - pra onde mesmo?

- Para o Lago. - Disse Adrian.

- Que lago? Aonde fica? - Perguntei.

- O Lago de Lilith. - Explicou Louis. - Fica há uns quilometros daqui, vamos seguir pelos trilhos do trem e depois pegamos uma pequena trilha.

- Nunca ouviu falar desse lago? - Perguntou Adrian.

- Não e olha que eu moro aqui há bastante tempo.

- É divino... - hesitou com um sorriso sarcástico no rosto -...vocês entenderam.

Ainda conversamos durante muito tempo, até que as risadas tomaram um tom de embriaguês e a madrugada caiu como um véu, morbidamente gelado, sobre nós.

- É hora de partir. - Disse Adrian.

******

Eu não fazia idéia de que horas eram, tampouco me preocupei em saber. Estávamos andando nos trilhos e a madrugada parecia nos embalar gentilmente. Andamos bastante até que chegamos na trilha, senti certa insegurança quando vi que teríamos que atravessar a floresta praticamente intocada.
As meninas animadas, pareciam conhecer muito bem aquele caminho. Os rapazes estavam tranquilos. Entramos na trilha um por um até que Louis se aproximou novamente.

- Agora estamos quase lá.

- Deve ser um lugar lindo. - Eu disse distraída.

- E é, já viemos algumas vezes.

- Mas aonde vamos ficar? Quer dizer, vocês estão com essas mochilas que suponho serem barracas, mas e eu? - Falei sorrindo.

- Não tem problema, você pode ficar na minha que fico em outra qualquer.

- Ah sim, já estava achando que ia ficar no sereno. - Brinquei.

- Imagina amiga, nunca.

Continuamos a caminhar pela trilha escorregadia e úmida. A noite nos cercava e a escuridão vagava entre as árvores altas.
Andamos bastante e eu já sentia meu corpo aquecido quando finalmente encontramos uma clareira. Eu não pude identificar o que nos cercava pois estava extremamente escuro então só montamos as barracas enquanto bebíamos e ríamos da situação.
Acabamos de montar e fomos dormir. Me senti insegura novamente, mas logo adormeci.
******

Não dormi por muito tempo e logo acordei com um barulho vindo de fora da barraca. "Alguém deve ter perdido o sono" - pensei enquanto despertava.
O barulho ficou ainda mais evidente então resolvi sair para ver quem era e para aproveitar e tomar um gole de bebida já que o frio era quase insuportável. Calcei minha bota e abri a barraca, mas logo que saí vi que não havia ninguém. O barulho tinha cessado.
Fiquei curiosa no primeiro instante, mas não dei muita importância.
"Seja lá quem foi deve ter desistido de ficar aqui." - Pensei e pegando uma garrafa entre as coisas que ficaram do lado de fora, resolvi que faria o mesmo.

Quando virei para entrar novamente na barraca vi algo que me chamou atenção, um vulto parecia ir de volta em direção á floresta. Pensei em gritar, mas desisti pois acabaria acordando as outras pessoas, segui então em direção á ele.

A aurora anunciava sua chegada deixando o lugar com um tom mágico de azul. Entrei na floresta e logo pude ver o vulto que agora se movimentava rapidamente, aumentei meus passos tentando não perdê-lo de vista. Quanto mais eu andava mais ele corria e a distância entre nós só parecia aumentar, foi quando de repente ele parou me fazendo parar institivamente, só aí vi que era um homem e que estava completamente despido.

Me senti envergonhada, mas ao mesmo tempo atraída pelo estranho acontecimento, na hora pensei que podia ser algum dos rapazes, afinal eu não sabia o porquê deles estarem ali, mas logo vi que a silhueta não correspondia a nenhum deles.

Fosse quem fosse estava ali parado, há alguns metros de mim, totalmente despido enquanto fazia um frio terrível. Minha cabeça estava confusa pois queria chamá-lo, mas o que consegui foi só ficar em pé, parada, com o olhar completamente fixado naquele ser de atitude tão estranha.
Depois de um tempo sem conseguir tirar os olhos dele, sua imagem parecia se aproximar lentamente mesmo sem ele se mover nenhum milímetro de onde estava. Só então pude finalmente admirá-lo, pois era alguém digno de admiração.
Seu corpo era perfeito. Na verdade ele parecia ter sido desenhado naquela paisagem escura. Os olhos de verde intenso pareciam flamejar, a boca bem desenhada, o queixo bem definido. Os cabelos como seda parados sob a brisa gelada, a pele lisa, sem imperfeições. Os músculos bem definidos.
Sua imagem se aproximou ao máximo e então como num sonho eu estiquei a mão para tocá-lo e senti sua pele macia quase surreal. Embora eu o tivesse tocado, ele permaneceu imóvel e assim continuou enquanto eu o reparava com destreza. Seus olhos agora mais vivos prendiam toda minha atenção.

