terça-feira, 10 de agosto de 2010

Sarah e a noite eterna...


 "Eu vi o poder do mundo inferior,
Vi chamas derreterem a cera,
 E eu fui coroado com a nobreza 
da sedução dos desejos. 
A liberdade de meu espírito para que 
meus ombros não transportem mais do que 
a mim pertence."
(Eternal Sorrow)

"Sarah estava se afogando no lago. A água gelada ardia em sua boca, gelada e densa, a água a envolvia, quase a desejando.
Ela abria e fechava os olhos à procura de alguém e sentia o frio invadindo seus poros, enquanto a falta de ar queimava seus pulmões.
Apenas eu e os barcos no cais assistíamos sua luta pela sobrevivência. Ela dançava, se debatendo na água. Por longos segundos tentou alcançar a superfície sem sucesso.
Eu abaixei meus olhos com a certeza de que ela sucumbiria, mas "Malina!" - ela gritou e eu levantei novamente meu olhar. Um esboço de sorriso tomou conta do meu rosto."

***

Sarah era decidida. Obstinada e centrada embora fosse jovem. Tinha sempre á confusão como companhia, o que era comum para uma garota de sua idade. Ás vezes animada, ás vezes solitária e pensativa, mas sempre com uma espera por algo melhor, sempre com um sonho otimista, embora mal soubesse com o que sonhava ou pelo que esperava.

Sarah abriu os olhos, o sol brilhava em seus olhos castanhos. Estava deitada na grama verde, completamente viva e cintilante. Sua mãe gritava algo que ela se esforçava para não ouvir. Fechou os olhos, os abriu e inocentemente deixou que uma palavra saísse de sua boca: Wilmont.

Levantou-se repentinamente e praticamente correndo arrumou suas coisas. Na pequena mochila alguns pertences íntimos, dois pares de roupa e um casaco pesado. Verificou suas economias, que não eram poucas. Na verdade Sarah mal se preocupava em gastar seu dinheiro. Juntou-as de qualquer maneira e olhando para sua mãe saiu de casa.

Andou ainda por longas horas pelas ruas da metrópole onde morava, quis acender um cigarro, pensou em tomar algo, mas continuou com seus passos apressados. Chegou á estação de trem por volta das quatro da tarde, errante, sentou-se para descansar.

Encostou a cabeça na pilastra que fazia companhia ao banco onde estava sentada. Tentou adormecer, mas foi inútil. Os sons da estação não a deixaram relaxar. Ouviu passos que se aproximavam, um rapaz esguio, trajando roupas pretas vinha em sua direção.

- Oi. – Ele começou, mas ela definitivamente não estava disposta á conversar. Somente o olhou com desdém.

- Está perdida? – Ele insistiu.

- Não. – Ela respondeu rudemente. – Por quê?

- Nada. Era só para puxar assunto. Na verdade estou esperando o trem das seis.

Por breves segundos Sarah se sentiu interessada e perguntou:

- Para onde vai?

- Não faz a menor diferença. – Ele respondeu. – Só queria conversar, pois ainda falta muito para as seis.
- Diga. – Ela disse.

- Wilmont. Conhece? – Ele falou sem interesse.

- Nasci lá. – Ela disse sorrindo, sabendo que era mentira.

- Impossível. – Ele disse.

- Por quê?

- Meninas bonitas como você não costumam nascer em Wilmont. – O galanteio era evidente.

Sarah sorriu sem jeito, não sabia o que dizer.

- Eu não nasci lá, mas conheço alguém que mora lá. – Ela disse finalmente.

- Quem?

- Você não deve conhecer. Esquece.

- Então arrumei uma companheira de viagem? – Ele perguntou.

- Certamente. – Ela disse. – Á propósito, onde comprou seu bilhete? Ainda não comprei o meu.

- Nem precisa Sarah, ele está aqui. – Disse o rapaz estranho tirando do bolso dois bilhetes.

Sarah sorriu satisfeita.

***

A viagem não foi como ela esperava. Dormiu assim que sentou em sua poltrona ao lado do rapaz, só acordando quando o trem finalmente fazia sua última parada.

- Chegamos. – Disse o rapaz quando notou que ela abria os olhos.

Sarah sorriu novamente e eles levantaram descendo do trem. Já na estação Sarah se apressou novamente, tomando alguns passos de distância de seu companheiro.

- Sarah! – Ele a chamou, a fazendo virar. – Não quer que eu a acompanhe?

- Definitivamente não! – Ela disse com um sorriso no rosto.

***

“Cheguei Wilmont.” – Ela pensava enquanto andava e a cada passo, á cada esquina sentia-se como descobrindo algo. Andou por longos minutos e em hora alguma se sentiu receosa. Estava satisfeita por estar ali, mesmo sem saber para onde iria.

Atingindo o centro da cidade, Sarah parou em frente á um albergue. “Rosa Noturna” era o nome do lugar, onde um letreiro já velho piscava com sua luz vermelha, na fachada.
Sarah entrou e um homem robusto veio ao seu encontro.

- O que quer garota? – Ele disse.

- Um quarto.

- Vinte reais, uma noite.

Ela então tirou seu dinheiro o colocando no balcão.

- As chaves. – Ela pediu e ele as entregou.

Sarah subiu uma pequena escada enquanto o homem pensava em quão abusada ela parecia.

