"Alguém afaste esses sonhos,
e me direcione para um outro dia.
Um duelo de personalidades,
estas estranhas, antigas, verdadeiras realidades.
E continuam a me chamar. Eles continuam a me chamar.
Continuam a me chamar, eles continuam a me chamar."
(Joy Division)
***
Eu estava sentada no banco do lado de fora da cafeteria que fica na esquina da minha casa. Era nove horas da manhã. Já estava com meu café nas mãos quando acendi meu primeiro cigarro do dia. A rua estava tranqüila, tirando eu, havia três ou quatro pessoas nela, que paradas, esperavam as lojas abrirem.
Senti como se estivesse tendo uma visão, um forte pensamento me fez reparar em como o sol parecia invadir todos os cantos daquela rua, assim logo imaginei a cidade inteira. Olhando-a daquele jeito era quase impossível imaginar Wilmont sob a neve densa que caía durante o inverno, ou até mesmo sob o orvalho triste das noites dali.
Dei um gole no café e por um instante o calor me incomodou, mas logo uma corrente fria percorreu por aquela rua, aliviando qualquer mau pensamento que eu pudesse ter tido.
Levantei e fui trabalhar.
***
O movimento estava fraco na livraria. Estava sentada distraída quando um homem entrou na loja. Negro, alto, olhar atento. Trajava branco o que me fez pensar que talvez fosse médico. Não parecia procurar nada específico já que andava descontraído, percorrendo com o olhar sem interesse cada estante em que passava.
- Posso lhe ajudar? – Perguntei, mas ele não respondeu. Continuou sua busca.
“Não quer ser incomodado.” – Pensei e cruzei meus braços no balcão, abaixando minha cabeça sobre eles.
Escutei seus passos enquanto se aproximava, levantei a cabeça e vi que tinha um sorriso estranho no rosto
- Dor de cabeça? – Ele perguntou.
- Sim, um pouco. – Respondi.
- É, está dando para ver. Se sente bem?
- Sim. Está tudo bem. Não achou o que procurava? – Perguntei.
- Na verdade sim, mas não vou levar agora. Fica para outra hora.
Fiz sinal com a cabeça e ele se afastou. Enquanto saía notei o quanto me parecia familiar.
A tarde finalmente chegou e quando eu acabei de me arrumar para ir embora o telefone tocou, do outro lado, meu patrão – Sr. Alan disse:
- Malina, trabalhe até fechar.
- Mas senhor eu...
- Até fechar! Não saia daí! – Desligou.
Eu estava faminta e ansiosa para ir para casa, mas vi que teria que ficar. Além disso, acabei ficando preocupada, o Sr. Alan era sempre muito calmo e durante nossa rápida conversa vi que seu tom de voz estava alterado. Imaginei ser algum problema pessoal e logo parei de pensar no assunto.
Voltei para o balcão e olhei o relógio. Era por volta de meio dia e meia.
***
A tarde chegou tranquilamente. A vontade de ir para casa logo passou e eu resolvi me distrair com umas revistas que estavam em cima do balcão.
Estava entretida com uns anúncios sobre feitiçaria quando sem querer olhei para o lado de fora da loja. Não havia ninguém nas ruas. Distraí-me novamente e quando voltei a olhar para rua vi que ainda estava deserta. Levantei assustada e fui conferir, cheguei próxima a porta e com certo receio a abri. Dei um passo para o lado de fora e o que senti congelou minhas veias. Realmente não havia ninguém, nem do outro lado da rua, nem dentro das lojas. Em lugar nenhum.
Novamente um vento frio percorreu por ali e eu, temendo que estivesse acontecendo algo, voltei correndo para dentro da loja e tranquei a porta.
Sentei novamente e peguei a última revista que estava lendo, mas não consegui me concentrar na leitura. A cada minuto olhava para o lado de fora na esperança que alguém aparecesse.
Abaixei a cabeça e só então senti que minha dor havia piorado. Tentava descansar, mas aquela situação me incomodava. Levantei novamente e fui até a porta, destranquei e saí.
