"O caminho do desmedido conduz ao palácio da sabedoria."
(William Blake)
"Eu estava sentada no meu sofá. Na mesinha ao lado um cigarro queimava lentamente, era a companhia perfeita para meu meio copo de conhaque. Sim. Estava de volta á minha casa. Mais centrada, mais segura, talvez. A nostalgia e a solidão ainda me eram companheiras, mas semelhantes á mim, também haviam envelhecido."
* * *
Sentada no braço do sofá, eu fitava a rua pela janela. As tristes gotas de chuva escorriam pelo vidro, hora sim, hora não, então de novo, num ritmo estranho, desenfreado.
Lá fora aquela imagem cinza, a cidade e seus encantos, tão elevados aos meus olhos.
Era estranho quando me sentia revivendo certos sentimentos. Como se estivesse vivendo alguns momentos do passado de novo, pressentindo o perigo e ao mesmo tempo indo em sua direção. Era estranho ter que aceitar minha natureza, e saber como seria todas as vezes que se deparasse comigo mesma. Era. Era muito estranho... E aquela sensação, estava voltando... Sentia que não poderia evitar, sentia que embora mais experiente e desiludida, nada me impediria de agir livremente, como sempre o fizera, nada, nem minha própria destoante e nefasta razão.
* * *
Saí de casa. As ruas estavam desertas. Fazia frio e o vento corria pelas ruas úmidas de inverno. Andei como sempre, divagando por entre as sombras, á procura do acaso, da noite.
Percorri pelo centro da cidade, com passos apressados. Desci até bairros mais isolados até que encontrasse uma rua deserta. A madrugada se aproximava, ágil e vigorosamente. Vinha ao meu encontro, fitando meus olhos.
Descendo mais, até que todas as ruas se resumissem á veias de uma necrópole de vultos, senti a solidão, como uma outra presença ao meu lado.
Uma luz tímida brilhava numa esquina distante, refletia nas poças d'água junto aos pedaços do negro céu que a tudo regia.
Alcancei-a vagarosamente, entre tragos compridos, passos longos, vagarosos, atenção distante.
Uma pequena porta vermelha estava entreaberta, pela fresta fugia uma luz amarelada, fosca. Aproximei-me da mesma para espiar e quando o fiz, senti um aroma adocicado de uma essência que queimava. Pelo que podia ver, as paredes internas eram amareladas, antigas. Um carpete vinho desbotado cobria o chão, mais baixo que a calçada onde eu estava. Prestei atenção, alguns sons delicados começaram a surgir. Um mensageiro do vento anunciou sorrisos tímidos e uma conversa baixinha, íntima.
Afastei-me da porta e traguei meu cigarro, encostei-me numa árvore e fitei suas folhas. Pensei ter fechado os olhos, pois de repente um rapaz surgiu do meu lado.
Cabelos nos ombros, olhos puxados, barba mal feita. Com o olhar perdido aproximou-se de mim, sem dizer nada, tomou o cigarro da minha mão. Tragou, logo me fitando pela primeira vez. Soltou a fumaça enquanto me encarava, só então temi, o seu olhar era profundo.
- Não vai entrar? - Ele disse, e sua voz ecoou em meus ouvidos. Como se viesse do infinito.
- Não sei. - Respondi, pasmada.
Ele então deu dois passos atingindo a porta e a abriu, esticou sua mão e alcançando a minha puxou-me para dentro.
A sala da entrada era como havia visto, nas paredes envelhecidas pinturas de plantas, animais, símbolos estranhos. O espaço preenchido por móveis baixos, e muitas miniaturas de diversos tipos e cores, tinha no canto uma fonte artificial e no centro - uma porta.
O rapaz entrou, algumas vozes vinham dessa porta central. Ele fez sinal com a mão para que eu o seguisse. Abrindo lentamente a porta, adentramos um outro quarto. Estreito, comprido, forrado de madeira escura, cinco pessoas encontravam-se sentadas no chão, envoltas á penumbra. Na parede distante, um tipo de altar, algumas velas estavam acesas sobre ele.
Olhei para as pessoas no chão, algumas estavam deitadas, uma fumaça estranha pairava no ar viciado.
- Mateus trouxe uma amiga. - Disse uma voz feminina, simpática.
Ele sorriu. Daquelas pessoas, umas fumavam ópio, outras haxixe.
- Sente-se moça, disse um dos rapazes. - E eu me sentei, encostando a cabeça na parede. Olhando o teto escuro.
