quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Dias de inverno...


"Acredito que uma vez tocado pela solidão, 
Você jamais será capaz de livrar-se dela."
(Malina)


Sim, eu estava novamente só. Sob um daqueles invernos rigorosos, vendo todas as vidas refugiarem-se e todas as paisagens congelarem-se. Sob o teto, coberto de gelo, eu tentava aquecer-me. Não o corpo, vil e degradado, mas a consciência rudimentarmente frágil.

Tentava aquecer-me, esquecer-me, talvez. O frio cortava, e embora protegida, sentia-me exposta á ele, como se estivesse submersa á uma banheira cheia de gelo, onde á cada dia afundava-me mais e mais. Até que finalmente sucumbindo, deixar-me-ia entorpecer de vez.

* * *

 Reclusa no labirinto dos dias, com a solidão á esmagar-me o peito. Recordava-me da primeira vez em que deparei com a solidão e como ela veio com passos leves, me acordar de um sono profundo.

Do lado de fora o inverno, o antes adorado inverno, agora me fazia tremer de medo. Nas estações que se passaram, eu havia torneado a fome e a angústia, dentre outros males de minha limitada existência. Mas agora o inverno assustava-me, como um animal selvagem faminto.

Pelas manhãs notava ser praticamente impossível conseguir o que comer, ás vezes faminta, era obrigada a enfrentar a geada em busca de lenha, se nada fizesse, morreria de frio.

Quando retornava á velha cabana, perguntava a mim mesma: "Porque estou resistindo tanto?"
E então me vertia em lágrimas e profundos soluços, perdendo o fôlego durante longos minutos.

E novamente, antes de deitar-me, a solidão estagnava-se ao meu lado, maciça, presente. E antes de fechar os olhos era quase impossível não sonhar com a morte.

Dias e noites sem respostas, Wilmont virava-se do avesso para mim. Sufocava-me até que eu empalidecesse, agredia-me com os fragmentos dos sentimentos que eu mesma havia devotado á ela.

***

Certa manhã, levantei entristecida e com frio, a madeira que há tempos não repunha havia finalmente acabado durante a madrugada. Espiando pela janela lamentei a tempestade, talvez pela primeira vez em minha vida.
Em meu estômago a dor latente. Decidi que sairia, caso contrário, morreria de frio e fome.
Vestida com as únicas vestes que possuía, atravessei a porta, desejando intimamente, não voltar a fazê-lo.
Perdi-me nos convexos campos, submersos á metros de neve notando em como as árvores altas ora pareciam menores.

Cruzei com passos cansados os campos vazios, macilentos. Levei-me ao extremo, até que pudesse atingir finalmente o arvoredo de onde retirava a madeira que me era necessária. Com muita dificuldade esforcei-me para conseguir o que desejava, em certos minutos uma longa pausa se fazia necessária para que a fome, causadora de uma forte vertigem, passasse e eu retomasse minha consciência e meu trabalho.

Consegui obter muitos pedaços de madeira, o máximo que podia. Quando terminei, resolvi voltar imediatamente, pois escurecia cada vez mais e eu não tinha sequer conhecimento sobre as horas. Se a noite finalmente caísse, eu ficaria perdida.
Parti, apressando os passos que afundavam na neve. Quanto mais andava, mais parecia distante, o peso que carregava era um outro obstáculo, dificultando-me, além de outras coisas, de respirar.
Aos poucos o desespero foi ao meu encontro e quando vi que o céu enegrecia, empalideci-me e sem conseguir chorar, me senti desistir.

***

Lembro-me de ainda conseguir seguir alguns metros, antes que a noite finalmente reinasse sobre mim e aquela natureza fria á minha volta viesse ao meu encontro me fazendo em poucos segundos me declinar á sua beleza austera.
Caí, afundando o flanco do rosto na neve, numa altura onde não podia sentir mais nada senão o sentimento de abster-se da vida, profícuo ao último ato.
Fechei os olhos, se é que eles realmente encontravam-se abertos e apaguei-me aos poucos.
Fui acordada aos movimentos de mãos ágeis que me tocavam os ombros. Senti-me retomar o fôlego quando estas levantaram meu rosto e o livraram da neve que o cobria.
Tentei enxergar á minha volta, só a escuridão nos assistia. Assim que com muita dificuldade ergui-me do chão, tentei olhar quem me salvava.
Embora estivesse fraca e com a percepção debilitada, pude reconhecê-lo. Era o rapaz de olhos atentos, que já tentara me alertar sobre o perigo que me cercava, mesmo quase não se dirigindo á mim.

