terça-feira, 7 de setembro de 2010

Uma última carta


"Wilmont..."
"Onde as garotas boas vão para morrer.
Será onde estarei relambrando nosso amor
Como se fosse uma doença."

(London After Midnight)

Hoje escrevo de um lugar de fachada serena. Sim, só a fachada é serena, de uma arquitetura bonita, com pilares e volutas que a adornam.
As paredes brancas e janelas imensas transmitem um pouco de organização, mas estão longe, muito longe de transmitirem a cruel realidade desse interior frio e solitário.

***

Estou em um sanatório, caro leitor. Depois de tanto vagar á procura de algo que preenchesse meus dias, e tentar me esconder, finalmente me acharam e julgando-me incapaz de manter um convívio social estável, fui deixada nesse ambiente hostil. Alegaram que eu sofro de distúrbios de humor e assimilaram á mim diversos tipo de depressões. Desconheço a origem de tais ordens, mas penso que partiram de algum parente que sem ter o que fazer com suas horas, preocupou-se mais com o que andei fazendo com as minhas.
Nesses últimos dias tenho escrito bastante e mal consigo dormir com tantos gritos. Gritos dos outros internos e gritos que ecoam em meu âmago.
Para não deixar dúvidas, esse local não é situado em Wilmont, e muito pelo contrário, se encontra distante de lá.
E por falar em Wilmont, apesar de não estar mais a vagar por aquelas ruas - que o leitor conhece tão bem quanto eu - ainda sonho com cada detalhe daquele lugar. Com cada mudança de estação, com cada folha que caia diante meus olhos.
Sei que o leitor pode estar se perguntando sobre certas coisas que não contei, ou não deixei suficientemente claras. Mas a cidade havia me mostrado o caminho, não haveira respostas para nada do que tinha presenciado ali, nem mesmo respostas que eu julgava pertencerem á mim.

Hoje lembro de cada rosto que conheci, com uma precisão incrível. Da Betty, a menina da cafeteria, que despertava em mim a saudade pueril. Do Charlie, dos olhos misteriosos. Do Eric, o palhaço tristonho, que se fantasiava e tentava alegrar as pessoas, na verdade no que era seu último gesto de tentar alegrar a si mesmo. Sei que de onde estiver terei sempre a certeza de que ele estará naquele belo parque, andando solitariamente sobre as folhas amareladas do outono. E talvez, talvez ele também se recorde de mim.
Rachel, Nicholas e Daniel, jovens como eu fui, perdidos no submundo sombrio, cercados por prazeres e dores indescritíveis, quase desconhecidos pelos outros seres humanos.
Lembro-me de todos que conheci e daquele que já conhecia e que foram ao meu encontro em Wilmont. Do Aklen, um amante exímio, mas vazio como uma rua deserta... Um ermo horizonte¹. Não, ele nada tinha de diferente de nós, sua descrição foi tão somente baseada em como eu o via e como o tempo parecia correr por detrás da sua imagem.
Do Luis e seus dias solitários, seu envolvimento com Madeleine que quase o levou á morte. E ainda, como ele estranhamente se sentia atraído pelo fúnebre perfume que dela exalava.
Do Dirk, um solitário visionário que habitava a torre da catedral da cidade em seu sonho misantrópico. E como o desejei intimamente e o amei em silêncio sabendo que ele jamais se aproximaria de mim e que eu jamais o conheceria da maneira como ele verdadeiramente é.

Faces e olhares se erguem diante de mim todas as noites e antes de ser dopada e induzida á um sono sem sonhos, eu me recordo de todos aqueles que por mim passaram contando suas vidas e me envolvendo nelas.
Das histórias que contei, pude não ter sido fiel em meus relatos, mas todos existiram e para sempre existirão em minha memória.

Daqui, deste quarto privado de sentimentos, vejo a decadência dos dias e como nos perdemos de nós mesmos deixando que a inocência vá embora mediante o crescimento, intelectual e espiritual. Como aquela pureza, única qualidade que temos quando finalmente nascemos, se esvai facilmente durante a tempestade das noites escuras.

Muitos outros fatos ainda serão econtrados pelas salas esquecidas nas quais estive, mas esse conjunto é para mim o mais importante. Portanto peço para quem o achar, que o publique sem alterar uma vírgula sequer. Meus sentimentos dependem disto. Hoje mais velha, desisto de tentar entender e uno-me á partir de agora ás outras vozes que sozinhas e atormentadas, foram esquecidas neste lugar.
Conto com a sorte para que estes escritos sinceros cheguem ás mãos de alguém que os deixem á salvo, caso contrário tudo estará perdido. Mas isso é irrelevante. Wilmont existe e pode ser encontrada por qualquer um que a queira encontrar. Como certa vez um desconhecido me disse: "Alguém haverá de contar essas histórias", E se eu não o fizer, outra pessoa certamente fará.

É chegada a hora de partir caro leitor. Ouço passos que vêm do corredor. Logo terei a dose suficiente para me fazer dormir por dez horas seguidas sem sequer me mover durante o sono. E amanhã ao acordar terei caído finalmente no que chamo de campo do esquecimento, onde me esforçarei para não lembrar nem do meu próprio nome. Mas as faces e tudo que fui e vi estarão sempre guardadas em local seguro. Local esse, que se encontra em você, caro leitor.

Atenciosamente,
Malina.

***

Esses textos foram encontrados após uma nova transferência de quarto da paciente, depois de mais uma tentativa de suicídio mal sucedida. As folhas ordenadamente separadas, foram achadas entre as espumas do colchão e levadas ao conhecimento do público de maneira exata, como foi pedido pela autora.
O sanatório foi interditado depois de denúncias dos próprios funcionários e a paciente foi novamente transferida para outra instituição de localização desconhecida.
Em outros quartos foram encontradas mais dezenas de histórias da autora entre outras histórias de outros pacientes. Estas que me esforçarei, no tempo certo e seguro, para contá-las, como fiz com esse primeiro conjunto de relatos.

¹ Trecho retirado da música "Presente Presságio" - Solene Nênia.

3 comentários:

Lucas Ribeiro disse...

INCRIVEL... Sabe... eu me achava uma pessoa moderadamente articulada, mas você tem a incrivel capacidade de me deixar pasmo e, como eu ja disse, sem palavras... =D

A saga da Malina chegou ao fim então... Uma pena... Você vai continuar escrevendo sobre Wilmont? Se bem que, com você escrevendo, até receita de brigadeiro deve ficar intrigante e misteriosa... uhasuahsuashausa
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Aí vai um contato: lucaspedra_3000@hotmail.com

Poliana disse...

Oi Lucas!!! Vou continuar escrevendo sim!! Mas algumas histórias ficam por aqui...
Nossa, muito obrigada mesmo, você é que me tira as palavras...rsrsrs
Já lhe adicionei aos meus contatos!! Um grande abraço e obrigada sempre!

Solitude disse...

Irmã querida,saiba que tens em mim um grande admirador de teu talento.Desde os contos antigos que me emocionam tantas linhas sensíveis...Quantas noites,em isolamento,verti lágrimas ao deitar meus olhos em tão belas palavras...Continue sempre a escrever...Um blog lindo,tanto visual como textualmente...