"Um anjo" - pensei e ele sorriu.

Nesse momento me assustei e dei alguns passos para trás. Ele continuou a se mover, lenta e graciosamente até que tocou meu braço e subindo a mão, tocou meu pescoço. Aproximou então seu rosto do meu e gentilmente, tocou meus lábios com os seus.
Longos minutos pareceram se passar, senti que ele me guiava pela floresta, de olhos fechados pude senti seus movimentos. E mesmo de olhos fechados eu parecia poder enxergar a minha volta, vi quando nos aproximamos das barracas, parecendo sobrevoar sobre elas e quando finalmente chegamos na beira do lago.
O lago era maravilhoso, sua água verde cristalina. No outro extremo dele, jaziam montanhas frias e solitárias.
Tudo parecia um sonho quando ele finalmente me deitou na margem, seu corpo tinha uma temperatura agradável e nessa hora pesava sobre mim. Longas horas se passaram até que adormeci em seus braços.

******

Acordei com Louis em pé ao meu lado.

- Caramba, você dormiu aí? - Falou dando um gole no vinho.

Eu sorri sem graça.

- Acho que sim. - Respondi.

- Não sei como aguentou, fez muito frio essa madrugada.

- Essa bebida esquenta mesmo né? - Brinquei.

- E então, o que achou do lago? - Ele perguntou virando para frente para contemplar a paisagem perfeita á nossa frente e só então eu pareci voltar á realidade.

- Maravilhoso, perfeito.

Nesse momento ele tomou uma postura mais rude e sem me encarar, deu um trago e disse:

- O que houve?

- Quando? - Perguntei confusa.

- O que houve para você sumir daquele jeito? Aconteceu alguma coisa?

- Para ser sincero amigo, prefiro não tocar nesse assunto.

- Porque você veio para cá? Há essa altura já deve saber que não é tão bom estar aqui.

- Essa cidade me conforta amigo. - Falei deixando que meu olhar descansasse nas águas frias do lago.

- Imagino que já tenha acostumado, mas isso nunca é bom. As pessoas, os lugares, é tudo muito perigoso.

- Eu gosto daqui. - Limitei-me a dizer.

- Já encontrou as respostas que queria?

Sem responder acendi um cigarro e ele voltou a olhar para mim, percebendo que o assunto havia acabado.

- Esse fim de semana vai ser ótimo.

- Não pretendo ficar meu caro. Parto daqui a pouco.

- Mas... - Ele não continuou.

- Tenho que ir. Mesmo.

Ele não falou mais nada, então levantei-me lentamente e só aí vi o quanto estava exausta.

"Deus, como estou..." - pensei.

- Cansada. - Disse Adrian, se aproximando.

- Sim, cansada. - Falei sorrindo. - Está dando para perceber?

Ele acentiu.

- Incubus. - Disse.

- Perdão?

- O que você viu essa noite.

- Você está dizendo que... - Não terminei.

- Sim. E era o que aquelas meninas esperavam. - Ele falou sorrindo.

- Encontrar um Incubus? Você acredita mesmo nisso?

- Tudo não passou de um sonho? Triste demais, não acha?

- Não sei, eu não...

- Não precisa ficar chateada.

- Não estou. - Falei sabendo que não era verdade.

Ele então sorriu docemente e afastou toda e qualquer raiva que eu podia ter sentido. Peguei minhas coisas e me despedi do grupo sem muitos rodeios, em poucos minutos estava de volta aos trilhos do trem.

******

No caminho de volta lembrei de um passado distante e achei estranho o fato de ainda ter a sensação de algo novo á minha espera.
Andei enquanto alguém parecia me observar de longe.

"Respostas..." - Pensei. "Não aqui, não agora."

5 comentários:

Sarah Miller disse...

Putz ma, mandou bala, muit muito chique mesmo!!!!! continue assim!

Lucas Ribeiro disse...

Putz! Acompanho esse blog ha algum tempo e essa foi a única história que eu não pegue... O que é um Incubus ?

Malina disse...

Oi Lucas, obrigada por acompanhar viu?! Incubus é um demônio em forma masculina que "procura" mulheres enquanto dormem e tem relações sexuais com elas... É o feminino de Sucubus, Lilith é uma sucubus.

Um abraço meu caro,
obrigada novamente.

Sarah Miller disse...

vc quis dizer MASCULINO de sucubus!
Mas continua continua continuaaaa eu quero saber, quem estava observando? quem? quem? quem? falaeeeeeee!1 to curiosaaaa!

Malina disse...

É...masculino...hahahaha...errei, foi mal...

Continua o que?? Acabou a história...hahahaha =P