Ele vestia casacos muito pesados e sua face estava praticamente oculta embaixo de tantos agasalhos, mas mesmo assim eu o reconhecia.
Ele segurou forte em meu braço e me arrastou consigo e eu mal pude acreditar no que vi quando ergui meus olhos: estava há poucos passos da cabana onde morava.

***

Não incomodarei o leitor com o que se passou enquanto convalescia, dado o fato que mal sabia o que me cercava e que estive beirando os caminhos da morte por longas semanas. Se não fosse pelo homem que me socorrera, certamente teria partido, pois além de me socorrer daquela hora, ele tratou de vigiar-me nas semanas seguintes.

- Você está curada. – Ele disse certa manhã, quando finalmente me sentia melhor.

- Acho que s... – Tentei falar, mas minha voz ecoava como num poço dentro de mim.

- Mas ainda deve estar cansada... – Ele falava enquanto mexia no armário ao lado da cama.

O olhei imaginando mil coisas, quando ele voltou a falar:

- Não me julgue pelos meus trajes, não sou um ladrão, esta é minha casa.

Antes que eu pudesse me desculpar por tê-la invadido, ele tornou a falar:

- Mas não se preocupe, sei que só ficou por necessidade. Sei que não seria capaz de roubar-me.

Um dia inteiro se passou até que eu finalmente recobrasse minhas forças e estivesse pronta para conversar com ele.

Sentei-me na sala, onde ele também estava a tomar uma xícara de café. Fitei-o do canto, sua face era para mim um enigma.

“Não posso falar com você agora Malina!” – Sua imagem era viva em minha memória.

- Você não vai me dizer quem é? – Perguntei sorrindo.

- Você é quem deveria me dizer. Você invadiu minha casa. – Falou com certa harmonia

- É verdade, perdoe-me. Não tinha para aonde ir.

- Imagino que não.

Houve silêncio, reparei-o então. Sua barba crescida cobria-lhe grande parte da face, imaginei que seria para defendê-la do frio. Seus olhos ainda atentos pareciam mais velhos, não fisicamente, apenas não brilhavam mais como da primeira vez que os vi.

Mesmo coberto com muitos agasalhos e a barba e o cabelo lhe cobrindo a face, não parecia mais velho, sua face ainda jovem, era muito evidente para mim.

- Quantas pessoas você conhece, que fugiram como você?

- Não conheço muitas pessoas assim. Falei sufocando a dor da lembrança dos meus pais.

- Perdoe-me se disse algo que a feriu. – Ele disse ao notar meu constrangimento. – Só quero dizer-lhe Malina, que isolar-se não irá ajudá-la.

- Mas não tenho tantos amigos, não vivo rodeada de pessoas como está pensando. Estar ou não só, não é a questão. Estão ameaçando me matar, não posso voltar á cidade.

- Eu sei. – Ele disse abaixando o olhar. – Na verdade deixei que ficasse em minha casa, certa noite quando cheguei a vi enquanto dormia, como sabia o que estava enfrentando, deixei que ficasse. Apenas á acompanhei á distância.

- Mas... Se eu soubesse teria partido não queria tirá-lo da sua casa!

- Você não tinha para onde ir, eu sim. Desses cantos eu entendo, tenho onde ficar caso precise. Só vinha olhar certas horas, para ver se estava tudo bem. Na noite em que a encontrei me atrasei por causa da tempestade, quando a vi, achei que já fosse tarde.

- Obrigada. – Eu disse. – Não tive tempo para agradecê-lo.

- Ora! Você agradeceu muitas e muitas vezes, durante a sua febre.

- De qualquer forma... Se não fosse por você...

- Salve-se Malina! Não espere que o façam! – Ele disse e eu me assustei.

Seu olhar penetrou o meu, incomodando-me. Havia algo, que eu precisava enxergar, mas não conseguia. Algo muito claro, evidente, mas por mais que eu me esforçasse, não conseguia ver com clareza.
A noite chegou apressadamente e embora acompanhada desta vez, continuava a sentir-me sozinha.

- Isso deixou de ser apenas imaginação Malina, tornou-se verdade. E você sabe sobre verdades... Normalmente, elas...

- Machucam. – Terminei.

(Continua)



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