Longos momentos permaneci ali, parecendo perdida entre uma droga e outra. Entre a fumaça e o som suave daquelas vozes, entre a realidade e a utopia.
- Vamos beber um pouco de vinho. - Disse Mateus. - E com muita dificuldade me levantei.
Fomos até a sala e então ele abriu uma porta lateral que dava para uma área do lado de fora da pequena casa. Era uma espécie de quintal minúsculo, apenas um quadrado cercado de muros onde algumas plantas estavam penduradas. Mateus olhou-me nos olhos, assustando-me.
- Porque tenho a sensação de conhecê-lo? - Perguntei sem pensar.
- Talvez me conheça. - Ele respondeu.
- Estranho. - Eu disse.
- E o que não é estranho? - Ele sorriu.
- Olhe, tenho algo para você. - Ele falou esticando uma das mãos.
- O que é? - Perguntei.
- Uma chave.
- Que abre... - Esperei que ele continuasse.
- As portas que ainda se encontram trancadas. - Concluiu.
Tomei de suas mãos aquela matéria estranha, sem descrições ou sequer sentido. Pegajosa, gelada talvez. Penso ter a tocado com os lábios, ou a posto nos olhos... Com os sentidos já comprometidos, não respondia pelos meus atos.
* * *
Sentamos no chão molhado, sentia-me despida, algo me incomodava. Um vento frio, muito característico nos envolvia. Senti-me cansada, exausta. Já ia reclinar a cabeça quando ele levantou rapidamente, puxando-me pelos braços, forçando-me á acompanhá-lo.
- Vamos, é hora de passearmos. - Disse enquanto saíamos da pequena casa.
Na aurora percorríamos as ruas ainda desertas. O céu pálido dava á tudo um mórbido tom cinza. Eu olhava as árvores, as casas e era como se tudo não passasse de uma fotografia em preto e branco.
Seguimos absortos, perdidos, mas numa mesma direção. Até que em certo ponto, ele parou e como se não houvesse nenhuma preocupação, sentou-se num pequeno muro de uma casa qualquer.
- O que foi? - Perguntei. - Porque parou?
- Acalme-se Malina, sente-se ao meu lado, já vai começar.
Obedeci e sentei-me ao seu lado, sem entender, fitei a rua.
Alguns barulhos começaram a surgir, primeiro ouvi como se houvesse uma respiração lenta, depois mais rápida e lenta novamente. Em seguida, sons muito sutis, como se fosse capaz de ouvir o barulho provocado pelo contato de lençóis com a pele. Sussurros, sons quase imperceptíveis. E então passos, lentos, que se arrastavam bem devagar.
Eu não conseguia me mover, estava parada, hipnotizada pelos sons. Passaram então, a unirem-se á outros novos sons. Os mesmos talvez, com mais e menos intensidade. Sons, diversos tipos, de talheres, de torneiras sendo abertas, de água. Estava assustada, impressionada. Mateus então tocou meu queixo me forçando á olhar para frente.
- E então, é hora do espetáculo. - Apontou para frente.
E uma cena terrível assustou-me profundamente. As pessoas surgiram, algumas saindo de suas casas, outras chegavam até as varandas de suas casas. Algumas transitavam pela calçada, outras iam até o ponto de ônibus. Tudo normal, agiam normalmente, mas eu mal podia acreditar no que meus olhos viam: Elas estavam todas, cobertas com um véu branco, da cabeça aos pés.
* * *
Todas, exatamente todas as pessoas estavam cobertas. Aquela imagem assustou-me tanto que fechei os olhos na tentativa de fazê-las desaparecer, mas nada adiantou. Ao abrir os olhos lá estavam elas, todas cobertas com aquela mortalha, aquele véu infausto.
- Que tipo de brincadeira é essa? - Gritei. Suava frio, coração disparado.
- Acalme-se. - Mateus parecia tranquilo.
Saltei do muro, quando uma pessoa passou por nós e correndo atrás dela, tentei livrá-la da mortalha. Era uma jovem moça, baixa, cabelos ruivos. Parei em sua frente a segurando pelos braços, a sacudi, mas ela continuou andando, levando-me junto á ela com uma força inimaginável. Tentei novamente arrancar o véu que a cobria, mas não conseguia. Gritei então, alta e desesperadamente, mas era como se ela não pudesse me ver nem ouvir.
- Ela não a ouve Malina! - Gritou Mateus, do outro lado da calçada. - Venha! Vamos embora!
