domingo, 5 de setembro de 2010

Além dos Montes


"Se os anjos lembrassem daqui
E os ventos pudessem cessar,
Com a sorte de um álveo quente.
O silêncio depois dos montes,
As tragetórias sem rumo.
Encontrarei o caminho de volta."

(Além dos Montes - Última Dança)

Acordei cansada, o que não era novidade para mim nos últimos meses. Um estranho incomodo ardia em meus olhos, o vazio ainda inundava a garganta.
Sozinha na miséria dos dias refletia sobre os outros, também miseráveis. Sobre os pequenos vícios e ilusões que me arrastavam para a desgraça e confusão interior ao mesmo tempo que harmonizavam os ecos sombrios do poço úmido onde estava.
Poucos passos haviam sido dados neste campo que embora sereno, estava distante de toda esperança. E assim eram os dias do final da estação, observada também á distância, de um lugar ermo e triste.

***
Últimos dias de inverno, Wilmont.

O vazio e as incertezas estavam me atormentando. Temendo as forças alheias e a manipulação barata decorrente de uma era insana, deixei minha casa e procurei refugiar-me entre as árvores de um recanto esquecido de Wilmont. Onde pelas manhãs o aroma das pequenas flores silvestres invadiam o quarto junto ao vento puramente inocente. Um lugar onde o sol brilhava aquecendo palidamente seu interior.
Sentada á mesa da cozinha meu olhar se perdia na grama cintilante e já crescida do lado de fora. Quase nunca fechava a porta que para os fundos da moradia, onde não haviam muros nem limites.
O cume das árvores acariciavam o céu longíquo e somente o som da natureza me acompanhava me fazendo esquecer de todos os outros, até mesmo o da minha própria voz.
A casa aonde me alojara estava abandonada. E apesar de ter realizado uma leve limpeza, havia teias de aranhas por todos os cantos.
Logo no primeiro dia que a encontrei notei ser a residência de um músico. A sala era preenchida por um velho piano negro empoeirado e uma poltrona solitária. Os cômodos forrados de madeira já apodrecida se resumiam á sala, um quarto de tamanho mediano, uma pequena, mas confortável cozinha e um banheiro minúsculo onde do chuveiro gotejava um límpida água. Havia também um ouro cômodo, que estava trancado. A casa era escura, só iluminada por velas e lamparinas e é claro, pela claridade do sol que entrava pelas janelas.

Sentada na sala eu observava o piano, algumas partituras estavam sobre ele. Imaginava a face do meu anfitrião desconhecido e como eram suas mãos que julgava serem hábeis ao acariciar aquelas teclas já amarelados pelo tempo. Ao espiar as partituras encontrei algumas de Chopin, Mozart e Tchaikovisky.
Certa tarde já faminta, procurei por algo que me saciasse a fome, sem nada achar. Pensei então que talvez naquele cômodo trancado houvesse algo. Fui até a porta e forcei-a sem sucesso. Voltei ao quarto e na cômoda procurei a chave. Logo a achei entre papéis envelhecidos. Voltei rapidamente ao fundo do corredor e coloquei-a na fechadura, com muita dificuldade destranquei a porta, que era velha e pesada, o que me exigiu certo esforço até que conseguisse abrí-la por completo.
Uma miscelânea de sentimentos me invadiu ao deparar com a cena contida no quarto estreito. Lá estava meu anfitrião, morto, ao lado de um violoncelo. Adentrei o cômodo de ar abafado, aproximei-me da carcaça do homem que segurava em uma mão o arco do instrumento e na outra a partitura da Sinfonia nº6 opus 74 de Tchaikovisky - sua última peça que ao ser tocada postumamente fez com que lágrimas escorrem do público.
Tomei o arco das mãos do artista, sentei-me  na cadeira coberta de pó. Verifiquei a afinação e toquei aquela melodia.
Nota por nota meu passado foi trazido e ele agora estava diante de mim.

***

Eu estava na sala, ampla e tétrica. Meu pai tocava sua viola de arco, eu o acompanhava com notas simples, no que era uma das minhas primeiras lições de violoncelo. Minha mãe estava parada na porta com os olhos marejados de lágrimas, tinha minha irmã ainda pequena no colo.

Anos mais velha eu tocava na varanda de casa, minha irmã sorria e imitava meus gestos. Dentro de casa o silêncio percorria os cômodos e a melancolia preenchia o peito dos que eu amava.