Quando cheguei ao lado de fora senti certo alívio. Havia um rapaz parado do ouro lado da rua. Atravessei correndo e só quando me aproximei é que tentei disfarçar meu alívio ter encontrado alguém. Ele era moreno, estatura mediana, olhos tímidos.
- Oi. – Falei sem fôlego enquanto me aproximava, ele me olhou, mas logo virou o rosto pro outro lado.
Achei estranho, mas minha ansiedade era grande então continuei:
- Amigo... Tudo bem?
Ele lançou um furtivo olhar em mim.
- Sim. – Respondeu.
- Desculpa incomodá-lo...
- Malina, não posso falar com você agora. Afaste-se!
Eu levei um susto terrível, pois pela maneira com que falou, parecia um conhecido de anos. Virei-me na hora e segui em direção a loja. Parei na porta e olhei para trás, ainda o olhei por um bom tempo enquanto se afastava com passos apressados.
***
O Sr. Allan entrou pela porta, parecia tranqüilo.
- Oi Malininha, o que faz aí escondida atrás do balcão? – Perguntou sorrindo.
- Desculpa senhor, acho que peguei no sono. – Respondi sem graça, já que não achava, tinha certeza de que havia pegado no sono.
- Você já pode ir minha querida, há muito já passou do seu horário.
- Aconteceu alguma coisa senhor? – Perguntei enquanto me levantava.
- Como assim? – Ele retrucou.
- O senhor parecia alterado na hora em que me ligou.
- Não sei do que está falando Malina.
- Na hora em que...
- Não sei do que está falando! – Ele insistiu e eu acabei sem terminar. – Vá para casa.
- Mas o senhor sequer viu a hora em que Wilmont ficou deserta? O senhor sabe o que houve?
- Vá – para – casa! – Ordenou pausadamente.
Saí da loja imediatamente, não queria enchê-lo embora a minha curiosidade fosse grande.
“Eu só queria saber se ele tinha visto algo no noticiário, já que na livraria não tem televisão.” – Pensei no caminho de casa, que por sinal estava normal, com pessoas, lojas, cachorros vagando, tudo de mais “normal” em Wilmont, inclusive o frio que anunciava a chegada da noite escura.
Meu apartamento pareceu mais aconchegante do que realmente era, quando entrei. Acendi a luz e preparei uma dose de vodka antes de qualquer coisa. Bebi e só então reparei que minha dor havia passado. Acendi um cigarro e liguei o som, nele Ian Curtis cantava Ice Age numa versão gravada ao vivo. Cantarolei o refrão enquanto tragava e fui para o banheiro. Meu dia chegava ao fim.
No dia seguinte levantei e fui trabalhar, chegando à livraria o Sr. Allan parecia mais calmo e simpático do que nunca, na verdade não parecia ter sido ele quem falava comigo na noite anterior. Dei bom dia á ele o logo comecei a trabalhar. A manhã correu tranquilamente e nem cheguei perto de estar cansada quando deu a hora de ir embora.
- Até amanhã Malina, não vá se perder no caminho de casa. – Disse o Sr. Allan, me fazendo parar.
“Isso certamente foi um aviso.” – Pensei e concordei com a cabeça.
Segui meu caminho apressada, pensando em como tudo parecia estranho. Imaginava mil coisas quando passei ao lado de uma loja que parecia abandonada, o seu interior estava totalmente escuro. Uma estranha sensação me invadiu, tentei não olhar para dentro já que a loja era realmente grande e levaria tempo até chegar ao final da calçada. Abaixei minha cabeça e apressei meus passos.
Quando estava quase atingindo o final da loja, senti que alguém segurou meu braço me fazendo parar bruscamente e puxou-me para dentro daquela escuridão. Prendi minha respiração de medo e fiquei completamente imóvel enquanto sentia as duas mãos que me apertavam os braços, a respiração ofegante e a voz que sussurrou em meu ouvido:
“Pegue esse papel. – Disse uma voz masculina. – Siga ás instruções.”
Não deu para ver quem era, pois sequer podia ver a mim mesma naquele lugar. Do mesmo jeito que fui puxada, fui jogada para fora. Tão densa era a escuridão que ao ser expulsa meus olhos doeram com a luz do sol.