Corri até ele, desatinada.
- O que está havendo Mateus? Que pano é esse? Estou sonhando?
- Não, não é um sonho. Venha comigo.
Andamos então, o fluxo de pessoas aumentava, ao passar por elas eu me encolhia, agarrando forte o braço do rapaz que me acompanhava. A aparência era terrível, como vultos, todos, todos cobertos por aquela mortalha.
Afastamos-nos da cidade e só quando o número de vultos que passavam por nós diminuiu consideravelmente, é que percebi o cheiro, que vinha deles. Algo sintético, ao mesmo tempo colérico.
Andamos por quilômetros, até que atingimos a saída da cidade, continuamos pela estrada e apavorizei-me quando vi que as pessoas que estavam dentro dos carros que passavam por nós, também estavam cobertas.
- Já estamos chegando. - Mateus tentou acalmar-me.
Atingimos um monte, um pequeno monte, de onde se via um tímido e silencioso lago. Mateus sentou-se na grama e logo também o fiz.
Nuvens negras se aproximavam, causando um vento atormentador. Logo a tempestade veio e somente quando a chuva caiu pesadamente sobre nós é que ele começou a falar.
- Assustou-se Malina?
Era óbvio, não respondi.
- Não esperava que ver isso, fosse surpreendê-la. - Continuava calada, apenas o fitando com certa raiva. - Não fique brava comigo, - ele disse. - Você deveria estar orgulhosa de estar aonde está.
- Como é que é? - Perguntei perplexa.
- Sim, deveria se orgulhar. Não viu? Não viu aquelas pessoas?
- Aqueles vultos, você quis dizer. - Corrigi.
- Não, aquelas pessoas. - Ele continuou. - Não eram vultos. Eram pessoas, os moradores de Wilmont, pessoas normais.
- E porque deveria me orgulhar em vê-las assim?
- Porque você não é como elas. Elas andam, marcham, galopam, sem saber para onde estão indo. Fazem o que lhes é imposto, obedecem, conformam-se. Conformam-se com tão pouco. Com nada. Essa é a humanidade, da maneira como ela realmente é: cega, surda.
Não havia o que dizer.
- Você tentou falar não foi? Gritou não foi? Mas elas não puderam ouví-la, não é mesmo? Nunca poderão ouví-la, Malina, muito menos entendê-la.
- Porque isso?
- Porque vocês não falam a mesma "língua".
Fiquei parada. Cansada. A chuva diminuía aos poucos até que cessou-se. Só então vi uma mulher, também sob a mortalha que ajoelhada, levantava os braços para o alto parecendo rezar. Seu véu não tinha fim, cada vez que ela levantava os braços, ele parecia aumentar, sem mostrar sequer seus pés.
- Impessionante. - Deixei escapar.
- Pois é, também acho. - Ele disse.
- Então era isso? Era essa a porta a qual se referia?
- Sem mais respostas Malina. - Ele sorriu.
- Estou realmente cansada. - Falei deitando no chão, fechando os olhos.
- Eu sei. Eu sei. - Ele disse.
* * *
Ao abrir os olhos estava em casa. Sentada no braço da poltrona, á observar a chuva do lado de fora. As tristes gotas de chuva escorriam pelo vidro, hora sim, hora não, então de novo, num ritmo estranho, desenfreado.

3 comentários:
Oii, querida!! Nossa! Que texto maravilhoso!! Ele é forte, sensível, intenso, delicado e macabro, tudo ao mesmo tempo! Fantástico! EU AMEI!! Você tem talento!! Go ahead grrrl!! ^^ rsrs...
Gostaria que comentasse em meu blog, "Entretenha a Mente!"
www.artes-e-entretenimento.blogspot.com
Postei uma crítica sobre o filme "De Olhos Bem Fechados", com Tom Cruise e Nicole Kidman, escrita por mim!
Conto com sua opinião!
Me siga! Já estou te seguindo!!
Mil beijos,
Mari.
(Sou a dona do "Riot Vicious' Blogspot"!)
Nossa, ao voltar pra cá é como me sentir em casa de novo, dificilmente suporto ficar longe de wilmont. E agora ao final do texto entendo o por que de todas as pessoas estarem com um veu branco. Fascinante. Só podia ser obra tua, Malina, só podia
Sarah Miller....Sumiu...Me abandonou....rsrsrs Tudo de bom Sarinha....Wilmont não te esqueceu não tá? rsrsrs beijinhos amore.
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