Dias após completar quatorze anos estranhei a ausência dos meus pais, ao entrar pela manhã no quarto deles os encontrei deitados, já tocados pela lividez. Suas faces estavam pálidas e suas vozes silenciadas.

Mais tarde eu e minha irmã estávamos confusas. Parentes distantes nos abraçavam sem qualquer sentimento verdadeiro, dando-nos os pêsames ao mesmo tempo que discutiam nossas guardas e a herança deixada pelos músicos suicidas.
Aos meus ouvidos a lembrança da última sinfonia doentia era arrancada do violino de minha mãe. Em minha frente os dois eram sepultados lado a lado.

***

Ao terminar a música o desespero invadiu a casa. Fui até a sala e fitando a janela sentia os vultos dos fantasmas que pareciam vagar atrás de mim. A lânguida noite deslizava sobre a tarde. Meus dedos tocavam a janela febrilmente. Eu transpirava melancolicamente, lágrimas da alma.
Dia após dia havia tentado esquecer ao mesmo tempo que procurava o porquê deles terem nos deixado. Perguntas ardiam em minha mente já cansada. Sentia raiva, eles não nos amavam, não como afirmavam frequentemente. Depois de anos rodeada pela hipocrisia, fugir tinha sido a solução, mas agora Wilmont havia me feito entender, eu nunca encontraria as respostas que procurava, meus pais as levaram consigo.

Saí desnorteada á procura do tão almejado fim. Deixei que o vento me guiasse entre as árvores. A noite cobria cada canto daquela floresta.
Vaguei á sombra do meu próprio túmulo por horas infindas até que já na aurora, encontrei um lago de águas calmas.
Aproximei-me de sua margem e sentei-me diante dele. Quando olhei para o lado vi uma silhueta distante. Levantando-me fui até ela. Aproximando-me pude notar que era uma menina, e ainda mais, vi que estava nua.
De repente ela se virou para mim, sua pele era morena e seu cabelo curto. Seus olhos estavam acinzentados e seu corpo violentamente machucado.

- Malina! - Ela exclamou. - Sabia que não perderia o ato final dessa peça!

Aos poucos ela se afastou e me deixando sozinha novamente, adentrou o lago frio.

- Sarah... - Tentei falar, mas a desilusão calou minha voz. Sabia que era inútil tentar interferir em sua última decisão.
Caminhei pelas margens do lago enquanto ela ia cada vez mais fundo. Alcancei então um decrépito cais, segui por sua estrutura frágil e sentei-me observando pequenos barcos já submersos. No fundo desejando unir-me também á água turva e ao sonho mais profundo e intocável de Sarah. Para ela a noite seria sempre eterna, como para mim os dias eram sempre cinzas.
Fitei-a segurando uma garrafa de vinho vazia que encontrei caída perto de mim. Olhava atentamente até que ela desapareceu na água.

"Sarah estava se afogando no lago. A água gelada ardia em sua boca, gelada e densa, a água a envolvia, quase a desejando.
Ela abria e fechava os olhos à procura de alguém e sentia o frio invadindo seus poros, enquanto a falta de ar queimava seus pulmões.
Apenas eu e os barcos no cais assistíamos sua luta pela sobrevivência. Ela dançava, se debatendo na água. Por longos segundos tentou alcançar a superfície sem sucesso.
Eu abaixei meus olhos com a certeza de que ela sucumbiria, mas "Malina!" - ela gritou e eu levantei novamente meu olhar. Um esboço de sorriso tomou conta do meu rosto."


Ela ainda relutou muito até que conseguisse por fim sair daquele lago. Fui ao seu encontro apressadamente. Seus olhos agora eram castanho claro num tom amendoado.
Seu corpo despido tremia, seus lábios arroxeados tentavam falar.

- Sarah, volte para casa. - Eu disse.

Ela se esforçava com os nervos já exaustos.

- Volte.

Sarah então seguiu em direção da mata fechada e desapareceu entre as árvores de inverno.

***

Eu voltei á velha casa, confusa, não tinha certeza se permaneceria ali por muito tempo. Sempre prolongando minha partida acabei estendendo minha estadia por meses, quase por um ano.
Nesse tempo Sarah ainda voltou algumas vezes á cidade. Só ela sabia aonde me encontrar.
E embora, partisse sempre, me visitava esporadicamente. Visitava-me talvez com a mesma frequência que eu, solitariamente, visitava meu passado.

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