Fui para casa, apavorada.
***
Era quase uma hora da tarde quando cheguei ao meu apartamento. Sentei no sofá e cheguei a me esquecer de fechar a porta da sala. Eu tremia da cabeça aos pés. Tentava abrir o pedaço de papel que estava em minha mão, mas não conseguia. Levei tempo até tomar coragem.
“Rua 3, nº 38. Ás 22:15 – Estou ansioso para revê-la.”
Estremeci, comecei a rir nervosa.
“– Eu não vou – ria alto. – É simples, eu não vou.” – Disse para mim mesma depois de jogar o papel no chão. Mesmo sabendo que não era verdade o que falava.
Uma ânsia me invadiu e eu fiquei completamente desnorteada. Peguei novamente o papel e reli em voz alta.
“Estou ansioso para...” – Passei a mão no rosto - “Revê-la.” – Sorri novamente.
Levantei e fechei a porta, fui em direção á minha estante e peguei minha garrafa de vodka, sentei no sofá e resolvi esperar o dia passar.
E ele passou, não tão rápido como havia imaginado. Sentia a cada sorvo meu estado de embriaguês aumentando. Já era mais de cinco horas quando cheguei ao final da garrafa, encostei a cabeça no sofá, completamente ébria, e fechei meus olhos. Adormeci por longas horas.
Acordei enjoada, era dez e sete da noite. Levantei e vesti meu casaco, acendi um cigarro, peguei o pedaço de papel e fui para rua.
“Rua 3” – pensei. – “É aqui no centro mesmo.”
Não quis me apressar, procurei com calma o tal número. Segui até o final da Rua 3 e só então alcancei o número 38. Era um terreno com o capim alto, no fundo havia uma casa abandonada.
Entrei com certa dificuldade, o lugar era mal iluminado. Passei por toda extensão do terreno até chegar a tal casa. Ao me aproximar estremeci. O abandono era evidente, as janelas estavam quebradas e as paredes vandalizadas. Andei até a entrada e espiei pela fresta de uma das janelas. Resolvi entrar.
A penumbra tomava conta do interior. Um odor estranho parecia aumentar a cada cômodo que eu passava. O lugar estava vazio.
Subi cuidadosamente a escada que levava ao segundo andar, a cada degrau o mau cheiro parecia aumentar. Fiquei receosa e cheguei a pensar em desistir, mas fui em frente.
O segundo andar era somente um cômodo, largo e comprido. Nele, as janelas estavam pregadas e apenas alguns raios de luz pálida passavam pelas emendas.
O ar quente e o aroma desagradável começaram a me incomodar quando vi que uma luz parecia se acender no chão, em um dos cantos do quarto. Assustei-me e paralisada observei a forma que a luz tomava, pude ver então que era uma vela. Ainda sem conseguir me mover, escutei passos que vinham de trás de mim, só aí consegui me virar, meu medo era visível, mesmo envolta pela escuridão.
Os filetes de luz iluminaram o rosto que se aproximava, era o homem que havia entrado na livraria.
- O que você quer? – Perguntei e minha voz pareceu despertar o que havia de pior no lugar.
- Como esperei por isso Malina. – Ele respondeu e eu tive a impressão que ele sorria morbidamente.
- Sem rodeios, diga o que quer já me preocupei o bastante por hoje.
- Por quê? Temeu ser alguém que a conhecesse? Algum acerto de contas antigo?
- Não temo por nada, caso contrário não estaria aqui. Diga o que quer.
Ele veio em minha direção e eu respirei fundo.
- Não me parece tranqüila, muito pelo contrário, parece bem nervosa. E nossa! Como você está cheirando a bebida!
Eu permaneci calada, um misto de raiva e medo me tomava.
- Não quero desperdiçar meu tempo, vamos ao que importa. – Ele disse.
Nesse momento ele acendeu uma lanterna de luz fraca. Afastou-se de mim e seguindo em direção á um dos cantos aproximou a lanterna da parede.
Ela estava coberta por um tipo de musgo pegajoso, uma água escura parecia a ter banhado. Segurei para não vomitar quando vi que baratas e outros insetos andavam por ela.