Chegando ao seu quarto Sarah colocou sua mochila na cama mal feita. Com mais calma olhou ao redor. O cômodo era pequeno, um armário de duas portas ocupava praticamente o espaço todo. A cama estava forrada com uma colcha de feltro marrom, já gasta pelo uso constante. No canto havia uma porta que dava para o banheiro. Sarah foi até ele e acendeu a luz antes de entrar. Na pia a torneira pingava incessantemente, o sanitário possuía algumas manchas, mas estava limpo.

- Perfeito. – Ela disse em voz alta. – Para o que quero, está muito bom.

Sarah voltou até a cama e desfez sua mochila. Sentou-se e quando olhou para o lado avistou uma garrafa de conhaque que estava pela metade no chão.

- Até que enfim algo agradável de ver. – Ela disse tomando a garrafa nas mãos. A abriu e deu o primeiro gole.

Sarah então notou duas portas que ficavam ao lado do armário, na verdade era uma porta dupla. Ela seguiu até elas e forçando a maçaneta as abriu. Uma pequena varanda surgiu em sua frente, a jovem que tinha a garrafa ainda nas mãos, deu outro gole na bebida, deixando que seu olhar se perdesse na paisagem noturna da cidade desconhecida.

***

Depois de uma hora, Sarah sentiu-se cansada. Voltou ao quarto então, um tanto ébria e deitou-se na cama. Fechou os olhos e adormeceu profundamente.

Ao acordar ainda era madrugada. Não quis olhar no relógio antes de sair. Desceu as escadas e em um minuto chegou á rua. A cidade dormia sob a noite gelada.
Sarah andou alguns quarteirões até que de longe ouviu a música alta que vinha de uma boate. Pensou ser um prostíbulo, mas ao se aproximar achou a melodia sombria demais para tal. Parou na porta e ao notar a recepcionista de trajes incomuns entrou sem pensar duas vezes.

Ela seguiu por um corredor escuro até que chegou á um salão amplo e ainda mais escuro. Dezenas de pessoas estavam espalhadas embaladas sutilmente ao som que ela notou ser Fields of Nephilim. Ela tentou reparar os rostos, mas todos se resumiam á vultos disformes.  Recolheu-se então ao bar que ficava na lateral do salão e sentando em um dos bancos pediu que o atendente trouxesse algo para ela beber. Sem demora o rapaz de olhos claros e cabelos castanhos a trouxe uma bebida.

- A especialidade da casa. – Ele disse.

Sarah bebeu e distraiu-se por um instante até que uma moça se aproximou dela.

- Precisando de companhia é só me seguir. – Disse e logo partiu, sumindo entre as pessoas.

Sarah olhou para o barman e confusa olhou para trás. Depois de poucos minutos levantou-se decidida a procurar tal moça. Vagueou entre os outros sem encontrá-la até que finalmente a moça a puxou pelo braço.

- Sabia que não ia demorar Sarinha. – E a puxou para um dos cantos do salão.

- Abra a boca. – A insinuante moça disse. Sarah obedeceu inconscientemente e ela se aproximou colocando um comprimido em sua boca.

“The Black Voyage” do My dying Bride começou a tocar enquanto a moça sorria e Sarah se sentia insegura pela primeira vez.

- Não se preocupe, vamos! Essa música é minha preferida. – Disse a menina.

Sarah se sentiu tonta, mas logo se misturou ao cenário, sentindo-se como parte dele. A madrugada parecia sem fim, mas Sarah se sentia inexplicavelmente disposta. Começou á distinguir os rostos alheios. As moças e rapazes, os homem e mulheres mais velhos presentes. Via agora nitidamente cada olhar, cada característica dos que a cercavam.
Estava prestes á atingir o esctasy quando a menina se aproximou novamente.

- Vamos! É nossa hora.

Sarah se deixou levar. Logo saíram do lugar e acompanhadas de mais três rapazes e duas moças pararam na calçada á espera de algo, que minutos depois Sarah viu ser uma van. Todos entraram, alguns falavam alto, alguns estavam calados. Sarah estava particularmente quieta.

Percorreram um curto trajeto até que chegaram á uma casa, que se encontrava no alto de uma colina. De lá era possível ver a cidade inteira.
Sarah estranhou ainda ser noite, mas logo se distraiu com os acompanhantes que se beijavam e se tocavam entre si.

Sua nova amiga a chamou, entre os beijos que trocava com outra moça.

- Venha Sarinha. De onde estamos ninguém nos vê.

Mas Sarah se sentia perdida, novamente uma confusão invadiu-a as têmporas. Ela se sentou na grama orvalhada e olhou para a lua crescente.

- Vou embora. – Falou quase para si mesma, levantando e descendo sobre o gramado.

- Sarah! – Sua amiga gritou, mas logo se perdeu novamente nos cálidos abraços de sua amante.

Sarah seguiu em frente, ignorando o chamado. Logo chegou á uma estrada deserta e seguindo cabisbaixa pelo acostamento se misturou aquela madrugada incessante.

Quando de longe avistou um posto de gasolina, respirou fundo. Notou um veículo que se aproximava, mas não se importou.
Quando estava quase chegando ao posto, sentiu que o carro diminuía a velocidade até que parando, uma das portas se abriu.

Um homem bem vestido desceu do carro.

- Você vem conosco. – Falou segurando-a e jogando-a dentro do veículo.

Sarah tentou olhar a paisagem noturna, a estrada solitária, a geada fria. Tentou olhar o topo das árvores que sabia estarem iluminadas pelo luar agonizante. Mas a porta se fechou e o vidro escuro a separou daquele lugar.

(Continua)

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