segunda-feira, 28 de junho de 2010

Á procura de respostas (continuação).

"Sons ameaçadores e vozes selvagens ignoradas.
má sorte, desastre, a única recompensa
A forte proteção dos montes do Super-Homem.
Tão triste, Amor ainda permanece lá, tão triste, tão triste.
Montes Ocos
Montes Ocos..."
(Bauhaus)
- Entre. – Ele disse me conduzindo até a porta.
 
Não conseguia parar de chorar.
 
Ele me segurava e me levou até o sofá. Sentamos e então ele tirou uma garrafa com água de sua mochila.
 
- Beba. – Disse.
 
Eu agradeci.
 
- Minha cabeça dói. – Falei sem saber o que dizer.
 
- Eu imagino. Tome esse remédio. – Me estendeu uma cartela de analgésicos.
 
Tomei, não só um, mas três. Ele prestava atenção em meus movimentos.
 
- Você precisa descansar.
 
- O que está acontecendo? – Perguntei.
 
- Você foi violentada, mas a polícia já está á procura dos culpados. Esse comprimido vai lhe melhorar, então você poderá ordenar as coisas.
 
- Comprimidos? – Perguntei ao notar a entonação com que havia falado. Não acreditava no que estava vivendo, totalmente vulnerável a todos que se aproximavam. – Rachel... – Tentei falar.
 
- Não são os comprimidos dela, são somente os que você precisa agora.
 
- Obrigada Nicholas. – Falei e deitei-me, sentindo todo o peso do meu corpo.
 
Senti quando ele se afastou, mas não pude abrir os olhos, estava exausta.
 
*****

Quando acordei novamente levei um grande susto. Ainda confusa e com dor não acreditei no que via. Meu apartamento, pelo menos a sala, havia voltado ao normal. Não como era antes, havia algo diferente. Minhas coisas não estavam mais em seus lugares, mas o ambiente estava limpo e arejado. Sentia que era um lar novamente, tão meu, tão parecido comigo.
Levantei com dificuldade e percorri pela casa, Nicholas estava sentado em uma cadeira na cozinha. Tudo parecia ter voltado á sua forma de antes.
 
- O que houve? – Eu falei com a voz fraca. Ele se assustou e virou para trás me fitando.
 
- Que bom que está melhor. As dores passaram?
 
- Sim, quer dizer, não. Mas me sinto melhor.
 
- Eu dei um jeito em suas coisas. – Ele disse olhando ao redor, como se estivesse satisfeito com seu trabalho.
 
- O que é real aqui Nicholas?
 
- Não posso responder.
 
- Porque não?
 
- O que você entende por realidade? Respondendo isso, talvez eu possa ajudar.
 
- Como assim? – Perguntei ansiosa.
 
- O que lhe cerca? O que você vê ou pode tocar? Ou o que você sente? Depende do ponto de vista.
 
- É claro que o que vejo e sinto são reais. – Respondi.
 
- Então na há dúvidas. – Ele falou acendendo um cigarro. – Você conhece Wilmont, é inútil negar que a cidade não tem seus mistérios. Seus moradores estranhamente sozinhos, suas noites extremamente longas, suas drogas desconhecidas.
 
- Sim, e aí mora minha dúvida. Depois de tanto perambular, beber bebidas desconhecidas, tomar comprimidos esquisitos, não sei mais o que é real. Horas pensei estar acordada quando estava dormindo e estar sonhando quando na verdade estava acordada. As coisas assumiram um ponto sério demais para mim.
 
- Você pensa em abandonar a cidade? – Ele perguntou.
 
- Penso.
 
- Seria inútil, não posso deixar que vá embora.
 
- Então me ajude.
 
- Certamente. – Ele disse provocando um alívio imenso em mim.
 
- O que realmente aconteceu comigo?
 
- Tudo. Nada do que viu foi visão ou alucinação.
 
- Porque aqueles homens fizeram aquilo comigo?
 
- Não quer saber quem eles são primeiro?
 
- Quem são? A polícia já os prendeu?
 
- Não, nem está os procurando. Falei para lhe acalmar.
 
- Quem são então? – Estava nervosa.
 
- Um é médico, os outros, enfermeiros.
 
- De onde? E porque me violentaram?
 
- Malina, acalme-se. Ele é um conhecido psiquiatra, intruso e mesquinho. Na verdade o louco por aqui é ele.
 
- Ele acha que sou louca? Não entendo. Porque me fizeram aquilo?
 
- Vamos por partes. – Ele disse tranquilamente. – É comum que se aproveitem de pessoas quando estão frágeis. Na maioria dos casos, as vítimas nem se lembram do que aconteceu.
 
- O que você está falando Nicholas?
 
- Eles não a doparam para se aproveitarem de você, assim fizeram, pois estava impossibilitada de se defender. O que eles queriam na verdade era controlar o que ele, o médico, acha que é uma doença sua.
 
- Esquizofrenia?
 
- Talvez, não conheço nada dessas doenças.
 
- O que faço agora? Para onde vou?
 
- Querida, para lugar nenhum, Wilmont é o seu lugar se alguém tem que sair daqui são eles.
 
- Mas mal os conheço como vou saber quem são?
 
- De fato ele não está sozinho, mas você vai ter que passar por isso. Até desistirem de você.
 
- E me trancafiarem em uma cela qualquer de um manicômio qualquer? Como irei me defender?
 
- Malina, não é fácil assim. O que acha que aconteceu comigo depois de tudo o que você viu?
 
Houve uma pausa, eu me sentei e acendi um cigarro.
 
- Nicholas, o que faço?
 
- Se defenda da maneira como pode. É o que tenho feito.
 
- E se eu tentar explicar para esse médico, afrontá-lo com minhas verdades?
 
- Será uma tentativa vã. Ele irá lhe dizer que somos todos frutos da sua mente, que nada existe e que essa cidade não é o que você imagina ser. Dirá certamente que somos fantasmas, espectros que a perseguem que você mesma criou.
 
- Porque você está falando isso? Porque me ajuda?
 
- Você pediu ajuda, estou fazendo o que pediu.
 
Abaixei a cabeça e fechei os olhos, quando os abri Nicholas não estava mais ali.

3 comentários:

Sarah Miller disse...

beeeem agora meio que as coisas estão esclarecidaaaaaaaaas. hmmm to começando a entender. Uma ótima postagem continue assim, está de parabens.

Lucas Ribeiro disse...

Parabéns... Estou sem palavras...literalmente... o.O
Agora algumas coisas fazem um pouco mais de sentido...
O que é real? Nicholas, Sarah, outros usuários da pílula existem? Quer dizer, em qual realidade eles existem ?? GENIAL !!!

Poliana disse...

Oi Lucas!! Poxa, li seus comentários e tentei entrar em contato com você, mas não consegui... Primeiro quero agradecer pela atenção que dedica ao meu blog e dizer que postei finalmente algumas respostas e tudo mais. Esses contos chegam ao fim com esses dois últimos relatos. Mas não deixarei de escrever...
Muito obrigada mesmo!!
E sim, eles existem, "em que realidade" é a resposta!!
Um forte abraço meu caro!!
Poliana