- O que... – Tentei falar algo.
- Espere. – Ele estava sério. – Está á um instante do melhor.
Ele falou e abaixou a lanterna, iluminou o chão. Larvas pareciam espumar dele.
Senti repulsão pelo que via e desatinei-me em febre. Pus as mãos nos joelhos e curvei meu corpo, estava tonta e meu rosto ardia.
- O que você vê agora Malina? – Ele esticou a luz em minha direção, havia um esgoto entre nós.
Eu não conseguia falar, sentia-me cada vez mais tonta, vi que ia desmaiar quando ele se aproximou.
- Esse ar fétido, lhe lembra algo?
Só então sentir o cheiro que invadia minhas narinas queimando-as.
- Isso não me parece um aroma agradável. – Ele levantou a luz para o teto.
Nele mais insetos percorriam apressadamente.
- Chega. – Falei quase sem voz.
- O que disse?
Somente o olhei.
- É essa a Wilmont que você conhece? A cidade dos ratos e larvas? Onde a morte anda livremente?
Balancei a cabeça, não para negar o que ele havia perguntado, mas recusava aquela situação.
- É essa a cidade fria? Onde você se conforta? É nesse lixo em que você vive?
Ele finalmente apagou a luz e eu senti certo alívio.
- Ah sim! Assim ficou melhor não é?
- Me tire daqui. – Não conseguia me mover.
- Não, não vou tirá-la daqui. Você tem suas pernas, pode andar por aí, como sempre andou. Saia você mesma. Sozinha.
Tentei dar um passo, mas pisei em algo e voltei para o mesmo lugar.
- Até a próxima Malina, nos veremos daqui a alguns dias.
Ouvi quando ele se afastou sem se voltar para mim. Seus passos foram desaparecendo até que findaram. Um calor percorreu meu corpo, o barulho daqueles insetos era insuportável.
Movi-me rapidamente, quase correndo. Segui em direção da escada e sem ver onde ela estava acabei caindo e rolando até o primeiro andar.
A porta de entrada estava aberta, corri até ela e saí. Do lado de fora segui quase caindo até a calçada, o terreno parecia maior do que quando entrei. Com muita dificuldade cheguei à rua.
O ar frio me envolveu e senti que só então pude respirar direito. Segui no sentido da minha casa, cambaleando, lenta e debilmente.
Fiquei mais tranqüila quando cheguei em frente ao meu prédio. Parei antes de entrar e quando olhei para o outro lado da rua, vi o rapaz dos olhos tímidos. Ele me olhava atentamente. Olhei-o de volta e entrei.
Estava extremamente exausta, não só fisicamente. Sentia-me desolada, sozinha, sem ter para onde ir. Pela primeira vez sofria com a solidão.
Meu apartamento começou a parecer grande demais, vazio demais. Eu olhei para minhas coisas, pequenas coisas que havia levado anos para adquirir e pensei em como pareciam insignificantes. Andei desnorteada, sentia a falta de alguém para conversar, alguém conhecido, parente ou amigo que me escutasse por apenas breves minutos.
Sem querer lembrei-me do meu passado e sem consolo para meus próprios pensamentos lamuriei-me chorando.
A madrugada estava chegando quando finalmente sentei na sala, os pensamentos a eite. Como um zumbi vaguei pela madrugada inteira. Sóbria, sem conseguir beber, nauseada por meus próprios anseios.
A manhã finalmente chegou e eu fechei meus olhos por um instante antes da campainha soar. Levantei-me e fui ver quem era. Não acreditei quando deparei com aquele rosto.
Vi que o meu dia seria longo, e ele mal tinha começado.
(Continua).

2 comentários:
Tô lendo o seu texto, tão empolgada, tão maravilhoso esse mais um capitulo do seu blog,cheio de suspense,sombrio,assustador e aparece lá "continua". pq vc não escreve tudo de uma vez, eu estou tão curiosa agora! E o que vai acontecer? pq as pessoas sumiram? pq o seu patrão te tratou daquele jeito? tava tão legal, continue assim Falaaaaaaaa!!!!!
Calma Sarinha, se eu contar não tem graça...rsrsrs
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